Maureen Dowd: "Hillary ou Condi para presidente!"

Lluís Amiguet

Tenho 50 anos. Nasci em Washington. Meu pai era policial no Capitólio e tive três irmãos em uma família irlandesa: sei o que é ser macho. Sou solteira e feliz, mas quando mexo com um presidente no "New York Times" gostaria de ter alguém ao meu lado. Creio em uma democracia de contrapoderes, onde ninguém tenha demasiado.

A entrevista:

Maureen Dowd - Comecei como taquígrafa em "The Washington Star".
Lembro que, quando o jornalista que mandava a crônica por telefone era bonito, eu lhe dizia: "Um momento..." e dava um retoque no batom.

La Vanguardia - Mas se ele não podia vê-la!
Dowd -
Vocês rapazes da redação nunca vão entender nada: não fazia isso por ele, fazia para eu me sentir melhor ao falar com ele.

LV - Hoje suponho que sejam os homens que retocam o cabelo para falar com você...
Dowd -
Tomara: a tensão sexual é inseparável do bom jornalismo. A história de Washington é uma série de escândalos sexuais, de Monroe a Gary Hart ou a Monica, de vez em quando misturados com um pouco de política.

LV - E você ganhou um Pulitzer por explicá-los.
Dowd -
Me deram o prêmio por demonstrar que o caso Lewinsky não devia paralisar o país, mas no máximo o casamento dos Clinton.

LV - Como você chegou à Casa Branca?
Dowd -
Passei dez anos na "Time". Depois entrei na seção local do "The New York Times" e depois me enviaram para Washington, onde acabei cobrindo a Casa Branca com Clinton. E consegui ter minha própria coluna em 1995.

LV - Finalmente!
Dowd -
Tarde demais, meu amigo; hoje nós opinadores não temos mais o monopólio da opinião pública: os grandes temas são descobertos pelos bloggers. Há centenas de bloggers opinando diariamente, não só na Internet, muitos dão o salto da rede para a mídia. Com tantos blogs é muito difícil ser original.

LV - Não creio que concorram com você.
Dowd -
Sim! Lembre que o escândalo Lewinsky começou em um blog, assim como o que custou o prestígio de Dan Rather. Os políticos cortejam os melhores bloggers porque lhes conseguem doações, voluntários e boa imagem para as campanhas.

LV - Não se queixe, Maureen.
Dowd -
Não estou me queixando! É uma situação muito saudável: os blogs me obrigam a melhorar todos os dias.

LV - E vejo que continua se maquiando a fundo.
Dowd -
As européias se maquiam muito pouco. Nós americanas somos
exageradas: nos siliconamos, botoxamos, paxileamos...

LV - Paxileamos!?
Dowd -
Paxil é um antidepressivo que combate a timidez: muitas o tomam para seu primeiro encontro com alguém que lhes interessa.

LV - Você não precisa disso, Maureen.
Dowd -
Às vezes preciso de um tranqüilizante, quando algum político responde a minhas críticas na coluna com alusões pessoais. Aos meus colegas colunistas homens, discutem com argumentos políticos, mas a mim criticam a vida privada, e isso me deixa nervosa.

LV - Você é um paradigma de mulher liberada.
Dowd -
E às vezes me pergunto para quê? Nós mulheres acreditávamos que a vida seria muito mais interessante para nós do que para nossas mães, que ficaram em casa passando roupa. Sonhávamos que um dia seríamos iguais aos homens e tudo seria perfeito.

LV - Você está muito revoltada...
Dowd -
Recapitulo: queríamos ter carreiras maravilhosas e poderosas como eles, com sua liberdade e até a mesma quantidade de orgasmos, mesmo que fossem pequenos, mas...

LV - Ser homem também tem inconvenientes.
Dowd -
Algumas descobriram isso tarde. Não contávamos com o estresse gerado por essa coisa de influir, e a tensão e o preço que é preciso pagar.

LV - Insisto que você não pode se queixar.
Dowd -
Quando você briga com um presidente em sua coluna, chega em casa e gostaria que alguém lhe desse um martíni gelado com uma azeitona, como você gosta, e simplesmente a escutasse; alguém que não tivesse ciúme de você e que não se sentisse diminuído por ser um homem e não ter uma coluna no "Times".

LV - Também deve haver algum... suponho.
Dowd -
Enfim, às vezes não é realista pensar que você pode ser neurocirurgiã e além disso não esquecer de ligar a tempo para o palhaço para a festa de aniversário do seu segundo filho.

LV - Deve haver mulheres que conseguem tudo isso.
Dowd -
E outras que estão dando passos para trás e outras que estão no meio. Algumas vezes são feministas e em outras adoram ser objetos sexuais e que os homens paguem o jantar.

LV - Isso sim é estressante: principalmente para quem paga.
Dowd -
As mulheres americanas da minha geração primeiro brincamos com a Barbie, depois a demonizamos e agora queremos ser como ela. Ouviu falar da doutora Wexler?

LV - ?
Dowd -
Ela tem uma geladeira em Manhattan com gordura de todos os famosos. Ela a tira das cadeiras, das coxas e da barriguinha e a guarda, sempre a 8 graus, para injetar nas rugas à medida que vão aparecendo.

LV - Que horror se ela confundir as etiquetas!
Dowd -
Nada muda, no fundo. Nos anos 70 acreditávamos que para uma mulher a "Playboy" era como "Mein Kampf" para um judeu. Hoje as revistas femininas com seus horóscopos do amor e outras cafonices que nos encantam continuam sendo as mais vendidas nos campus das melhores universidades.

LV - Você vê Hillary como presidente?
Dowd -
Hillary ou Condi para presidente! Condoleezza Rice ou la Clinton -- essa é minha aposta.

LV - Está brincando?
Dowd -
Temo que sim. A guerra do Iraque e o terrorismo reforçam o macho nas posições de poder. Se uma mulher aspira a elas, deve ser ainda mais macho que eles. Por isso Hillary apoiou a invasão do Iraque e se colocou na Comissão de Defesa. Mas isso não basta.

LV - E será candidata?
Dowd -
Os democratas precisam desesperadamente ganhar desta vez. Não vão se arriscar com Hillary, que é muito mal vista no sul.

LV - Você teria gostado de ser política?
Dowd -
Observarei, com Shakespeare, como todos perseguem o poder para abusar dele. Exceto alguns poucos e poucas que preferimos contá-lo. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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