O despovoamento do maior país do mundo

Gonzalo Aragonés
em Moscou

Katia é uma dos muitos migrantes internos russos que chegaram à capital fugindo da má situação econômica nas regiões nos anos 90. Nestes anos trabalhou em várias empresas, casou-se, teve uma filha, se separou. Não pretende ter mais filhos com seu novo parceiro, porque também não tem trabalho estável. Katia, de 34 anos, é o retrato vivo da atual sociedade russa, e para ela são dirigidas as mensagens do governo e do presidente do país, Vladimir Putin: "Alerta nacional, é preciso ter mais filhos!"

Mas são muito poucos os russos entre 20 e 40 anos que se dispõem a escutar os slogans da classe política. Para esta chegou o momento de enfrentar um problema social que vem se arrastando desde a dissolução da URSS. A população russa diminui a cada ano em quase 1 milhão de pessoas. "Os habitantes de nosso país diminuem em média 700 mil por ano", explicou Putin durante seu recente discurso anual à nação. "É necessário reduzir a mortalidade, ter uma política de imigração efetiva e aumentar os nascimentos."

Segundo o Comitê de Estatísticas da Rússia, o maior país do mundo (pouco mais de 17 milhões de quilômetros quadrados) tem atualmente cerca de 143 milhões de habitantes. A tendência ao despovoamento começou em 1992.

O problema demográfico tem algumas raízes históricas que partem da época comunista. "Em nossa época ninguém pensava em ter mais de dois filhos", explica Galina Antonovna, uma aposentada de Moscou. "Muitas pessoas viviam em 'komunalkas' (apartamentos compartilhados por várias famílias), e as que não viviam tinham apartamentos muito pequenos. Não havia espaço." Ocorreu o contrário da China, o exemplo mais significativo quando se fala em problemas demográficos. Enquanto a Rússia de Stálin se transformou em uma sociedade industrial, urbana, e em conseqüência diminuiu o espaço vital da família, a China de Mao continuou agrária.

Hoje a situação é mais complexa por duas razões: a insegurança no trabalho e a impossibilidade de acesso à moradia. "Se você tem um quarto numa komunalka e quer conseguir um apartamento, ou ele fica muito longe do centro ou é de pior qualidade. Mas se você ou sua família não privatizaram, ou não são de Moscou, não podem fazer nada", explica Katia. Depois do fim da URSS, todos os cidadãos compraram do Estado suas residências por um valor simbólico.

Os filhos desses novos proprietários estão agora em um sistema capitalista no qual ainda não há mecanismos para comprar um apartamento, mesmo para os que têm o dinheiro necessário. Em Moscou, uma cidade mais cara que Berlim, Madri ou Paris, as hipotecas ainda são muito caras e não estão ao alcance de todos.

Um apartamento recém-construído na periferia chega a custar cerca de 2.300 euros por metro quadrado, preço ao qual só a classe média alta tem acesso.

No centro da capital, onde já não se constroem novas moradias, um apartamento de dois cômodos -sala e quarto- custa de 100 mil a 150 mil euros (cerca de R$ 400 mil).

O primeiro vice-presidente da Rússia e um dos candidatos à sucessão de Putin em 2008, Dmitri Medvedev, promete uma solução, "quando daqui a dois anos uma parte significativa das famílias puder utilizar uma hipoteca". É um dos três "projetos nacionais" de Putin. Os outros se referem a melhorar a educação e a medicina. O Kremlin vai buscar medidas para reduzir a mortalidade. Na última década morreram por ano 2,3 milhões de russos, enquanto os nascimentos quase não passaram de 1,5 milhão.

As autoridades russas prometeram gastar 160 bilhões de rublos para fomentar a natalidade. Mas foi essa promessa que provocou um debate social muito amplo e que reflete especial desconfiança. Putin propôs aumentar as ajudas ao primeiro filho dos atuais 700 rublos (43 euros) mensais para 1.500, e 3 mil para o segundo filho. O governo afirma que em 1º de janeiro de 2007 será criado um fundo de 250 mil rublos para cada mãe trabalhadora que decidir ter um segundo filho. Três anos depois do nascimento, esse dinheiro poderá ser utilizado como ajuda para uma hipoteca, para pagar a educação dos filhos ou completar a pensão da mãe depois da aposentadoria.

Um exame rápido no fórum digital de "Argumenti y Fakti", um dos semanários mais populares de Moscou, mostra que as medidas encontrarão obstáculos na sociedade. "Ninguém verá esse dinheiro. Primeiro falam em três anos depois do segundo filho. E depois que é um dinheiro para um fim objetivo, e não o dão diretamente na mão", escreve Olga. "Devemos pôr dinheiro nas mãos de nosso governo em um fundo de pensões ou para a educação de nossos filhos dentro de 17 ou 18 anos? Quem dos que hoje têm 25 ou 30 anos recebeu os seguros que seus pais pagaram? E qual de nossos avós recebeu um único centavo do que obrigatoriamente retiravam de seus salários?", pergunta-se o internauta Zlo Beriot.

Mas nem todos vêem as coisas tão más. Em um país com grandes diferenças regionais como a Rússia, alguns poderes locais já aplicam uma política própria nesse sentido. Em Moscou, o prefeito populista Yuri Lushkov dá às famílias 16 mil euros por filho. E na região de Perm, nos Urais, o governador Oleg Chirkunov comentou depois do anúncio do presidente: "Gostei muito do que Putin disse, porque essas medidas estão ligadas ao que já estamos fazendo, especialmente a idéia de fundar uma bolsa de ajuda à educação dada às mães, e que no nosso caso é uma ajuda para estudar na universidade regional".

As autoridades russas deverão encontrar uma linguagem que a sociedade entenda para evitar as piores previsões dos analistas: em 2050 a população russa poderia cair para 120 milhões, ou mesmo 90 milhões. Ocorreria então uma circunstância paradoxal: em um país que ocupa um sétimo das superfícies continentais viveria o mesmo número de pessoas que na Alemanha ou na França.

Putin falou em seu discurso em melhorar a política de imigração, mas esta não pode ser a solução para o problema demográfico, primeiro porque por enquanto não é suficientemente abundante, e segundo pelos obstáculos que a própria política russa impõe. A maior parte dos imigrantes procede da Comunidade de Estados Independentes (as ex-repúblicas soviéticas menos Estônia, Letônia e Lituânia) e da China.
Calcula-se que atualmente vivam no extremo oriente russo mais de 1 milhão de imigrantes chineses.

Em 2005 instalaram-se na Rússia 75 mil pessoas, três vezes mais do que no ano anterior. Mas a Sibéria, região que sofre o maior despovoamento, não pode hipotecar seu futuro à imigração. Como lembrou Putin em um encontro com os governadores das regiões siberianas, "aqui o despovoamento é sofrido de maneira especial, e isso se explica pelo baixo nível de vida". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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