Bósnia, Iraque, Afeganistão...

Gervasio Sánchez

Ocorreu na Bósnia em 1993 e no Iraque em 2003: as zonas chamadas tranqüilas acabaram engolidas pela lógica da guerra. E pode acontecer no Afeganistão em 2006, um país várias vezes mais complexo que os dois anteriores, onde a guerra se transformou em uma forma de vida para muitos afegãos.

Herat é hoje para o Afeganistão o que Mostar, Diuaniya e Nayaf foram no passado para a Bósnia e o Iraque: cidades e províncias supostamente tranqüilas, embora governadas com mão de ferro por senhores da guerra, comandantes com duplo critério ou milícias radicais desejosas de provocar o caos.

A mobilização dos primeiros soldados espanhóis das forças de proteção da ONU na Bósnia foi saudada como uma operação quase sem riscos. O saldo dos primeiros meses entre novembro de 1992 e abril de 1993 foi irrisório: alguns soldados feridos pela explosão de uma mina e alguns acidentados nas terríveis estradas bósnias.

Mas o número de soldados se manteve a partir dessa data, apesar de o número de patrulhas ter-se multiplicado e a guerra entre croatas e muçulmanos ter adentrado a zona de missão dos espanhóis. Seis meses depois, a enxurrada de sangue tornou-se insuportável. Nove soldados morreram atingidos por projéteis ou em acidentes trágicos. O "meus legionários são invencíveis" do coronel Ángel Morales deu lugar a uma reflexão mais realista: o contingente espanhol deveria ter sido reforçado para realizar uma missão que havia se tornado muito perigosa.
Quando o general Alfredo Cardona, veterano da Bósnia, desceu de seu veículo em Diuaniya no tórrido verão iraquiano de 2003, o fez em uma zona tranqüila inclusive para os fuzileiros navais americanos, que guardavam os quartéis havia vários meses quase sem sofrer ataques sérios. Nayaf também vivia uma situação bastante mais calma que os enclaves sunitas do norte de Bagdá. Mas até o espectador menos incisivo percebia que se tratava de uma ilusão.

Por sorte, os soldados espanhóis da brigada Plus Ultra se retiraram do Iraque quase sem baixas, apesar de seus quartéis terem sido atacados regularmente pelas milícias armadas que pululavam naquelas regiões.

A lição aprendida é que os militares espanhóis não devem intervir em uma zona de guerra ao lado de mercenários americanos ou forças militares de países com dificuldades para respeitar as normas de combate. Durante a refrega de 4 de abril de 2004 na base Al Andalus de Nayaf, mercenários americanos e soldados salvadorenhos descumpriram as ordens de cessar-fogo dadas em pelo menos três ocasiões pelo chefe do quartel, o coronel espanhol Alberto Asarta. Os mercenários americanos continuavam disparando contra civis quando o perigo de ataque exterior era inexistente.

O ataque deliberado de sábado contra uma patrulha militar liderada por um oficial espanhol prevê uma forte ofensiva contra os soldados que patrulham as zonas vizinhas das províncias de Hilmand e Kandahar, bastiões dos taliban e dos milicianos da al Qaeda, e eleva o risco da missão espanhola.

Os especialistas consultados em Cabul afirmam que os taliban decidiram lançar uma intensa ofensiva para demonstrar seu poder militar coincidindo com a mobilização de outros 6 mil soldados da Otan no sul do país previsto para este ano.

O governo e as forças armadas espanholas deveriam avaliar com precisão o número de soldados necessários no Afeganistão, com o fim de evitar males maiores no vespeiro afegão onde fracassou um exército poderoso como o soviético ou onde o americano foi incapaz de estabilizar uns poucos quilômetros quadrados.

Assim como não é difícil concluir que 15 mil soldados da Otan mal podem exercer influência sobre as capitais provinciais de um país tão irregular como o Afeganistão, 680 soldados espanhóis é um número insuficiente se levarmos em conta que a temporada no inferno acaba de começar. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos