Anorexia bate às portas da moda

Maricel Chavarria
Em Barcelona

As associações espanholas contra a anorexia e a bulimia pediram ao governo que sejam cumpridos todos os acordos do conselho setorial sobre transtornos da alimentação (que não se reúne desde 2002) e que transforme em lei as dez recomendações aprovadas por unanimidade no Senado sobre os condicionantes extra-sanitários da anorexia e da bulimia.

Trata-se, entre outras coisas, de que a publicidade e a moda não utilizem imagens de mulheres com peso inferior ao saudável e que se estabeleçam de uma vez tratamentos específicos para esses pacientes, 90% do sexo feminino.

O último evento de moda Cibeles, em Madri, provocou polêmica: essas associações afirmam que "faz tempo que não víamos corpos tão magros" e lembram que se trata de eventos subvencionados por verbas públicas, enquanto o setor da moda afirma que não desfilaram modelos com tamanhos menores que 38. Na Assembléia de Madri, o Partido Socialista pediu nesta quinta-feira (23/02) que o governo regional e o Ifema respondam às denúncias segundo as quais desfilaram modelos com tamanho 34 ou 36, contra as recomendações do Senado.

A diretora do desfile, Cuca Solana, afirmou à agência Efe que as 82 modelos que se apresentaram na semana passada "não são extremamente magras, muito pelo contrário", enquanto o estilista Roberto Torretta lamentou que se trate com "tanta banalidade" a anorexia, "uma doença social de nossa época que não tem nada a ver com moda".

A porta-voz da Associação em Defesa da Atenção à Anorexia Nervosa e Bulimia (Adaner), Carmen Gonzalez, explicou a este jornal sua primeira experiência como espectadora de um desfile de moda.

"Estive na Cibeles, e ao vivo parecem muito magras, patéticas; sem maquiagem não se diferenciam em nada das meninas anoréxicas que procuram auto-ajuda. Elas mesmas admitiram: uma media 1,82 e pesava 52 quilos. É preciso ver se cumprem os índices de massa corporal definidos pela OMS. Além disso, elas dizem que são obrigadas a emagrecer se quiserem trabalhar."

A Adaner acredita que as recomendações do Senado "são inúteis e talvez tenhamos de endurecer". Em seus 15 anos de vida como associação, viu o perfil das doentes se transformar.

"Antes começavam restringindo a alimentação, e agora comem diante da família mas usam métodos compensatórios como laxantes, diuréticos, vômitos, que descompensam gravemente o equilíbrio entre sódio-potássio", indica Gonzalez. "Na anorexia purgativa, o peso não é tão importante, mas a situação psicológica é brutal e a sensação de fracasso traz idéias suicidas."

A presidente da Federação de Associações contra a Anorexia e a Bulimia, Carmen Galindo, pede por sua vez que se publique um estudo antropométrico sobre a população que a Indústria encomendou na última legislatura do Partido Popular, e que sirva para regulamentar o tema dos tamanhos.

"O modelo de mulher que se vende --extremamente magra, alta, jovem, bonita, inteligente, trabalhadora e que se mantém sempre assim-- é antinatural", aponta. "Não quero dizer que a moda seja a causadora da anorexia, mas o modelo estético que nos vendem leva a isso; se a Cibeles quer passear esqueletos, que diga que é antinatural."

Para o psiquiatra Ignacio Jauregui, chefe da unidade de transtornos de conduta alimentícia do hospital Infanta Luisa, em Sevilha, "o estereótipo da beleza e forma corporal se modificou nas últimas décadas: hoje se mostra uma mulher com esquinas, mais que com curvas".

"Essa pressão é exercida fundamentalmente não sobre a mulher, mas contra ela: é a cliente majoritária das academias para emagrecer, dos produtos dietéticos, artigos para exercícios em casa, cosmética, herboristeria, complementos alimentares... e as revistas são dirigidas descaradamente para ela. É uma questão em que o gênero tem uma importância extraordinária. Mas vai ser difícil mudar as coisas: há poderosos interesses econômicos", acrescentou.

Magra e jovem

Em qualquer tipo de transtorno alimentar, a influência da cultura é básica. A moda e os ícones da magreza como referências estéticas estão fazendo que muitas adolescentes --e também mulheres de 30 e 40 anos, que começam tarde na anorexia-- adotem dietas selvagens sem qualquer tipo de controle, segundo especialistas em saúde mental.

"Há um anseio social pelo corpo magro e jovem que corre paralelamente aos alimentos 'light', às academias e à cirurgia estética. Esse valor condiciona todo mundo, mas um adolescente é muito mais vulnerável", indica Luis Ferrer, chefe de saúde mental do hospital Juan Canalejo em A Coruna.

A anorexia é um transtorno mental ao qual se chega por vias diferentes, explica Ferrer: alterações biológicas (qualquer patologia do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas); de ordem intrapsíquica, onde entra em jogo, por exemplo, a negação da sexualidade, conflitos de desenvolvimento ou traumas; de relação familiar (aqui se apresenta não tanto como um "por quê" mas como um "para quê", para retardar, por exemplo, a passagem da adolescência para a juventude, mantendo toda a família em um jogo relacional de infância, ou para deixar estacionados conflitos que ameaçam a estrutura familiar); e por último a influência sociocultural, em que entra em jogo o papel social da mulher, a sociedade de consumo, a influência da mídia...

A restrição voluntária de alimentos pode conduzir à anorexia nervosa, como demonstrou um experimento feito em Minnesota (EUA), no qual os voluntários se fecharam cercados de comida sob o lema de comer o menos possível: desenvolveram irritabilidade, ansiedade, indecisão, isolamento, obsessão...

Contudo, o tratamento da anorexia que tem origem em fatores socioculturais --para alguns uma autêntica epidemia por sua atual freqüência-- tem possivelmente melhores prognósticos, segundo Ferrer, "porque se trata definitivamente de reeducar os hábitos alimentares".

Mesmo assim, só 25% das anorexias são curadas; outros 25% têm recaídas --os estímulos socioculturais continuam presentes--, outros 25% melhoram mas a doença torna-se crônica e o restante acaba em morte ou suicídio.

Recomendações

  • Tamanho e peso

    Não devem servir de critérios para aceitar ou demitir alguém de seu trabalho.

  • Publicitários

    Não devem utilizar a imagem da mulher com um peso claramente inferior aos limites saudáveis.

  • Menores

    Deve-se evitar que menores de 18 anos exibam roupas de adulto em passarelas e anúncios.

  • Falsa publicidade

    Será aplicado rigorosamente o decreto real sobre publicidade enganosa e os chamados produtos milagrosos.

  • Campanhas

    Serão promovidas campanhas de prevenção e informação dirigidas ao pais e monitores esportivos, para treiná-los na detecção precoce dos sintomas. Se evitará dirigir essas campanhas diretamente aos jovens para evitar um efeito reverso. ONGs pedem ao governo espanhol que proíba modelos magérrimas Luiz Roberto Mendes Gonçalves
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