ETA intensifica seus atentados

Florencio Dominguez

O conselheiro do Interior basco, Javier Balza, há algum tempo faz apelos à cautela toda vez que se refere o ETA. As informações e análises da polícia que ele dirige não permitem comemorações.

Balza costuma lembrar que o ETA só renunciou a matar alguns cargos políticos. Para todos os demais tem rédeas soltas, embora cometer alguns atentados ou deixar de fazê-lo seja questão de cálculo e de oportunidade.

O último comunicado do ETA, que se refere à trégua na Catalunha, datado de fevereiro, continha a confirmação das palavras do conselheiro do Interior. "A Catalunha não constitui uma exceção na decisão de atuar contra inimigos significativos da Euskal Herria em todo o planeta. Os inimigos da Euskal Herria não poderão escolher a Catalunha como refúgio."

De forma pomposa e pretensiosa, o ETA advertiu nesse texto que continua disposta a atentar contra pessoas, inclusive na Catalunha. E, se tem a porta aberta contra pessoas, muito mais contra bens materiais, empresas, escritórios do governo, infra-estruturas, alvos simbólicos...

Os empresários se transformaram no alvo principal do ETA nos últimos 14 meses e estão suportando uma pressão como não sofriam há muito tempo.

Provavelmente o bando pretende que o clima de relativa tranqüilidade que se havia prolongado pela falta de assassinatos não se traduza em uma redução do medo entre os empresários, e isso, por sua vez, em uma negativa generalizada a ceder diante da extorsão.

Nem mesmo durante a trégua de 1999 a atividade extorsiva do ETA se deteve, que fez uma exceção ao indicar que não estavam incluídas no fim de suas ações as que se destinam ao "aprovisionamento".

Apesar de todas as expectativas provocadas de maneira intermitente há mais de um ano em torno de uma possível trégua, o bando terrorista não interrompeu sua atividade em nenhum momento. Dos 33 atentados de 2004 passou para 49 em 2005 e neste ano já são 13. E entre as ações do ETA há algumas que prenunciam que o bando está se preparando para uma longa temporada de atuação.

É o caso dos dois roubos de explosivos -- quase 5 mil quilos -- cometidos na França no ano passado, o último deles no final de dezembro. Além disso, como também indicou Balza, o bando aproveitou os últimos meses para se reorganizar e implantar novas células com as quais quer recuperar a iniciativa.

A persistência da atividade terrorista está esfriando as esperanças de uma próxima trégua, embora, na medida em que se aproxima o Aberri Eguna [Dia da Pátria Basca], em abril, voltaram a disparar os rumores como nos anos anteriores.

Mas em determinados círculos se eliminou a palavra "trégua" e em seu lugar começou-se a falar em "gesto significativo", que por enquanto não se sabe o que quer dizer. A série de atentados dos últimos três meses, a partir de dezembro, mostra uma intensificação das ações do ETA, como se em outubro ou novembro tivesse havido algum tropeço nas relações subterrâneas governo-bando terrorista que costumam acompanhar esse tipo de processo.

Algo deve ter-se torcido em dezembro, e o mês em que o governo esperava uma trégua se transformou no mês com mais atentados do ano. As declarações do ETA nesse tempo foram autênticos jatos de água fria: a carta que no final de novembro enviou à mídia internacional, o "Zutabe" de dezembro, o comunicado de 18 de fevereiro passado...

O grupo terrorista respondeu aos pedidos de trégua indicando que já fez um movimento -- o cancelamento de atentados contra certos cargos públicos do PP e do PSOE, não de todos -- em junho e que desde então está esperando que seja correspondido com outra ação significativa do governo.

Às figuras do nacionalismo que pediram ao ETA que pare, o bando respondeu exigindo que primeiro se comprometam com a estratégia política da esquerda "abertzale" [nacionalista]. Cada apelo à cessação de atividade foi respondido pelo bando tentando devolver a bola aos que o fizeram.

A esquerda "abertzale" ganhou um grande espaço político e destaque no último ano e meio, mas também começou a perceber que existem limites que não podem ultrapassar, assim como o voluntarioso primeiro-ministro.

A tentativa do partido Batasuna de forçar uma ruptura desafiadora de sua ilegalidade foi interceptada por um juiz que, além disso, reforçou as proibições e restrições ao partido de Arnaldo Otegi. A justiça também atirou um jato de água fria nas esperanças dos presos "etarras" de sair antecipadamente da prisão, lembrando-lhes que o Estado de direito é muito mais complexo do que lhes pode fazer crer o voluntarismo dos dirigentes do bando terrorista.

E, se acreditavam que a autodeterminação estava ao alcance da mão, encontraram as declarações do primeiro-ministro no Congresso dos Deputados. E como até o momento o ETA não se propôs um processo de paz -- quer dizer, um plano para abandonar as armas e a violência --, mas um processo para conseguir os objetivos políticos tradicionais -- autodeterminação e unidade territorial --, cada vez que percebe algum tipo de obstáculo em seu caminho reage intensificando os atentados. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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