Transporte aéreo: voar barato sai caro para o planeta

Antonio Cerrillo
em Barcelona

A moda das escapadas curtas em longa distância, juntamente com o sucesso dos vôos baratos, generalizou o uso do transporte aéreo, que já faz parte dos costumes do mundo desenvolvido. Viajar de avião para o outro lado do mundo para passar alguns dias de descanso é a nova maneira de as classes emergentes ostentarem seu poder. E da mesma maneira as companhias de baixo custo aproveitam a oportunidade para comprimir o planeta com viagens que permitem percorrê-lo rapidamente.
Mas uma das conseqüências desse fenômeno é o enorme aumento do consumo de combustível e das emissões de gases do efeito estufa, responsáveis pela mudança climática.

Na Grã-Bretanha, os profissionais ricos atravessam o globo para passar um fim de semana em Bangkok, Nova York ou Las Vegas, graças às linhas diretas e imediatas de Londres. Nos EUA, viajar à Polinésia já é algo rotineiro. E na Espanha -embora tenha menos viagens transoceânicas-, as miniférias de oito dias nas ilhas Maurício, Seychelles, Maldivas ou Bali fazem sucesso entre as propostas de viagens exóticas, rápidas mas intensas.

Depois do MP3 com o reprodutor musical iPod, o sushi e o veículo 4x4, o mais "in" para muitos profissionais europeus de sucesso é essa espécie de viagem no tempo, mas contra o relógio, em busca de uma cidade de férias paradisíaca situada no último confim. Além disso, existe um turismo mais popular, representado pelos que sabem abrir caminho na selva da internet e suas ofertas de vôos baratos. Vivemos um novo hedonismo que descobriu o prazer imediato no ir e vir de férias a jato.

Mas do ponto de vista ambiental essa moda tem conseqüências muito negativas.

O constante aumento dos vôos aéreos -intensificados pelas companhias de baixo custo- provoca uma importante emissão de gases do efeito estufa na atmosfera, o que vai dificultar ainda mais o cumprimento do Protocolo de Kyoto contra a mudança climática. Restringir o tráfego aéreo deixaria felizes os ecologistas mais conscientes, mas certamente a grande massa de turistas não acharia muita graça.

A União Européia está examinando diversas propostas para conter o aumento do transporte aéreo, mas até agora as sobretaxas cobradas pelo combustível foram forçadas pelo aumento dos preços do mesmo e não atuam como taxa ecológica para desincentivar esse consumo insustentável, como se sugeriu.

O resultado de nossos novos costumes é um crescimento incompatível das emissões de dióxido de carbono (CO2) e outros gases do efeito estufa que influem na mudança climática. Cada passageiro de um vôo transatlântico até Pequim por exemplo, gera uma emissão média na atmosfera de 1,8 tonelada por pessoa. Para compensar -neutralizar o CO2 e fixá-lo na madeira- cada passageiro deveria plantar três árvores.

A moda das escapadas curtas aos lugares mais remotos é um fenômeno social na Grã-Bretanha. É a nova corrente que arrasta os profissionais que têm muito dinheiro para gastar e pouco tempo para o lazer.
Desaparecer da empresa por um curto período -um fim de semana prolongado ou uma ponte de vários dias- para desligar e recarregar as baterias em outra parte do planeta se transformou em sinal de modernidade.

Não são poucos os cidadãos europeus ricos que têm a mente ocupada idealizando miniférias em Nova York ou imaginando uma longa ponte festiva em Dubai ou Bangkok. As agências de viagens britânicas detectaram um aumento das viagens a Pequim e Hong Kong de até 35% em 2005 e mais de 90% em relação a 2001. Não é estranho que um aumento turístico tão impressionante nesses lugares de destino tenha dado origem a um desenvolvimento urbano descontrolado, na Ásia por exemplo.

Muitas cidades do Sudeste Asiático eram até pouco tempo atrás lugares de trânsito para a Oceania, mas agora provocam curiosidade por si mesmas e são plataformas de partida para outros lugares da Ásia.

Na Espanha, a generalização do transporte aéreo tem suas peculiaridades.
Desprovidos das conexões aéreas diretas em longa distância -mas favorecidos pela multiplicação de trajetos possíveis-, os espanhóis começaram a visitar em viagens de fim de semana as grandes capitais situadas num raio de quatro horas (Paris, Londres, Grécia, países escandinavos).

São cada vez mais freqüentes as miniférias de dez dias (mas de oito noites reais) em busca das praias paradisíacas e hotéis de luxo do Índico (Maurício, Seychelles ou Maldivas), e continuam aumentando as viagens de curta duração para Bali ou o Caribe.

A última moda na Espanha é o capricho de pegar um avião para depois completar a viagem com um cruzeiro: viajando até Miami ou San Juan de Porto Rico para depois percorrer o Caribe; até Vancouver para dirigir-se posteriormente ao Alasca, ou até Copenhague e dali contemplar os fiordes noruegueses. "As férias curtas estão cada vez mais difundidas. Já desapareceram as férias de 20 dias; as pessoas preferem essas escapadas distribuídas ao longo do ano", diz um porta-voz da agência Viajes El Corte Inglés.

Os barceloneses -embora não tanto quanto os madrilenhos- aprenderam a juntar pontes com aquedutos; e apesar de a capital catalã ser restrita em conexões internacionais, também se começam a detectar as escapadas de longa distância, segundo explica Cristina, funcionária de uma agência de viagens na rua Consell de Cent. "Verificamos que as pessoas começam a ir a Dubai, sobretudo para compras, porque é o paraíso das compras. E também são muito solicitadas as saídas para Nova York, sobretudo para as liquidações de inverno", diz Cristina. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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