Uma esperança para os tetraplégicos

Josep Corbella
em Barcelona

Um homem de 25 anos que ficou tetraplégico aos 22 por causa de uma lesão na medula conseguiu controlar um computador e acionar com precisão uma mão robótica, anunciou uma equipe de pesquisadores americanos na revista científica "Nature". Os médicos que participaram da pesquisa advertem que o tratamento que o paciente recebeu é experimental e ainda deve ser aperfeiçoado antes de ser aplicado em grande escala.

Em uma intervenção cirúrgica praticada no hospital de Rhode Island, um dispositivo quadrado de 4 milímetros de lado que controla os movimentos voluntários foi implantado em uma região do cérebro do paciente: o córtex motor primário. O dispositivo, dotado de 100 eletrodos mais finos que cabelos, captou o sinal elétrico gerado por neurônios dessa região e o transferiu para um computador através de um cabo que saía da cabeça do paciente.

Os médicos pediram que o voluntário pensasse em mover um cursor sobre a tela, e só com o pensamento ele conseguiu abrir e-mails, jogar com o computador, ajustar o volume de um televisor e até pegar caramelos com uma mão robótica e colocá-los na mão de um pesquisador.

O mais importante que essa pesquisa demonstra é que "a área do cérebro que controla o movimento continua funcionando anos depois de uma lesão da medula", declara em um comunicado de imprensa o neurocientista John Donoghue, da Universidade Brown de Rhode Island e diretor do projeto.

Além disso, demonstra que esses neurônios que permaneceram inúteis durante anos podem ser reabilitados, registrando sua atividade elétrica e traduzindo-a para instruções que um computador possa executar. Finalmente, a pesquisa demonstra que uma pessoa incapacitada pode dominar sem dificuldade a atividade desses neurônios para controlar dispositivos eletrônicos e robóticos.

"Como médico, faço o possível para otimizar a recuperação de pacientes com doenças que causam paralisia, como lesões medulares, doenças neuromusculares ou acidentes vasculares cerebrais", salienta em outro comunicado o neurologista Leigh Hochberg, da Escola de Medicina de Harvard e primeiro autor do trabalho.

Entre as doenças que poderiam ser aliviadas recebendo o sinal dos neurônios motores, os pesquisadores citam a distrofia muscular, a esclerose lateral amiotrófica - a doença do cosmólogo Stephen Hawking - e as seqüelas dos derrames. "Embora haja muito trabalho por fazer, espero poder dizer algum dia a meus pacientes: 'Temos uma tecnologia que lhe permitirá mover-se novamente'."

Em primeiro lugar, é preciso testar a técnica em outros voluntários para comprovar sua eficácia; por enquanto, dois outros pacientes envolvidos na pesquisa foram capazes de dominar a atividade de seus neurônios motores e controlar computadores. Falta também analisar quantos eletrodos seria preciso implantar no cérebro e exatamente em que lugar para obter resultados ótimos.

E sobretudo há duas questões técnicas que não estão resolvidas. Uma é que passar cabos através da pele para receber os sinais elétricos do cérebro representa um risco elevado de infecção - risco admissível em uma pesquisa pioneira que tenta verificar se os neurônios conservam algumas atividades, mas que comportaria efeitos secundários graves em alguns pacientes se a técnica fosse generalizada. Para evitar esse problema, os pesquisadores começaram a desenvolver um dispositivo sem fio para transmitir os sinais do cérebro.

Segunda questão a resolver: os pesquisadores não só pretendem recuperar a atividade dos neurônios motores - o que já seria um avanço importante - como também recuperar a mobilidade de braços e pernas.

Para conseguir isso, esperam combinar os eletrodos que registram a atividade dos neurônios motores com um dispositivo que estimule os músculos - ou mesmo próteses - de braços e pernas. Desse modo, as instruções do cérebro seriam transmitidas diretamente para os membros.

"Esperamos que os conhecimentos adquiridos com o trabalho permitam um dia, quando forem combinados com estimuladores neuromusculares, recuperar o controle dos membros paralisados", disse Hochberg. Mas ele adverte que, se transmitir os sinais dos neurônios para computadores pode representar melhoras para os pacientes em poucos anos, voltar a movimentar braços e pernas é um objetivo em longo prazo.

Duas estratégias

Registrar a atividade cerebral - Diversas equipes de pesquisa na Europa e nos EUA trabalham com o objetivo de aproveitar a atividade elétrica do cérebro para acionar dispositivos eletrônicos robóticos que ajudem as pessoas incapacitadas a recuperar parte de sua autonomia perdida.

Essa linha de trabalho não pretende curar lesões medulares, mas tenta estabelecer conexões entre o cérebro e diferentes tipos de aparelhos. É a estratégia seguida pelos pesquisadores da Universidade Brown de Rhode Island, que apresentaram seus resultados na revista "Nature".

Regenerar a medula - As pesquisas com células-mães têm por objetivo regenerar órgãos danificados, entre eles a medula espinhal de vítimas de acidentes. Essa linha de trabalho, que tenta regenerar os neurônios danificados, pretende curar lesões medulares. Mas as dificuldades para consegui-lo são enormes: ainda não se sabe como fazer os neurônios voltarem a crescer nem como dirigi-los para os músculos que deverão acionar. Apesar de resultados esperançosos em experimentos com ratos, os pesquisadores acreditam que os benefícios para os pacientes vão demorar anos para chegar. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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