Racismo: estudante estrangeiro, o alvo perfeito em Moscou

Gonzalo Aragonés
em Moscou

Uma senhora mais velha aproximou-se de mim, me apontou o dedo, me tocou e disse: "Macaco!" Essa foi uma das muitas vezes em que Remigio Obama, um estudante de relações internacionais de 24 anos originário da Guiné Equatorial, não pôde reagir. Ele chegou a Moscou em 2000 com o sonho de tornar-se um diplomata, e todos os dias têm de conviver com o racismo que parece ter contaminado a sociedade russa. Grupos de jovens skinheads, "animados por outros ideólogos", como afirmam as ONGs de direitos humanos, vêm atacando de maneira sistemática os estrangeiros que vivem na Rússia.

"Isso também acontecia na União Soviética, mas não era tão freqüente e sobretudo não causava vítimas mortais", explica a este jornal Siemion Charnyi, especialista em racismo do Escritório de Moscou para os Direitos Humanos.

Segundo essa organização, no ano passado ocorreram 25 ataques fatais por motivos raciais em todo o país. Em um deles, que aconteceu em outubro na cidade de Voronej, um grupo de jovens matou o peruano Enrique Hurtado e feriu o espanhol Mario Rodríguez. A última vítima foi um estudante senegalês, Samba Lansar, alvo de tiros fatais ao sair de uma discoteca em São Petersburgo. "Eles atacam os estudantes porque não podem se defender. É um ataque sem risco. Se atacam alguém do Azerbaijão ou do Cáucaso, há a possibilidade de que a família ou o clã procure os agressores", explica Charnyi. "Também não têm objetivos concretos, por isso é freqüente o ataque contra estudantes africanos ou latino-americanos de traços característicos."

Para os estudantes, normalmente com poucos recursos econômicos, os ataques podem ser algo relativamente novo, mas o racismo não. "Apesar de este ser um país europeu, aqui nos tratam como animais", queixa-se Remigio.

Luis Carrasco, um futuro médico peruano de 20 anos, afirma que Moscou "é uma cidade hostil" desde o momento em que se chega. "Desci do avião e fui trocar dinheiro. Não entendia russo. A senhora começou a gritar. Suponho que queria que eu lhe desse os dólares exatos para o valor trocado. Mas era impossível que eu entendesse. Eles também não fazem nada para entender." Obama afirma que é melhor "se entender com os cidadãos das antigas repúblicas soviéticas". "O motivo é que os russos nos tratam como se estivéssemos lhes roubando algo, mas só viemos aqui para estudar. Quando terminarmos o curso, vamos embora e todo o dinheiro que pagamos fica aqui. Só levamos os diplomas", acrescenta o guinéu.

"Vários mitos se espalharam pela sociedade", conta Charnyi. "Que os nigerianos são narcotraficantes e que os africanos só vêm para namorar as garotas russas."

Hoje há aproximadamente 103 mil estudantes estrangeiros na Rússia.
Cerca de 43 mil vêm do antigo espaço soviético e 15 mil são africanos.
O centro que recebe mais estudantes é a Universidade da Amizade dos Povos Patrice Lumumba, um verdadeiro símbolo durante a época soviética, fundada há 45 anos para receber estudantes procedentes dos países do chamado Terceiro Mundo. É lá que estuda o somaliano Ahmed Muhtar, mas depois de quatro anos na Rússia já pensa em voltar ao seu país, apesar da guerra civil que a Somália vive há anos. "É impossível ficar aqui.
No futuro não mandarei meus filhos estudar na Rússia", confessa Muhtar diante do edifício principal da universidade.

Ele levou uma surra pouco depois de chegar a Moscou para estudar engenharia civil. Num dia de novembro, pouco depois das 7 da tarde, acompanhou um amigo à sua casa. Ao sair do edifício para pegar um táxi, viu um grupo de meninos.

"Pensei que estivessem brincando, tinham 14 anos. Um deles aproximou-se de mim e começou a falar rapidamente, mas eu ainda estava estudando o idioma e não entendi; pedi que repetisse. Logo me deu um soco e quando tentei revidar outro me atacou pelas costas. Perdi a consciência." No chão, os jovens começaram a lhe dar pontapés. Muhtar passou 15 dias no hospital.

Mas por que decidiram ir para Moscou? "Era o lugar onde davam mais bolsas", afirma Judyth León, 26 anos, uma peruana da cidade de Jauja que se formou em psicologia na Lumumba e agora faz o mestrado. "O preço dos estudos é muito menor que na Europa ou nos EUA", acrescenta Yuldas Okie, do Gabão, que atualmente estuda para o doutorado na faculdade de Relações Internacionais.

"A maioria dos estudantes africanos paga US$ 3 mil por ano." Okie, que também é presidente da Associação de Estudantes Africanos na Rússia, elogia o sistema europeu. "Se tivesse que escolher entre a Rússia e o país mais pobre da Europa, digamos a Romênia, prefiro a Romênia. Aqui você precisa olhar à esquerda e à direita quando sai de casa."

O ativista Charnyi acrescenta um terceiro motivo: "O governo russo quer manter o ensino para os países do Terceiro Mundo como forma de levar para lá a ideologia russa. Em segundo lugar pelo dinheiro que ingressa."

A maioria dos estudantes estrangeiros vem à Rússia com bolsa. Esta incluiu os estudos e alojamento numa residência estudantil, na qual dois ou três estudantes terão de compartilhar um quarto. Alguns deles também recebem uma bolsa mensal de seu governo. "A Guiné Equatorial tem uma bolsa de ajuda que distribui entre todos os que estão aqui. Hoje recebemos US$ 350", diz Remigio Obama. Outros, como os peruanos Luis Carrasco e Judyth León, vivem do dinheiro que suas famílias enviam. E vivem apertados em uma das cidades mais caras do mundo, por isso são poucos os que podem voltar para casa antes de se formar.

Para enfrentar melhor seus problemas, os estudantes criaram associações.
"Serve para irmos unidos falar com o reitor da universidade ou com a polícia", diz Okie. "Mas também procuramos patrocinadores e compramos produtos como óleo ou sabão e os distribuímos entre os estudantes com menos recursos." Muitos latino-americanos católicos recebem apoio da Igreja Católica russa, minoritária. "A comunidade é como a família que ficou distante", diz Judyth.

Outros tentam enfrentar tudo com otimismo: "Embora os russos sejam tão antipáticos, inclusive entre eles mesmos, não podemos cair nisso porque você começa a resmungar e fica igual a eles", diz Carrasco. "Minha professora de russo em Lima me disse que em Moscou eu ia conseguir dois diplomas, o de médico e um segundo que diria: 'apto para viver em qualquer lugar do mundo'." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos