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24/02/2006
Anorexia bate às portas da moda

Maricel Chavarria
Em Barcelona


As associações espanholas contra a anorexia e a bulimia pediram ao governo que sejam cumpridos todos os acordos do conselho setorial sobre transtornos da alimentação (que não se reúne desde 2002) e que transforme em lei as dez recomendações aprovadas por unanimidade no Senado sobre os condicionantes extra-sanitários da anorexia e da bulimia.

Trata-se, entre outras coisas, de que a publicidade e a moda não utilizem imagens de mulheres com peso inferior ao saudável e que se estabeleçam de uma vez tratamentos específicos para esses pacientes, 90% do sexo feminino.

O último evento de moda Cibeles, em Madri, provocou polêmica: essas associações afirmam que "faz tempo que não víamos corpos tão magros" e lembram que se trata de eventos subvencionados por verbas públicas, enquanto o setor da moda afirma que não desfilaram modelos com tamanhos menores que 38. Na Assembléia de Madri, o Partido Socialista pediu nesta quinta-feira (23/02) que o governo regional e o Ifema respondam às denúncias segundo as quais desfilaram modelos com tamanho 34 ou 36, contra as recomendações do Senado.

A diretora do desfile, Cuca Solana, afirmou à agência Efe que as 82 modelos que se apresentaram na semana passada "não são extremamente magras, muito pelo contrário", enquanto o estilista Roberto Torretta lamentou que se trate com "tanta banalidade" a anorexia, "uma doença social de nossa época que não tem nada a ver com moda".

A porta-voz da Associação em Defesa da Atenção à Anorexia Nervosa e Bulimia (Adaner), Carmen Gonzalez, explicou a este jornal sua primeira experiência como espectadora de um desfile de moda.

"Estive na Cibeles, e ao vivo parecem muito magras, patéticas; sem maquiagem não se diferenciam em nada das meninas anoréxicas que procuram auto-ajuda. Elas mesmas admitiram: uma media 1,82 e pesava 52 quilos. É preciso ver se cumprem os índices de massa corporal definidos pela OMS. Além disso, elas dizem que são obrigadas a emagrecer se quiserem trabalhar."

A Adaner acredita que as recomendações do Senado "são inúteis e talvez tenhamos de endurecer". Em seus 15 anos de vida como associação, viu o perfil das doentes se transformar.

"Antes começavam restringindo a alimentação, e agora comem diante da família mas usam métodos compensatórios como laxantes, diuréticos, vômitos, que descompensam gravemente o equilíbrio entre sódio-potássio", indica Gonzalez. "Na anorexia purgativa, o peso não é tão importante, mas a situação psicológica é brutal e a sensação de fracasso traz idéias suicidas."

A presidente da Federação de Associações contra a Anorexia e a Bulimia, Carmen Galindo, pede por sua vez que se publique um estudo antropométrico sobre a população que a Indústria encomendou na última legislatura do Partido Popular, e que sirva para regulamentar o tema dos tamanhos.

"O modelo de mulher que se vende --extremamente magra, alta, jovem, bonita, inteligente, trabalhadora e que se mantém sempre assim-- é antinatural", aponta. "Não quero dizer que a moda seja a causadora da anorexia, mas o modelo estético que nos vendem leva a isso; se a Cibeles quer passear esqueletos, que diga que é antinatural."

Para o psiquiatra Ignacio Jauregui, chefe da unidade de transtornos de conduta alimentícia do hospital Infanta Luisa, em Sevilha, "o estereótipo da beleza e forma corporal se modificou nas últimas décadas: hoje se mostra uma mulher com esquinas, mais que com curvas".

"Essa pressão é exercida fundamentalmente não sobre a mulher, mas contra ela: é a cliente majoritária das academias para emagrecer, dos produtos dietéticos, artigos para exercícios em casa, cosmética, herboristeria, complementos alimentares... e as revistas são dirigidas descaradamente para ela. É uma questão em que o gênero tem uma importância extraordinária. Mas vai ser difícil mudar as coisas: há poderosos interesses econômicos", acrescentou.

Magra e jovem

Em qualquer tipo de transtorno alimentar, a influência da cultura é básica. A moda e os ícones da magreza como referências estéticas estão fazendo que muitas adolescentes --e também mulheres de 30 e 40 anos, que começam tarde na anorexia-- adotem dietas selvagens sem qualquer tipo de controle, segundo especialistas em saúde mental.

"Há um anseio social pelo corpo magro e jovem que corre paralelamente aos alimentos 'light', às academias e à cirurgia estética. Esse valor condiciona todo mundo, mas um adolescente é muito mais vulnerável", indica Luis Ferrer, chefe de saúde mental do hospital Juan Canalejo em A Coruna.

A anorexia é um transtorno mental ao qual se chega por vias diferentes, explica Ferrer: alterações biológicas (qualquer patologia do eixo hipotálamo-hipófise-gônadas); de ordem intrapsíquica, onde entra em jogo, por exemplo, a negação da sexualidade, conflitos de desenvolvimento ou traumas; de relação familiar (aqui se apresenta não tanto como um "por quê" mas como um "para quê", para retardar, por exemplo, a passagem da adolescência para a juventude, mantendo toda a família em um jogo relacional de infância, ou para deixar estacionados conflitos que ameaçam a estrutura familiar); e por último a influência sociocultural, em que entra em jogo o papel social da mulher, a sociedade de consumo, a influência da mídia...

A restrição voluntária de alimentos pode conduzir à anorexia nervosa, como demonstrou um experimento feito em Minnesota (EUA), no qual os voluntários se fecharam cercados de comida sob o lema de comer o menos possível: desenvolveram irritabilidade, ansiedade, indecisão, isolamento, obsessão...

Contudo, o tratamento da anorexia que tem origem em fatores socioculturais --para alguns uma autêntica epidemia por sua atual freqüência-- tem possivelmente melhores prognósticos, segundo Ferrer, "porque se trata definitivamente de reeducar os hábitos alimentares".

Mesmo assim, só 25% das anorexias são curadas; outros 25% têm recaídas --os estímulos socioculturais continuam presentes--, outros 25% melhoram mas a doença torna-se crônica e o restante acaba em morte ou suicídio.

Recomendações

  • Tamanho e peso

    Não devem servir de critérios para aceitar ou demitir alguém de seu trabalho.

  • Publicitários

    Não devem utilizar a imagem da mulher com um peso claramente inferior aos limites saudáveis.

  • Menores

    Deve-se evitar que menores de 18 anos exibam roupas de adulto em passarelas e anúncios.

  • Falsa publicidade

    Será aplicado rigorosamente o decreto real sobre publicidade enganosa e os chamados produtos milagrosos.

  • Campanhas

    Serão promovidas campanhas de prevenção e informação dirigidas ao pais e monitores esportivos, para treiná-los na detecção precoce dos sintomas. Se evitará dirigir essas campanhas diretamente aos jovens para evitar um efeito reverso.

    Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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