Bret Easton Ellis, escritor: "Não procuro o escândalo, sou inocente"

Miguel Angel Trenas
em Madri

Amado e odiado, líder visível da chamada Geração X, uma fornada de escritores que nos anos 80 descreveu as noites selvagens da juventude dourada americana, Bret Easton Ellis publica [na Espanha] pelas editoras Mondadori e Columna seu último romance, "Lunar Park", um livro de tom autobiográfico que tem a ver com a redenção do próprio autor. "É o final de uma etapa e o início de algo diferente em minha obra. Uma maneira de dizer adeus às coisas que me preocuparam durante todos esses anos", explica.

La Vanguardia - Esse romance é um exorcismo?

Bret Easton Ellis -
Sim. "Lunar Park" mantém a sátira e a paixão, mas é uma espécie de exorcismo com meu passado. Não estava planejado, mas na medida em que ia escrevendo a presença de meu pai foi perdendo força na obra. Gostaria de tê-la escrito antes. Me permitiu analisar minhas feridas, investigar e explorar as causas, os porquês de meus outros romances. Não me interessa mais falar da sociedade que me rodeia, entendi que não posso passar a vida inteira de mal com o mundo.

LV - Transformou seus pesadelos em fantasmas.

Ellis -
Sim, e talvez também o contrário. Descobri o preço de não enfrentar o passado, e como esse passado persegue, atormenta e destrói. O fantasma é meu pai, e seu pesadelo passou.

LV - Quando começaram os pesadelos?

Ellis -
Tornei-me escritor graças a meu pai, e contra ele. Minha casa provocava muito medo, e quando sentimos medo nos escondemos. Eu me refugiei na leitura e na escrita, e essa fuga fez que começasse minha carreira de escritor, mas a presença de meu pai pairou sobre todos os meus romances. Agora resta saber se, uma vez liberto dessa presença, continuarei escrevendo bons livros.

LV - O senhor é o protagonista de "Lunar Park". O que escondeu no personagem?

Ellis -
Não escondi nada, pelo contrário, acrescentei coisas. Tudo está ali em seu máximo esplendor, com todos os erros e defeitos. Em meus outros livros havia uma presença autobiográfica, mas eu usava outras situações e personagens. Esta é a primeira vez que utilizo meu nome, mas continua sendo ficção, uma história de medo com fantasmas.

LV - De que o senhor mais gosta, que o apreciem ou que o odeiem?

Ellis -
Ser odiado contribuiu de alguma forma para eu ser mais apreciado, me ajudou a vender mais livros e consolidou minha reputação. Desde o início a imprensa e a crítica promoveram esse ódio. Depende de quem me aprecia e de quem me odeia. Se a imprensa me odeia, não me preocupo.

LV - A provocação é uma forma de arte.

Ellis -
Sem dúvida. Mas eu nunca quis provocar. Surpreendeu-me que meus livros causassem escândalo. Nunca escrevi com a intenção de surpreender ou provocar, me limitei a escrever os livros que gostava de escrever. Não penso no leitor. Se fizesse isso, meus editores ficariam felizes. Escreveria segundas e terceiras partes de "American Psycho", mas é algo que me parece antiético. As pessoas pensam que procuro o escândalo, e não é verdade. Sou inocente. Talvez haja algo em mim que provoca a polêmica, algo que tira as pessoas de suas caixas, mas não de uma maneira consciente. É impossível manter as pessoas entediadas durante 20 anos. Se eu fosse capaz seria um grande manipulador. Não sei escrever de outra forma.

LV - Em seu último romance desapareceram as drogas, o sexo e a violência.

Ellis -
Não. Bem, sim, talvez desapareçam as drogas. O sexo não. Bom, possivelmente o sexo também desapareça. De repente a violência é a única coisa que resta.

LV - O senhor é julgado mais de um ponto de vista moral que literário.

Ellis -
É ridículo que olhem para meus livros de um ponto de vista moral. Sou um escritor bastante moralista. Sou contra o consumismo, os ricos, o materialismo da sociedade. O que ocorre é que essa moralidade não aparece de forma explícita, mas é preciso ler nas entrelinhas. "American Psycho" é um livro moral que critica duramente uma sociedade enferma. Quando as feministas o atacaram, interpretaram mal o romance. Descrever a misoginia não é a mesma coisa que ser misógino.

LV - O que o senhor anseia como escritor?

Ellis -
A única coisa que procuro é me expressar. Escrever os livros que eu gostaria de ler, conhecer-me, compreender-me melhor. A escrita é uma forma de terapia. Para ser bom escritor é preciso ler muito e escrever muito. Tive a sorte de escrever o livro oportuno no momento oportuno. Todas as gerações precisam de uma voz que lhes diga o que há na vanguarda, e eu fui essa voz.

LV - Como a sociedade americana mudou?

Ellis -
O 11 de setembro foi um ponto de inflexão. É uma sociedade que tem mais medo, que já não se sente tão querida e amada pelo resto do mundo. Continua sendo um país sentimental e orgulhoso, mas já não é a nação amada que acreditávamos ser, já não é tão divertido ser americano como no passado, quando éramos os mais fortes e os mais ricos. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos