Para Shimon Peres, ataque do Hizbollah pode ter sido organizado pelo Irã

Henrique Cymerman
em Jerusalém

O vice-primeiro-ministro israelense, Shimon Peres, considera "possível que o ataque do Hizbollah a Israel tenha sido organizado pelo Irã para desviar a atenção da comunidade internacional do assunto nuclear". Em uma entrevista exclusiva na quarta-feira, Peres acrescentou que "o Irã disse não a Javier Solana em 11 de julho e o Hizbollah atacou Israel em 12 de julho".

Peres desenhou "um cenário de terror" composto por dois Estados, Irã e Síria, por "um país em processo de criação, a Palestina do Hamas, e pelo Hizbollah, que é um Estado dentro de um Estado".

Antigo líder do trabalhismo israelense, Shimon Peres considera que "o Iraque é uma ameaça pelo terrorismo e por sua ambição nuclear". "Não é que o Irã seja um país tão forte. O Irã aumentou sua população nos últimos 15 anos, mas o que realmente aumentou é a pobreza, 20% estão desempregados, há muito crime e gente que sofre. E além disso o Irã não é um país tão homogêneo, só 54% são persas. Esperamos que enquanto lutamos contra o Hamas e o Hizbollah o mundo cuide do Irã. E a Síria tem um jogo duplo: diz pertencer ao eixo que luta contra o terror quando hospeda os líderes do Hamas em Damasco e transfere armas para o Hizbollah. Bombardeamos as estradas entre a Síria e o Líbano porque descobrimos que a Síria leva armas para o Líbano. A Síria também não está tão forte, sua economia é muito pobre, seu governo é ditatorial. O exército não é muito brilhante, os generais são velhos. O Irã e a Síria são membros da ONU, e os dois negam a existência de Israel."

La Vanguardia - A pretendida faixa de segurança no sul do Líbano desperta certos fantasmas da invasão de 1982.
Shimon Peres -
Queremos que o exército libanês e não o Hizbollah controle a fronteira com Israel.

LV - Haverá soldados israelenses nessa faixa até que chegue a força internacional?
Peres -
Não há necessidade, pelo menos de forma permanente.

LV - Que missão deveria ter essa força?
Peres -
Deter o Hizbollah. Não tem sentido que seja uma força de observadores.

LV - Um projétil israelense matou na terça-feira quatro observadores da ONU. Kofi Annan diz que foi de propósito.
Peres -
Me surpreende que Kofi Annan declare algo assim. Foi um acidente, e lamentavelmente as guerras estão cheias de acidentes.

LV - Morreram cerca de 400 civis libaneses nessas duas semanas...
Peres -
Tentamos não matar inocentes, mas temos um problema porque o Hizbollah esconde suas armas em casas particulares. Ele acreditam que um míssil é como um cachorro ou um gato, uma espécie de mascote. Não podemos permitir isso. Eles os atiram sobre civis israelenses. Entre os 400 supostos civis mortos há militantes do Hizbollah. Não daria demasiado valor a essa cifra. Geralmente os números no Líbano são mais poéticos que matemáticos.

LV - O senhor afirma que alguns civis mortos são membros do Hizbollah?
Peres -
Tenho certeza, porque fazemos o possível para não matar civis. Os libaneses não são nossos inimigos, podemos conviver com eles em paz. O Hizbollah é uma força estrangeira que não defende nenhum interesse libanês.

A tragédia libanesa é resultado da ambição iraniana, porque o Hizbollah trabalha para o Irã. Não se deve confundir. O Irã financia os terroristas, os treina, lhes envia armas, lhes dá instruções e eles lançam mísseis e foguetes contra Israel depois de Israel se retirar totalmente do Líbano conforme a resolução da ONU. Não fizemos nenhum prisioneiro, não ficamos com a terra, queremos viver em paz. Mas por culpa do Irã, que quer estabelecer sua hegemonia no Oriente Médio, em vez de uma união árabe, não é possível viver em paz.

LV - Israel recebe apoio de algum país árabe?
Peres -
Arábia Saudita, Egito e Jordânia.

LV - Imaginava-se um milhão de israelenses vivendo em refúgios e cidades como Haifa bombardeadas?
Peres -
O Hizbollah acreditou que Israel se renderia assim que começassem a cair os 12 mil mísseis de seu arsenal. Não tem sentido. Israel foi estabelecido há quase 60 anos. Nesses 60 anos tivemos pelo menos cinco guerras. Alguém veio nos ajudar? Não. Pedimos alguém que lutasse em nosso lugar? Não. Esta guerra não é diferente.

