Valencia vive seu pior pesadelo

Salvador Enguix
em Valencia

A tragédia de segunda-feira atingiu Valencia (sul da Espanha) como nunca antes no período democrático. E convulsionou uma cidade mobilizada para acolher dezenas de milhares de peregrinos - as previsões falam em 1,2 milhão - que participarão do 5º Encontro Mundial das Famílias, que o papa Bento 16 encerrará no próximo fim de semana.

Um trem formado por duas unidades UTA 3700 - de dois vagões cada uma, ligados por uma articulação - da linha 1 do metrô, que circulava do centro para a periferia no sentido sul, com mais de 150 pessoas a bordo, descarrilou perto de uma estação do centro. O resultado não poderia ser mais dramático: 41 passageiros mortos e 47 feridos, oito em estado muito grave. Às 2 da madrugada, 33 cadáveres já haviam sido identificados, entre eles o do condutor do trem e de outra funcionária da empresa de transportes, que trabalhava como revisora. A hipótese de um atentado foi completamente descartada ontem à noite.

Entre os feridos há duas grávidas - cujo estado parecia melhor ao fechamento desta edição - e uma menina de 11 anos. A tragédia atingiu especialmente a localidade de Torrent, para onde se dirigia o metrô.

Desse local é a menina citada, cujo estado continuava muito grave nesta madrugada, e dali também eram pelo menos 13 das vítimas mortais. O presidente da região autônoma, Francisco Camps, salientou que "é um dos dias mais tristes da história da Comunidade Valenciana". Fontes da investigação indicaram que a maioria das vítimas é de mulheres, muitas das quais viajavam acompanhadas dos filhos.

O acidente ocorreu pouco depois das 13 horas. O trem tinha saído da estação da Praça de Espanha, no coração de Valencia, e dirigia-se para a de Jesus, no conhecido bairro de Patraix, no cruzamento das avenidas Giorgeta e Jesús.

A linha 1 é a mais antiga do metrô. É administrada pela Ferrocarriles de la Generalitat Valenciana (FGV) e em setembro de 2005 já foi notícia devido ao choque de três unidades no terminal municipal de Picanya, que deixou quatro feridos. Foi aberta ao público em 1987, atravessa a cidade de sul a norte e transporta milhares de pessoas por dia dos bairros da periferia - Torrent, Picanya, Paiporta - para o centro. É a linha preferida por dezenas de milhares de valencianos que vivem na periferia para chegar aos centros comerciais, que esta semana iniciaram as liquidações.

A versão oficial dada por José Ramón García Antón, conselheiro de Infra-Estruturas e Transporte, foi que a primeira unidade descarrilou cerca de 200 metros antes de alcançar a estação de Jesus. Justamente em um trecho longo com uma curva muito acentuada, em forma de meia-lua, que finaliza na parada seguinte. A unidade dianteira tombou sobre o lado esquerdo ao sair da via. A segunda unidade se manteve em posição vertical. A velocidade e o impulso do peso dos vagões provocaram um golpe brutal e, segundo os membros da Defesa Civil consultados, muitos passageiros foram atirados pelas janelas da primeira unidade. Isso, juntamente com o efeito sanfona que atinge as estruturas metálicas nesse tipo de acidente, foi provavelmente o motivo do grande número de vítimas fatais. "Isto é um inferno, há muita gente mutilada", salientou um bombeiro que participou dos trabalhos de resgate.

Sobre as causas do descarrilamento, as versões foram contraditórias.

Para o subdelegado do governo, Luis Felipe Martínez, o acidente pode ter sido causado por excesso de velocidade e a ruptura de uma das rodas. Por esse motivo, a primeira unidade saiu da linha no meio de uma curva fechada. Pouco depois, o conselheiro Martínez desmentia essa hipótese porque, segundo ele, "se se tratasse de excesso de velocidade a segunda unidade teria descarrilado, e não a primeira", embora na continuação tenha dito que nada é descartável. García Antón também desmentiu a idéia inicial de que um desprendimento do túnel da linha 1 tenha causado o sinistro. "O comboio estava em perfeitas condições e tinha passado por uma revisão na semana passada. Foi um descarrilamento muito atípico, num local em que nunca tinha acontecido nada parecido." O conselheiro se referiu ao exame da "caixa preta" que cada trem carrega para "esclarecer o acidente".

Adolfo, morador de Paiporta, descreveu o fato como "uma enorme explosão".

"Eu viajava no último vagão e todos caímos no chão." Ele contou que conseguiu saltar de sua unidade por uma janela e tentou ajudar os outros a segui-lo para sair da estação. "Estava tudo escuro, só havia gritos, nos guiamos pelo tato e pela luz da estação de Jesus. Saímos correndo e no caminho vimos que havia muitos cadáveres."

Lola Alcaraz, que estava na estação de Jesus esperando o metrô, comentou para este jornal: "Ouvimos um forte estrondo e começamos a correr, porque pensamos que se tratava de um atentado a bomba". Nessa estação havia mais de 150 pessoas esperando o metrô para tomá-lo na direção de Torrent. A rápida intervenção da polícia facilitou a evacuação da estação e o início do resgate dos feridos. Muitos deles foram retirados pelos serviços de resgate, como é o caso de Dolores, natural de Torrent, que vários policiais retiraram quebrando uma janela do terceiro vagão da segunda unidade. Juan Antonio, outra testemunha direta do desastre, declarou-se um homem de sorte: só quebrou um braço e descreveu a cena como "um massacre".

Momentos depois, a Generalitat valenciana coordenava um amplo dispositivo de Defesa Civil na estação de Jesus. Unidades do serviço de saúde, de bombeiros e especialistas da FGV e a polícia judicial entravam no túnel. Inicialmente falou-se em um pequeno número de mortos, mas por volta das 16 horas já se compreendia o alcance da tragédia. Pouco a pouco os cadáveres foram trasladados para o Instituto Médico Legal de Valencia para identificação.

Para lá o governo deslocou 15 psicólogos para atender os parentes das vítimas. Hoje serão oficiados os funerais na catedral de Valencia.
Os feridos foram levados para vários hospitais da cidade. Ao todo foram atendidas 47 pessoas, 12 das quais permaneciam hospitalizadas e oito em estado grave. Diante da saída da estação de Jesus, a Defesa Civil instalou um hospital de campanha e aproveitou o edifício da Direção Geral de Tráfego para atender aos que perguntavam por seus familiares.

Era o caso de Celia, de Paiporta. Procurava seu marido e teve sorte: estava vivo. Depois do acidente o caos se instalou no centro de Valencia. A linha 1 foi interrompida e também várias das vias principais da cidade para facilitar o resgate das vítimas. Durante quase quatro horas não foi possível circular por uma cidade que já sofre congestionamentos devido aos preparativos para a visita do papa.

A Generalitat valenciana decretou três dias de luto e anunciou a criação de uma comissão interdepartamental para investigar o acidente e atender às vítimas. A organização do 5º Encontro das Famílias suspendeu os atos lúdicos, mas o programa de congressos prevê a manutenção da visita de Bento 16. Mas depois desta semana nada será igual em Valencia. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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