Unionistas exigem recontagem de votos em Montenegro

Plácid Garcia-Planas
enviado especial a Podgorica

Ressaca nos Bálcãs. Forte ressaca física em Montenegro e considerável ressaca política no resto da península. Foi o que confirmou ontem a comissão eleitoral: Montenegro consegue sua independência por quatro décimos, com 55,4% dos votos, quatro décimos a mais que o mínimo exigido pela União Européia -e Belgrado- para reconhecer Montenegro como Estado independente.

Quatro décimos aos quais se agarram os unionistas para exigir novas contagens de votos. Inutilmente: a vitória independentista era ontem um fato aceito e reconhecido pela comunidade internacional.

Quatro décimos que descontraem a península balcânica, menos o ponto que a tensionou: a Sérvia. Todos os líderes da região -excetuando os de Belgrado- saudaram com um sorriso a independência de Montenegro. Talvez as palavras que mais atingiram o alvo tenham sido as do primeiro-ministro macedônio.

"Ontem, domingo, fomos testemunhas do final definitivo do projeto da Iugoslávia, um projeto que nasceu em 1918 com intenções sinceras", disse Vlado Buckovski.

Quatro décimos que permitem a Montenegro separar-se da marca de fracasso associada à Sérvia, que lhe permitem não receber de rebote -de vez em quando- as reprimendas que Belgrado recebe da comunidade internacional, que limpam o horizonte.

Quatro décimos que obrigam a Sérvia -a que começou tão sinceramente em 1918- a revelar-se, a independentizar-se de si mesma. Uma refundação que será difícil e dolorosa, se levarmos em conta que, fora de Belgrado, um em cada dois votos foi para o Partido Radical de Vojislav Seselj, hoje preso em Haia.

Montenegro está nisso faz tempo: Djukanovic pediu perdão à Croácia -de Montenegro e com montenegrinos bombardeou Dubrovnik em 1991- e anunciou compensações pelo saque, então, do aeroporto da cidade croata e outros saques.

"O mais perigoso seria que Belgrado reagisse de maneira emocional", disse ontem Rasim Ljajic, o ministro de Direitos Humanos de uma entidade em dissolução, o Governo da Sérvia e Montenegro. "Finalmente temos um hino e sabemos quem somos. Teremos nosso destino em nossas mãos", disse Mladjan Dinkic, o ministro das Finanças sérvio.

Quatro décimos que obrigam o governo de Montenegro de Milo Djukanovic a administrar sua vitória com generosidade: tem a metade de Montenegro, os que votaram por continuar caminhando com a Sérvia, contra ele.

O primeiro-ministro montenegrino e líder independentista, Milo Djukanovic, esboçou ontem em uma entrevista coletiva as prioridades do Montenegro independente. Primeiro, como "prioridade estratégica nacional", uma plena integração na União Européia e na Otan. "Estou convencido de que, depois da Bulgária, Romênia e Croácia, Montenegro será o próximo passo da União Européia na região", afirmou o primeiro-ministro. E entrar na Europa, acrescentou com orgulho, antes da Macedônia, Albânia e Sérvia.

Em segundo lugar, sempre depois do Ocidente, a Sérvia, "uma prioridade importante" mas que não é estratégica nem nacional. Djukanovic apostou em "continuar cooperando com a Sérvia e estabelecer relações sobre uma nova base". O líder montenegrino indicou que a Sérvia deveria ser o primeiro país a reconhecer Montenegro como Estado independente. "Esperamos que a Sérvia esteja disposta a abrir um diálogo sobre a dissolução de Sérvia e Montenegro e sobre nossas relações bilaterais", disse. "Espero que esse diálogo seja curto e concreto." O primeiro-ministro afirmou que não espera "uma radicalização das relações da Sérvia com os cidadãos de Montenegro".

Quatro décimos bem expressos por diversos lugares da Europa sedentos de independência, como Transniestre na Moldávia, Abkasia na Geórgia e o próprio Kosovo, que juridicamente continua sendo Sérvia e que tenta arrancar da comunidade internacional seu Estado próprio.

Quatro décimos, em definitivo, que permitem aos independentistas montenegrinos comemorar ininterruptamente seu triunfo desde a noite de domingo, enquanto a comissão eleitoral central continua sem confirmar a vitória. A comissão -mais uma vez- propôs até esta terça-feira não a apresentação do resultado final do referendo, mas do resultado final preliminar.

Fontes sérvias anunciaram que o enviado especial da União Européia a Montenegro, Miroslav Lajcak, viajará hoje a Belgrado para pedir a seus dirigentes -o primeiro-ministro Vojislav Kostunica e o presidente Boris
Tadic- que convençam os unionistas montenegrinos de que não se percam em recontagens e aceitem sua derrota.

Tudo por apenas quatro décimos. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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