Terra sofre a pior extinção de espécies desde os dinossauros

Josep Corbella
em Barcelona

A Terra está sofrendo a maior extinção de espécies desde o fim dos dinossauros, há 65 milhões de anos, adverte um relatório divulgado esta semana pelo secretariado da Convenção de Diversidade Biológica da ONU. O relatório conclui que o objetivo definido em 2002 de conter o ritmo de extinção de espécies até 2010 está cada vez mais distante e que a perda de biodiversidade, em vez de se estabilizar, está acelerando.

Preservar a biodiversidade é essencial para "aliviar a pobreza e beneficiar toda a vida na Terra", escrevem os autores do documento, que foi divulgado esta semana coincidindo com a inauguração da 8ª Conferência da Convenção de Biodiversidade da ONU em Curitiba (Brasil). Entre os mais prejudicados pela extinção de espécies, destacam-se as pessoas que vivem nas áreas rurais de países pobres, porque são as que mais dependem dos recursos que os ecossistemas locais proporcionam para sua sobrevivência.

"Os ecossistemas saudáveis proporcionam os bens e serviços de que os humanos necessitam para seu bem-estar", indica o relatório, que resume em 92 páginas os dados científicos mais importantes sobre a perda de biodiversidade.

No entanto, constata que muitos desses bens e serviços vitais encontram-se em declínio. Entre eles, a água potável, o ar não contaminado, os bancos de pesca ou os organismos que polinizam as colheitas.

Um grande número de ecossistemas, tanto nos oceanos quanto nos continentes, enfrenta crescentes ameaças, adverte o documento. Entre os mais ameaçados, cita explicitamente os arrecifes de coral e as selvas tropicais. Menção especial merece o desmatamento, que já arrasou uma média anual de 60 mil quilômetros quadrados, equivalente a duas Catalunhas, desde 2000. Os ecossistemas fluviais e lacustres, por sua vez, encontram-se em muitos casos em situação crítica, com 50% das espécies extintas no período 1970-2000.

Quanto às espécies concretas, a lista dos grupos mais ameaçados é encabeçado por anfíbios, mamíferos africanos, aves de zonas agrícolas, corais e peixes capturados em ritmo não sustentável. O declínio dos pesqueiros se destaca como exemplo de como a perda de diversidade biológica ameaça o bem-estar humano. No Atlântico norte, em particular, a captura de peixes de grande porte foi reduzida em 66% nos últimos 50 anos.

É preciso recuar 65 milhões de anos, quando um meteorito se chocou contra a Terra e pôs fim à era dos dinossauros, para encontrar um ritmo de extinção de espécies comparável na história da vida. A Terra está sofrendo, portanto, salienta o relatório da ONU, seu sexto grande processo conhecido de extinção maciça de espécies, e o primeiro causado pelos humanos.

Embora todos os países signatários da Convenção de Biodiversidade de Haia em 2002 tenham se comprometido a "conseguir uma redução significativa do ritmo atual da perda de biodiversidade", embora os chefes de Estado e de governo que participaram da Cúpula Mundial de Desenvolvimento Sustentável em Johannesburgo em 2002 tenham ratificado o acordo, e embora o compromisso tenha sido novamente ratificado na Cúpula do Milênio em Nova York em 2005, a realidade é que "as ameaças que causam a perda de biodiversidade estão aumentando", afirma o relatório.

Essas ameaças incluem o acúmulo de nitrogênio nos ecossistemas, que por exemplo transformou as águas férteis do golfo do México em zonas mortas, ou a introdução de espécies exóticas que acabam com as autóctones em ecossistemas frágeis.

Mas salienta sobretudo a superexploração dos recursos naturais: a demanda de recursos em escala global já supera atualmente a capacidade de produção biológica da Terra em 20%, devido a níveis de consumo não sustentáveis. Como os demógrafos prevêem que a população da Terra aumente de 6,5 bilhões de pessoas atuais para no mínimo 9 bilhões nas próximas décadas, a ONU defende a redução do consumo de recursos naturais para níveis sustentáveis.

A vida da riqueza

Salvar os pandas gigantes, os tigres de bengala ou os orangotangos não é útil somente para preservar os ecossistemas ameaçados, mas também para reduzir a pobreza e melhorar o bem-estar dos que vivem nos mesmos territórios que os animais ameaçados, indica a ONG Fundo Mundial para a Natureza (World Wildlife Fund - WWF) em um relatório divulgado esta semana.

O informe da WWF analisa experiências em seis países nos quais as iniciativas para proteger a natureza beneficiaram as populações locais. Em Tortuguero (Costa Rica), por exemplo, as tartarugas vivas trazem mais benefícios que os ovos ou a carne de tartaruga que eram consumidos décadas atrás. A população de tartarugas e a afluência de turistas aumentaram de maneira paralela nos últimos 30 anos, a ponto de que a população apóie as medidas de conservação da biodiversidade.

A afluência de turistas atraídos pela natureza também aumentou na Namíbia, onde as comunidades locais participam da gestão dos recursos naturais e criaram empresas vinculadas ao turismo que lhes trazem benefícios.

Uma situação semelhante ocorreu em Uganda, onde as comunidades que vivem na região do Parque Nacional de Bwindi "sentem que se beneficiam econômica e socialmente das selvas" nas quais vivem os gorilas da montanha, indica a WWF.

Na Ásia, o relatório cita a experiência da China central, onde a destruição florestal diminuiu nos últimos anos à medida que as populações locais se beneficiaram dos esforços de conservação do hábitat dos ursos panda.

Nos bosques do Nepal, a WWF promove iniciativas para ajudar as comunidades autóctones a aproveitar os recursos florestais sem destruir o hábitat dos tigres da região.

E na Índia os programas educativos para conservar o hábitat do golfinho fluvial do Ganges foram acompanhados de uma redução do número de famílias que vivem abaixo do limite de pobreza. São seis exemplos que demonstram que preservar a natureza sempre será benéfico para as comunidades locais, e que explorá-la de maneira não sustentável sempre será prejudicial. Mas, segundo a WWF, demonstra que a conservação da natureza é compatível com o bem-estar da população. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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