Uma arma para tudo

Félix Flores
enviado especial a Jerusalém

Se for cair em cima de você ou muito perto, digamos a 50 metros, não se escuta o Katyusha. Só quando passa ao largo emite um silvo. Nisto o foguete que as milícias do Hizbollah utilizam para aterrorizar a população civil do norte de Israel se parece com qualquer outro projétil. Ao fazer impacto contra uma casa ou o solo, emite um ruído seco, mas não estrondoso.

Os Katyushas convencionais que a milícia xiita libanesa está lançando, de 122 mm de diâmetro, leva uma carga de somente 6 a 7 quilos de explosivos. O efeito em uma residência qualquer dos povoados do norte de Israel, normalmente de dois ou três andares, não é espetacular; não destrói a casa totalmente, mas causa danos e é mortal. Além dos escombros que faz voar quando explode, a cabeça do foguete contém cerca de 50 mil projéteis de cerca de 6 mm de diâmetro, que são disparados em todas as direções.

Há alguns dias, na localidade de Maalot, a ogiva de um Katyusha atravessou a porta de uma casa à venda, depois uma geladeira e uma parede. O dono, que continua morando lá, estava no abrigo antiaéreo.

A localidade de Maalot é habitada por 50% de judeus emigrados da Rússia e da Ucrânia. Embaixo de uma escada, enquanto caíam os projéteis, uma senhora que ia para sua casa e que foi surpreendida pelo ataque nos disse que preferia viver aqui do que em seu povoado na Ucrânia ocidental.

"Mas lá não caem foguetes", lhe dissemos. "Mas aqui não é todos os dias", respondeu.

Ironias da história: o Katyusha é uma invenção russa. Durante a Segunda Guerra Mundial esse tipo de artilharia ligeira, montada sobre um caminhão, em lançadores que podem disparar, conforme o modelo, meia dúzia de projéteis de cada vez, foram o pesadelo das tropas alemãs na frente russa. Eram chamados de os órgãos de Stalin.

A invenção se deve a dois cientistas soviéticos, Artomiev e Tikomirov, que em 1928 criaram esse artefato para ser produzido nos laboratórios Dinâmica do Gás de Leningrado. Naquela época o projétil tinha um diâmetro de 82 mm e alcance de 5 a 6 quilômetros. Na época em que foi desenvolvido, o Katyusha - nome tirado de uma canção tradicional - poderia ter atuado em terras espanholas durante a Guerra Civil; mas só entrou em ação em 1941.

O objetivo desse tipo de foguete em uma guerra frontal é o fogo de saturação sobre as linhas inimigas, muito mais eficaz e rápido do que a artilharia convencional, mas a fórmula fez fortuna com o passar do tempo, sobretudo pelo fácil manejo, tanto dos projéteis como de seu lançador. Como ocorreu com a arma russa mais popular, o fuzil Kalashnikov, as cópias se reproduziram de maneira incontível. Chineses, iranianos, sírios e, é claro, russos produziram novas versões com o tempo. Trata-se de uma arma básica, e realmente de sofisticado os Katyusha não têm nada.

Assim, os foguetes que caíram ultimamente sobre Israel - cerca de 3 mil - são de fabricação síria. Para a guerrilha do Hizbollah, esses foguetes são a arma perfeita. Para começar, o custo de fabricação reduzido (seria preciso conhecer os termos do acordo entre a guerrilha xiita e o governo sírio); e em segundo lugar podem-se disparar muitos foguetes em poucos segundos, para em seguida deslocar o lançador - sobre um caminhão - para outro lugar.

Esse é um aspecto que enlouquece os efetivos do exército e a aviação israelenses. Segundo a versão oficial (divulgada nos últimos dias pelo embaixador israelense na ONU, Dan Gillerman), cada combatente do Hizbollah dorme com seus foguetes embaixo da cama e no mesmo prédio onde se alojam civis. Assim como no caso dos combatentes a pé em terra, com os Katyusha o Tsahal está enfrentando um exército de fantasmas.

Outra questão é a pontaria. É aí que aparecem as dúvidas. Em princípio, esses foguetes não são mísseis que podem ser dirigidos para um alvo específico, no entanto acertam bastante. A polícia do distrito norte de Israel organizou na última sexta-feira uma exposição de foguetes.

Aproveitando o lugar da pequena cratera de apenas 2 metros onde havia caído um projétil em Kiriat Shmona, foram exibidos à imprensa foguetes Katyusha convencionais e aperfeiçoados, de fabricação síria; foguete iranianos Fajr-3, capazes de alcançar a cidade de Haifa, e foguetes Haiba-1, também sírios, que haviam caído perto da localidade de Afula, no centro de Israel e a mais de 70 quilômetros da fronteira libanesa.

Nenhum Katyusha dos que aterrissam cotidianamente sobre a zona de Kiriat Shmona - e são mais de 500 - afetou o kibutz de Hagoshrim, que explora um hotel paradisíaco onde se hospedam os jornalistas nestes dias. Mas esses foguetes mataram 12 soldados reservistas mais ao norte, no kibutz de Kfar Gilani, onde passavam algumas horas de descanso no último domingo.

Os foguetes de maior alcance do Hizbollah, os Fajr-3 iranianos que atacam Haifa ao mesmo tempo que os Katyusha e os Haiba-1 sírios que atentaram contra a central elétrica de Hadera - que abastece um terço do território israelense - erraram o alvo (um deles foi parar perto da cidade palestina de Jenin, na Cisjordânia, onde caiu em campo aberto).

Os lançadores de foguetes de longo alcance são o objetivo prioritário da aviação israelense, mas em relação aos comuns Katyusha esta não conseguiu progressos significativos. O foguete Katyusha, criado na URSS, é o melhor recurso do Hizbollah contra Israel. É fácil de manejar e, segundo Israel, cada combatente xiita dorme com seus foguetes embaixo da cama Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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