Entrevista com Mario Vargas Llosa

Xavi Ayén
em Madri

É difícil não se entusiasmar diante da leitura de "Travessuras da Menina Má"(ed. Alfaguara), o último romance de Mario Vargas Llosa (nascido em Arequipa, Peru, em 1936). É a trepidante história de amor de um ser sem ambições que percorre como um turista 40 anos de paixões coletivas, desde a Lima dos anos 50 até a Madri da "movida" dos 80, passando pela Paris revolucionária dos 60 e a Londres psicodélica dos 70. Para falar de amor, amizade e de utopias sociais e individuais, o escritor recebeu na segunda-feira este jornal em sua casa em Madri.

Marta Jara/Reuters - 23.mai.2006 
O escritor peruano Mario Vargas Llosa divulga seu novo livro "Travessuras da Menina Má"

La Vanguardia - O que faz o senhor escrevendo sobre amor?

Mario Vargas Llosa -
É o tema mais recorrente na literatura! E no entanto o mais difícil de abordar com originalidade. Queria uma história de amor moderna, e não condicionada pela retórica do amor romântico, do século 19, que ainda pesa tanto em nossos dias. O amor, os costumes e a moral mudaram tanto que é preciso falar dele de outra maneira. Mas espero que essa relação intermitente de 40 anos entre Ricardo Somocurcio e a menina má seja algo mais que uma história de amor, porque minha idéia do romance é totalizadora: deve refletir a experiência humana completa. Com amor ou erotismo somente, se produz uma sensação de irrealidade, e eu sou um escritor realista.

LV - O livro é lido com um sorriso quase permanente.

Vargas Llosa -
E no entanto é uma história intensa, narrada por alguém que conhece as experiências mais exultantes de sua vida graças a esse amor, mas também sofre e passa terríveis frustrações. Tudo isso exigia ser contado com todo um leque de humores: sentimento, desejo, mas também o humor e o ridículo. O amor é uma experiência muito completa, na qual intervêm todos os estados de ânimo. Ao mesmo tempo, a escrevi com nostalgia porque evoco cidades onde vivi, épocas por que transitei, e lembrei os entusiasmos e petulâncias da experiência amorosa.

LV - Vamos por partes: como foi a Paris dos anos 60?

Vargas Llosa -
Reinava o mito da utopia social, da revolução, Che e Fidel eram deuses, a luta armada era a solução para a libertação dos povos... E para os rapazes que tínhamos sensibilidade era uma meca, a capital mundial da cultura e das artes.

LV - Mas nos anos 70 o senhor explica que Paris cede o cetro da modernidade a Londres e a revolução é substituída pelo sexo, as drogas e o rock-and-roll.

Vargas Llosa -
Eu vivi em Earl's Court, assim como o protagonista de meu romance, o coração da "swinging London", o bairro hippie por excelência. Londres cria uma nova sensibilidade, não somente na vestimenta ou na importância que a música adquire, mas na cultura das drogas -mitificadas como método de expansão da sensibilidade-, a saída do armário dos homossexuais... Isso terá enormes seqüelas, e começou assim, como uma curiosidade um pouco extravagante de jovens marginais.

LV - Mas o senhor chegou a ser hippie?

Vargas Llosa -
Eu não. Eu vi isso lateralmente, abria a janela e tudo aquilo entrava em minha casa. Era muito disciplinado em meu trabalho e não combinava com minha maneira de ser, mas eu via tudo com muita simpatia. Era uma revolução benigna, alegre, pacifista e cheia de estética. Embora os hippies não lessem, faziam de sua vida uma arte. Foi algo muito eficaz. Muitos amigos ficaram no caminho por causa das drogas e da Aids, mas não os julgo. Sou um liberal e respeito que cada um faça sua vida como lhe pareça melhor. Todas aquelas mudanças ficaram, à diferença de outras revoluções planejadas.

LV - E a Madri dos anos 80?

Vargas Llosa -
A transformação espanhola é a maior que me coube viver. Cheguei aqui como estudante no final dos anos 50, e esta era uma sociedade ancorada no passado, obtusa, em que as pessoas mexiam com uma mulher que ousasse sair à rua de jeans. Quem poderia pensar que algumas décadas depois toda a Europa viria se corromper em Madri?

LV - A menina má é realmente muito má com o pobre Ricardo...

Vargas Llosa -
É uma garota livre que usa as armas que tem para sobreviver. Eu não a julgo, ela vem de uma selva que a endureceu. A origem é uma história que me aconteceu quando menino: chegaram a Miraflores [bairro elegante de Lima] duas meninas dizendo que eram chilenas, mas na realidade eram de um bairro pobre da cidade e se disfarçaram de chilenas para ser aceitas. Ficou gravada em mim, com raiva e tristeza, essa imagem da terrível força dos preconceitos sociais.

TRÊS TEMPOS

PASSADO:
Depois da publicação dos volumes correspondentes aos romances e aos ensaios literários, dentro da obra completa de Vargas Llosa no Círculo de Lectores/ Galaxia Gutenberg, o leitor pode ter acesso ao mítico "A História de um Deicídio", um ensaio jamais reeditado sobre a obra de Gabriel García Márquez, com quem o autor não fala há 30 anos. "Seria preciso atualizá-lo, mas não me apetece, assim que o deixei como estava, não tem sentido censurar momentos de sua vida."

PRESENTE: Agora escreve sua versão da "Odisséia". "Será intitulada 'Odisseu e Penélope'. Concentra-se no momento em que Ulisses chega a Itaca e, depois de matar os pretendentes, se entrega ao prazer de conversar com sua mulher. Eliminei as histórias de Telêmaco, mas há ciclopes, sereias, a descida ao Hades, Nausícaa, a ninfa Calipso... É uma obra teatral que será estreada em agosto em Mérida, com direção de Joan Ollé e com Aitana Sánchez-Gijón e eu mesmo nos papéis de Odisseu e Penélope."

FUTURO: "Nas próximas eleições peruanas, em 4 de junho, Alan García me parece um mal menor. Seu governo foi péssimo, mas com ele a democracia foi respeitada. Com Ollanta Humala a democracia corre perigo, é um populista autoritário". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos