Trânsito causa massacre cotidiano na Argentina

Alfred Rexach
Em Buenos Aires

Com uma população de cerca de 37 milhões de habitantes, a Argentina sofre um massacre anual de mais de 10 mil vítimas fatais em acidentes de trânsito. A magnitude do problema não basta para situá-lo entre as prioridades do Estado e da sociedade argentinos, que parecem assumi-lo como uma fatalidade.

Em um país onde qualquer motorista está convencido de ter herdado os genes do piloto dos anos 50 Juan Manuel Fangio, a matança cotidiana nas estradas do país alcança cifras escandalosas. Segundo o Instituto de Segurança e Educação Viária (ISEV), em 2005 foram registradas 10.351 mortes, mais que o dobro dos números da Espanha, com uma população de 40,8 milhões.

O final das férias de verão na Argentina devolveu ao topo do noticiário os tremendos números de acidentes de trânsito, com milhares de vítimas mortais e dezenas de milhares de feridos graves.

Durante janeiro e fevereiro, meses de verão, a população viajou por todo o país em busca de praias e lazer, embora para tanto tenha suportado a informação diária de uma chuva de acidentes que produzem em média 28 mortes por dia e 85 feridos graves.

Os 5 milhões de veículos mobilizados durante estas férias, segundo dados do departamento nacional de estradas, são muito superiores aos registrados em 2001 (3,5 milhões), mas esse aumento é só uma das causas do meteórico crescimento dos sinistros. O estado deficiente das estradas e das placas de sinalização, o desprezo pelas medidas de segurança, a temeridade e inclusive a condução agressiva contribuem para a catástrofe.

Ernesto Arriaga, porta-voz do departamento, explica que, em boa parte dos acidentes, foram cometidas infrações graves das normas de trânsito, especialmente ultrapassagens indevidas, em pista separada por dupla linha amarela, e excesso de velocidade.

Como na Fórmula 1

É freqüente --disse o funcionário em declarações ao jornal "El Clarín"-- que o motorista atire o carro em cima de outro ou o feche e não dê passagem se o outro cometer um erro. Trata-se da condução agressiva, tipificada pelos técnicos de trânsito, que no entanto não é reprimida com eficácia pelos sistemas de vigilância.

Basta viajar num dos mais de 30 mil táxis de Buenos Aires, desmantelados mas velozes, para reparar que os motoristas, profissionais ou não, se atiram pelas amplas avenidas e ruas da capital portenha, sempre lotadas de trânsito, como se competissem na Fórmula 1.

Avançando a todo custo -- ficar para trás é uma humilhação que ninguém parece disposto a suportar --, carros, ônibus e caminhões circulam prescindindo das faixas para chegar o quanto antes a qualquer lugar. Correr mais que o carro ao lado, colar-se ao da frente e avançar sem sinalizar a manobra são atitudes generalizadas.

O denso tráfego urbano reduz os acidentes mais graves, mas quando o desafio coletivo se coloca nas intermináveis estradas do país a velocidade sobe e provoca choques de conseqüências terríveis.

Os números do ISEV indicam que ocorrem 1.211 acidentes diários, e embora 65% das mortes ocorram em zonas rurais 58% dos acidentes têm lugar na cidade. A metade dos mortos não passa de 30 anos e em 92% dos casos os motoristas são homens.

O massacre cotidiano colocou as autoridades em alerta. Mas a proliferação de órgãos oficiais, a dispersão da regulamentação e a ausência de controle sistemático causaram uma "virtual diluição da responsabilidade estatal", segundo um recente relatório do Ministério Público do país.

"As atitudes do Estado são espasmódicas", disse o titular desse órgão, Eduardo Mondino. "Um dia ele sai à caça dos que não usam cinto de segurança e 15 dias depois esquece. Um particular pode decidir usar cinto num dia e no outro não."

Eduardo Bertotti, diretor do ISEV, dá o epitáfio da situação: "A sociedade e as autoridades acreditam que tantas mortes estúpidas e inúteis são toleráveis". Em média, 28 motoristas morrem e 85 ferem-se gravemente por dia

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