Kirchner bloqueia exportação de carnes

Alfred Rexach
em Buenos Aires

"Acabou o churrasco do domingo." Abatido diante da incontível alta de preços da carne fresca, um açougueiro de Buenos Aires pronunciou na última quarta-feira a sentença mais temida pelos moradores da cidade, os "portenhos".

No mesmo dia a carne de novilho havia sofrido um salto de 7,65% no mercado central de Liniers. E este ano a carne já encareceu outros 22%.

Inevitavelmente, essas altas repercutem no consumidor final, deixando fora do alcance da maioria os suculentos bifes e costelas imprescindíveis na "parrillada" familiar dominical.

Envolvidos pessoalmente em uma batalha desigual contra a inflação, o presidente da República, Nestor Kirchner, e sua obediente e submissa ministra da Economia, Felisa Miceli, decretaram um bloqueio de três meses às exportações de carne fresca argentina.

Dessa maneira esperam evitar que o epitáfio do açougueiro se transforme em realidade, embora os economistas ortodoxos, e até os heterodoxos, se descabelem estupefatos ao ver como a Casa Rosada, sede do governo, ataca sem piedade os fundamentos do livre mercado.

"A medida é um erro gravíssimo, porque atenta contra a produção e o investimento", comentou de imediato o presidente da Confederação Rural Argentina, Mario Llabias, mesmo que outros representantes da poderosa indústria pecuária argentina mantenham silêncio por enquanto, talvez temerosos de despertar a ira de um Kirchner que nos últimos meses já lhes dedicou alguns de seus comentários mais sarcásticos.

Para a ministra Miceli, a atitude do governo é impecável: "Estamos empenhados em conter os preços internos para que não afetem o bolso da população", disse ao comentar a suspensão das exportações de carne.

Dias antes, o presidente em pessoa, muito menos diplomático quando a realidade não se adapta a seus planos, já havia fulminado os pecuaristas e a indústria frigorífica, que exportam anualmente cerca de 770 mil toneladas de carne. "Não nos interessa exportar às custas da fome e do bolso dos argentinos", disse o presidente em uma de suas contundentes análise socioeconômicas. "É bom que exportem, é bom que ganhem, mas primeiro vendam aos argentinos a preços que possam comprar."

A poderosa pecuária argentina é uma das fontes básicas de riqueza do país, mas sua capacidade produtiva quase não cresceu nas últimas décadas.
As carnes exportadas, que trazem divisas que fortalecem a problemática economia nacional e, de passagem, a dos exportadores, devem ser subtraídas das que são oferecidas no mercado interno, faturadas em pesos, com o conseqüente e inevitável impulso dos preços para cima.

Carnívoros vorazes ou por necessidade, os argentinos consomem 2,4 milhões de toneladas de carne fresca por ano, e se a suspensão das vendas externas imposta pelo governo tiver êxito calcula-se que até o fim do ano serão revertidas de 400 mil a 500 mil toneladas para o mercado interno, reduzindo seriamente os preços de um produto básico na alimentação, que além disso pressiona intensamente o índice geral de preços ao consumidor.

Antes de chegar às medidas drásticas, o Ministério da Economia, apoiado pela beligerância presidencial, já havia exercido sérias pressões sobre o setor para conseguir uma desaceleração dos preços.

A auto-regulamentação, limitando voluntariamente as exportações, foi apresentada então como panacéia para romper o jogo fatídico entre oferta interna e escassa e preços altos. Mas a falta de entendimento e a quase incrível capacidade das instituições públicas e privadas para adiar soluções, mais um inoportuno surto de febre aftosa que atingiu o gado argentino no início de fevereiro, arquivaram as boas intenções.

Agora chega o decreto e com ele abre-se um novo capítulo na guerra sem quartel que o governo sustenta para continuar mantendo os índices de crescimento econômico em níveis asiáticos, com preços baixos ou pelo menos controlados.

Nesse cenário a carne fresca ocupa um eixo central, pois aqui não se consegue pôr mesa e pratos sem depositar neles alguns pedaços, muitas vezes pantagruélicos, de tiras de assado, bifes cozidos em fogo de lenha ou carvão e até rins, miolos e tripas, igualmente assadas e crocantes.

Com uma economia recuperada em suas dimensões macro, satisfeito pelo adiantamento do pagamento da dívida ao Fundo Monetário Internacional, com superávit fiscal e índices de crescimento anual da ordem de 9%, Kirchner está muito consciente de que o único obstáculo sério que poderia se opor entre sua reeleição em 2007 e os esforços agônicos de oposições desconcertadas e divididas são a cesta de compras e os preços ao consumidor.

Pouco importa por enquanto que 45% da população ativa trabalhem no mercado negro ou que as reivindicações salariais dos que têm empregos estáveis e registrados superem com freqüência 25% ou 30% (alguns líderes sindicais inclusive afirmam que as reivindicações salariais não incidem na inflação).

Quando isso ocorre, procura-se evitar, com discretas negociações, a eclosão de conflitos trabalhistas. Mas se a Casa Rosada tem certeza de uma coisa é que nenhum argentino votaria em um presidente que os deixasse sem seu churrasco. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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