Quem vai desarmar o Hizbollah agora?

Tomás Alcoverro

Muitos libaneses sentem que esta guerra não terminou. Os próximos dias e semanas serão imprevisíveis. No terraço de minha casa, no bairro de Hamra em Beirute, caiu um panfleto dos milhares que foram despejados por um avião israelense, ameaçando com "novos ataques se as operações terroristas continuarem". O texto diz: "Libaneses, o Hizbollah, que serve aos interesses iranianos e sírios, os condena à morte e à devastação. Estão dispostos a pagar esse preço pela segunda vez? Vocês sabem que nosso exército agirá com a força necessária caso haja novos atos terroristas". Assinado: "Estado de Israel".

Embora dezenas de milhares de libaneses tenham se apressado a voltar para suas casas, atravessando a fronteira da Síria onde se haviam refugiado - não falo, é claro, dos habitantes do sul do rio Litani, que não podem voltar devido à proibição israelense de circular motorizados por seu território e à destruição de suas pontes e estradas -, ainda não há uma impressão de tranqüilidade nem de confiança na população. De fato, continua o bloqueio aéreo e marítimo imposto por Israel no início desta batalha contra o Hizbollah, e ainda não soou a hora da verdade. De um ponto de vista político e militar, a situação interna tornou-se mais ambígua e mais complexa.

O governo de Fuad Siniora, que cancelou uma reunião para discutir o tema capital do desarmamento do Hizbollah, em cumprimento ao texto da resolução 1701 da ONU, ainda não decidiu a nova data para convocá-la.

Na verdade esse assunto já tinha sido tratado em uma resolução anterior, a 1559, aprovada pelo Conselho de Segurança em setembro de 2004, resolução que estipulava a evacuação das tropas estrangeiras do Líbano e o desarmamento das milícias, entre as quais se incluía o Hizbollah, além de outros grupos militantes palestinos que continuam ativos nesta república. Só o contingente de soldados sírios foi evacuado, sob pressão dos EUA e da França, mas o outro assunto ficou adiado indefinidamente porque afetava a situação política interna.

Desde o último inverno foram organizadas em Beirute conferências sobre o diálogo nacional que resultaram totalmente infrutíferas, pois não se chegou a nenhum acordo sobre a sorte do contundente arsenal do Hizbollah, estreitamente ligado ao Irã e protegido pela Síria. A direção da organização xiita acusa agora o governo libanês de tentar desarmá-la quando "nem Israel o conseguiu".

Nos subúrbios xiitas de Beirute, Baalbeck, Nabatie, Tiro ou Canaã, o Hizbollah distribuiu na segunda-feira panfletos clamando vitória: "Vitória divina", diziam seus textos com imagens do xeque Nasrallah. Os líderes do Irã e da Síria também declararam que o Hizbollah obteve uma "vitória militar".

Em uma mensagem aos combatentes, o xeque Nasrallah afirmou que continuará sua ação de resistência até que "o último soldado ocupante se retire" e também instou o exército regular libanês a continuar vigilante para evitar que Israel aproveite estes dias de incertezas.

Não há nenhum procedimento estabelecido na resolução 1701 da ONU para regulamentar de que forma devem se retirar os homens do Hizbollah e de que forma deve se mobilizar o exército libanês, reforçado com as novas tropas da força interina da ONU no Líbano, nem para evacuar do território os soldados israelenses que continuam em suas posições ocupadas.

O comandante em chefe da força da ONU, Alain Pellegrini, entrou em contato com os chefes militares libaneses e israelenses para preparar essa grande operação. A rapidez de sua mobilização, como declarou o enviado especial da ONU, o diplomata latino-americano Álvaro de Soto, é crucial para poder levá-la a cabo.

A anunciada intervenção da diplomacia italiana poderia ajudar a abordar a questão da libertação dos dois militares israelenses capturados - o início desta guerra - e dos prisioneiros libaneses no Estado israelense. O texto da resolução nada diz sobre isso.

Retirada em dez dias

O Tsahal (exército israelense) espera começar a se retirar do sul do Líbano em dez dias. Haverá escaramuças que podem deteriorar a situação. Na verdade, já ocorreram na segunda-feira: em vários incidentes, parece que quatro guerrilheiros foram abatidos. O Tsahal deu ordens para situações como, por exemplo, o resgate de soldados cercados pelo Hizbollah com o uso de fogo aéreo, se necessário.

O comando israelense tem um plano de evacuar as tropas e trocar unidades de reservistas por regulares, segundo o jornal "Haaretz", e pretende começar a se retirar dentro de dez dias. Enquanto isso haverá várias complicações. O chefe da intendência, general Avi Mizrahi, disse à rádio do exército, respondendo a queixas dos reservistas, que "se ficarem sem comida ou água creio que poderão invadir lojas libanesas para resolver o problema".

Os israelenses estão satisfeitos. Depois de um mês de exaltação patriótica, volta o discurso claro de que as guerras não são boas. Alguns, como Jaim, emigrado da União Soviética nos anos 70, avalia a coisa à moda antiga e diz: "Ganhamos, o Hizbollah está destruído; matamos 2 mil e eles só 100 e poucos de nós, e tiveram bilhões em prejuízos".

Mas é exceção: em geral a sensação é de que "ninguém ganhou". Foi o que disse Zaki Badawi, um árabe-israelense que fechou seu café devido à ameaça dos foguetes em Tarshiha, o povoado gêmeo de Maalot onde árabes e cristãos convivem com judeus sob um prefeito judeu quase vitalício, Shlomo Bahbot, amigo do pai de Zaki, que afirma que a convivência não foi ameaçada. "As pessoas querem viver", ele diz, e embora em seu local tenha sintonizada a TV Al-Jazira - onde foi possível ver o horror no Líbano, à diferença dos canais israelenses -, seus cidadãos preferem o futebol. Mas isso não impede que outros acreditem que o Hizbollah ganhou pelo mero fato de resistir.

O discurso de Hassan Nasrallah na televisão na segunda-feira tinha esse tom de vitória na resistência e se dirigia nestes termos à população: "Quero agradecer a todos, aos que sofreram e aos que nos ajudaram. Nos últimos dias milhares de lares foram destruídos. Amanhã mesmo iremos falar com as pessoas para ajudá-las a reconstruir suas casas. Prometo que não terão de recorrer a outras mãos para fazê-lo".

No hospital Bamran de Haifa, onde há 69 soldados feridos, um pára-quedista de 26 anos nos disse que "o cessar-fogo é bom para todos", mas "os termos não são bons para Israel: não conseguimos resgatar os soldados seqüestrados nem liquidar o poder do Hizbollah. Olmert começou a guerra por esses motivos, agora seria preciso continuar negociando muito seriamente". Política e militarmente, a situação interna no Líbano tornou-se mais ambígua e mais complexa. O Hizbollah acusa o governo libanês de tentar desarmá-lo quando "nem Israel conseguiu" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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