LV - Como o senhor explica que uma milícia de milhares de homens possa resistir a um exército tão forte quanto o de Israel?
Peres -
Resistem às custas de destruir o Líbano, um país pacífico que eles invadiram. Utilizam pretextos religiosos para fazer qualquer coisa, até matar. É esse o espírito da religião? Trata-se de uma organização liderada por fanáticos, que usam propaganda e recebem mísseis do Irã e da Síria.

Disparam indiscriminadamente e o governo libanês é frágil e não pode detê-los. É uma situação complicada.

LV - E agora? Ameaçam atacar cidades ao sul de Haifa. É possível que alcancem Tel Aviv?
Peres -
E qual é a diferença? Importa onde cai o míssil? Somos as mesmas pessoas em todo o país.

LV - O senhor acredita que o Hizbollah pode chegar a atacar Tel Aviv?
Peres -
Para quê lhes dar idéias? Se perguntarem a mim, creio que não deveriam atacar Haifa.

LV - Quais são suas expectativas em relação à conferência de Roma?
Acredita que pode pôr fim à guerra, ou, pelo contrário, ainda estamos longe da paz?
Peres -
É um pouco estranho que Israel não tenha sido convidado para a conferência. Por quê? Porque fomos atacados? Nós não queremos prejudicar o Líbano. Lamentamos muito o que acontece lá. É a primeira vez que alguém destrói o Líbano de dentro. Não somos nós quem destruiu o Líbano nem é nossa intenção. Mas se quiserem ajudar o Líbano, se quiserem mobilizar forças no Líbano, o normal seria convidar Israel.

LV - A Síria declarou estado de alerta máximo. Um mal-entendido poderia levar à abertura de uma terceira frente de guerra?
Peres -
Não, porque eles não têm um exército com capacidade ofensiva. Quem não tem um exército ofensivo não deseja atacar.

LV - Com a frente do Hizbollah aberta, muitos se esqueceram dos palestinos nestes dias.
Peres -
A situação em Gaza é semelhante à do Líbano. Nos retiramos de Gaza. O que querem agora? Se não tivessem seqüestrado os soldados, muitos prisioneiros já teriam sido libertados das prisões israelenses. Não sei o que querem conseguir lançando mísseis contra Israel. Creio que prejudicam a si mesmos. Mas se me perguntar se são idiotas, eu diria que não. São fanáticos. Quando você é fanático não raciocina, acredita que é um santo. Mas só deus é santo. Os demais somos seres humanos.

LV - Há poucas semanas o tema era a retirada israelense da Cisjordânia e o referendo na Autoridade Palestina para reconhecer Israel. O que aconteceu?
Peres -
O Hamas começou a disparar outra vez. Voltou a seqüestrar soldados e tentou transformar isso em uma estratégia de luta. Eles são a tragédia do povo palestino. A ambição iraniana se transfere para a tragédia palestina.

LV - Há exatamente um ano Israel se retirava de Gaza e o senhor, junto com o primeiro-ministro Ariel Sharon, apoiou esse plano. O que mudou agora?
Peres -
O que mudou é que o Hamas ganhou as eleições. Por quê? Sempre houve um problema na administração palestina. A ajuda dos países ricos acaba nas mãos das pessoas ricas das zonas pobres. O que matou a al Fatah não é a ideologia, mas a corrupção, e foi assim que perdeu as eleições. E começou a governar o Hamas, um grupo de fanáticos que não querem a paz nem respeitam os acordos internacionais. Os palestinos poderiam ter centenas ou milhares de prisioneiros já libertados. Quem deteve o processo de libertação? O Hamas. Estávamos de acordo com a criação de um Estado palestino ao lado de Israel. Quem o deteve? O Hamas. Não entendo as pessoas que o apóiam. O que é que apóiam? Uma catástrofe?

LV - O senhor acredita que em algum momento será possível um Estado palestino ao lado de Israel?
Peres -
Sim, será estabelecido. Eu estou muito desiludido, mas sou um homem de paz. Estou muito desiludido com essas ondas de terror.

Estou decepcionado, mas não desesperado. O Egito lutou quatro vezes contra nós antes de assinar a paz, a Jordânia participou de três guerras contra nós e se poderia pensar que não havia nenhuma oportunidade para a paz. Mas houve.

Por isso temos de manter a esperança. É preciso lutar quando é necessário e aproveitar cada oportunidade para fazer a paz, se for possível. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos