A América Latina se despedaça em disputas

Joaquim Ibarz
enviado especial a La Paz

A América Latina nunca esteve tão dividida. Praticamente não há um país que se dê bem com seus vizinhos. A tão propalada integração continental se transformou em um bate-boca que, como numa família desunida, apresenta todo tipo de acusações. Na reunião que realizarão neste fim de semana em Viena com a União Européia, os países latino-americanos mostrarão tensões que não correspondem só a diferenças ideológicas como as que poderiam contrapor a Venezuela ao México, Peru e Colômbia.

A tensa relação entre dois países próximos, Uruguai e Argentina, governados por presidentes de centro-esquerda, demonstra que o problema é mais complexo, reflete a existência de interesses nacionais contraditórios e a ausência de um projeto sério de integração. Bolívia e Chile não mantêm relações diplomáticas devido à exigência dos governos de La Paz de ter uma saída soberana para o oceano Pacífico.

Somente 16 meses depois do nascimento da Comunidade Sul-Americana de Nações, que tinha como inspiração a União Européia, a região está muito dividida. A decisão do Peru de apresentar na Organização de Estados Americanos (OEA) uma queixa contra a Venezuela por sua intromissão nas eleições presidenciais mostra fissuras que estremecem alianças e vizinhanças. Na maioria dos casos, Hugo Chávez é o promotor das divisões.

O conflito entre Caracas e Lima eclodiu depois das acusações de que Chávez financia o candidato nacionalista Ollanta Humala, que ganhou no primeiro turno das eleições com 30,6% dos votos. A crise se transferiu para a OEA, onde o Peru denunciou a "ingerência inaceitável" de Chávez nos assuntos internos do país, em uma troca de acusações na sessão ordinária de seu Conselho Permanente. O embaixador peruano quis apresentar um vídeo sobre as declarações insultuosas do presidente venezuelano. O pedido foi rejeitado porque Chávez, graças à doação de petróleo, ganhou um voto incondicional dos países do Caribe.

O desencontro da Venezuela com o Peru soma-se aos ocorridos com a República Dominicana, Costa Rica, Colômbia, Nicarágua, El Salvador e, especialmente, o Chile, pela declaração imprudente de Chávez reivindicando o mar para a Bolívia. O incidente mais grave é vivido com o Peru, porque até agora nenhum chefe de Estado havia ameaçado romper relações diplomáticas se um candidato (referindo-se a Alan García) ganhasse as eleições.

Chávez surpreende com doações e acordos de cooperação com comunidades e países, improvisando apoios milionários para candidatos populistas. O presidente da Nicarágua, Roberto Bolaños, também se queixa do financiamento por Chávez da campanha do sandinista Daniel Ortega. Diante do que foi acordado no Caribe insular, onde a Venezuela dá petróleo em condições vantajosas para seus governos, em El Salvador e na Nicarágua é para associações de esquerda.

No México, Chávez é peça de confrontação eleitoral. O candidato Felipe Calderón, do PAN, no governo, acusa seu concorrente populista, Andrés Manuel López Obrador, de querer seguir os passos de Chávez, e por isso denuncia em sua propaganda que é um perigo para o México. "Acusam López Obrador de receber dinheiro da Venezuela. Corre a fama de que Chávez financia com mão generosa todos os candidatos do continente que vestirem a camisa da esquerda", indicou o escritor Sergio Ramírez, ex-vice-presidente da Nicarágua.

Nesse quadro ocorreu a censura na Comunidade Andina de Nações (CAN), formada por Bolívia, Colômbia, Equador, Peru e Venezuela, depois que Bogotá e Lima assinaram tratados de livre comércio com Washington. Chávez anunciou "a morte" da CAN, com o argumento de que os tratados com os EUA fragilizam o bloco. A Venezuela retirou-se da CAN e suas relações com o México e o Peru estão congeladas.

Mais ao sul, Uruguai e Argentina atravessam o pior conflito de sua história recente, devido à instalação de fábricas de papel em um rio fronteiriço. Os dois países apelaram ao Tribunal de Haia, o que aumenta as tensões.

Outra rixa surgiu quando o presidente uruguaio, Tabaré Vázquez, disse a seus sócios Lula da Silva e Néstor Kirchner e ao próprio Hugo Chávez -todos de esquerda, como ele- que o Mercosul já não serve, e por isso vai se retirar da aliança caso seja impedido de negociar um tratado comercial com os EUA. A última briga surge da decisão do presidente Evo Morales de nacionalizar os hidrocarbonetos, para o que enviou o exército aos locais de extração. Lula ficou incomodado com a medida, porque a companhia brasileira Petrobras controla 49% dos recursos, assim como o argentino Kirchner, cujo país recebe boa parte do gás boliviano.

A relação aparentemente boa que existia entre os governos de esquerda da América Latina, que são maioria, transformou-se em uma troca de acusações que evidencia que a união era só uma miragem e que os dois blocos são irreconciliáveis. Depois das contendas das últimas semanas fica claro que há pelo menos duas esquerdas na região.

"Uma é moderna, de mente aberta, reformista e internacionalista e floresce da esquerda dura do passado", escreve o ex-chanceler mexicano Jorge Castañeda na revista "Foreign Affairs". A outra, surgida de líderes como o argentino Perón, o brasileiro Vargas ou o peruano Haya de la Torre, "nasceu da velha tradição do populismo latino-americano, nacionalista, estridente e de visão estreita".

Apoio negativo de Chávez

O caminho de Chávez para a liderança continental, pavimentado com petrodólares, se enche de buracos. A animosidade criada por seu intervencionismo de novo-rico faz o político que recebe seu apoio cair nas pesquisas de opinião. Seu apoio aberto ao candidato peruano Ollanta Humala está sendo contraproducente. Alan García, que atirou o anzol para que o presidente venezuelano mordesse, subiu nas pesquisas quando Chávez começou a insultá-lo.

Segundo o congressista Víctor García Belaúnde, "os ataques verbais de Chávez podem transformar Alan no próximo presidente peruano". A vitória de García seria muito negativa para Chávez, pois ele representa o Apra, um partido tradicional reconvertido à centro-esquerda que combina com a oposição moderada de Lula, Bachelet, Vázquez e afins.
Algo parecido acontece no México, onde o apoio indireto de Chávez ao candidato da esquerda populista López Obrador, do PRD, o deslocou do primeiro lugar nas pesquisas. E na Nicarágua, onde o financiamento de Chávez ao candidato sandinista Daniel Ortega o faz perder votos.

"Argentina, a que mais polui"

Tabaré Vázquez, diante da iniciativa de Kirchner de apresentar uma demanda ao Tribunal Internacional de Haia pelo litígio das indústrias de papel, acusou a Argentina de ser "o país que mais polui na região". Montevidéu levará o governo argentino ao Tribunal do Mercosul e à OEA por não tomar medidas para desmontar os bloqueios ilegais das pontes na fronteira entre os dois países. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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