Günter Grass: confissão tardia causa polêmica

Marc Bassets
em Berlim

O escritor alemão Günter Grass, prêmio Nobel de Literatura em 1999, disse que ocultou durante seis décadas o fato de que nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial pertenceu às Waffen-SS porque se envergonhava disso.

"O que aceitei com o estúpido orgulho de meus anos de juventude, depois da guerra quis calar devido a uma vergonha surgida posteriormente", escreve Grass em "Beim Häuten der Zwiebel" (Descascando a cebola), suas memórias de infância e juventude, publicadas na quarta-feira, duas semanas antes da data prevista.

AFP 
Registro da prisão de Günter Grass pelos americanos em 1945, prova de que ele foi membro das tropas nazistas SS
A confissão do autor de "O Tambor", incluída nas memórias e adiantada na semana passada em uma entrevista ao jornal "Frankfurter Allgemeine", provocou uma polêmica intelectual e na mídia que levou as livrarias e a editora a anteciparem o lançamento do livro, previsto para 1º de setembro.

Não era segredo para ninguém que na adolescência Grass, assim como milhões de alemães seus contemporâneos, foi um ardoroso nazista. Ele nunca ocultou isso. O escritor de 78 anos fez da experiência juvenil na Alemanha nazista e do reconhecimento das culpas alemãs um dos fundamentos de sua obra literária e de seu posicionamento público, comprometido com a esquerda social-democrata.

O que ele nunca havia explicado - só na confissão que as autoridades aliadas o obrigaram a assinar em 1946 e em conversas com sua família e alguns amigos - era que nos últimos meses da guerra, quando tinha 17 anos, foi parar involuntariamente nas Waffen-SS, a tropa de elite da Alemanha nazista, responsável por crimes de guerra e perpetradora do Holocausto.

A experiência foi relatada em um capítulo de 60 páginas de "Descascando a Cebola". O narrador explica que se alistou como combatente em um submarino, mas como não havia mais lugares acabou na cidade de Dresden. Ali entrou, sem saber previamente, em uma divisão ancorada das Waffen-SS. Naqueles meses, segundo lembrou, essa não era mais a tropa de elite no sentido estrito, mas uma espécie de apêndice que contava com quase 900 mil soldados.

Mas não é o fato de Grass ter pertencido às SS que desencadeou a polêmica. No fim das contas, foram poucos os jovens alemães não-judeus que escaparam ao manto do regime hitlerista. O atual papa, Joseph Ratzinger, foi membro das Juventudes Hitleristas e depois da guerra esteve brevemente detido no campo de prisioneiros de Bad Aibling, como Grass. No capítulo de "Descascando a Cebola" que lembra a passagem do narrador por esse campo, ele evoca um tal "Joseph, um jovem bávaro". "Escrevia poemas como eu, mas tinha outros planos para o futuro...", lembra o escritor, sem explicar se se tratava realmente do futuro Bento 16.

As acusações mais duras a Grass - alguns sugeriram inclusive que ele se retire do Nobel - referem-se ao prolongado silêncio. E também a que durante décadas tenha se dedicado a criticar os que não assumiam o passado adequadamente. Em 1984, por exemplo, criticou o então chanceler Helmut Kohl e o presidente dos EUA, Ronald Reagan, por visitarem o cemitério de Bitburg, onde estão enterrados jovens que, como Grass, pertenceram às SS.

A presidente do Conselho Central dos Judeus na Alemanha, Charlotte Knobloch, lançou a suspeita de que a confissão esconda uma operação de marketing para vender mais livros. "Não é verdade", disse na quarta-feira uma porta-voz da pequena editora Steidl, que desde 1993 publica a obra do escritor. Não é a primeira vez que se antecipa a venda de um livro de Grass devido ao ruído na mídia que gera e à demanda dos leitores. Desde quarta-feira há 150 mil exemplares de "Descascando a Cebola" nas livrarias da Alemanha. "Para ele o importante é que os leitores o leiam diretamente", afirmou a porta-voz.

Trechos

UM ESPANTO 60 ANOS DEPOIS: "Me espantou então o que no escritório de recrutamento me pareceu imenso, da mesma maneira que agora, passados mais de 60 anos, o duplo S me pareça horrível?"

A SEDUÇÃO DAS ARMAS: "A dupla runa (SS) no uniforme não me pareceu chocante. Para o jovem que via a si mesmo como um homem, o importante foram as armas".

DO ORGULHO À VERGONHA: "O que com o estúpido orgulho de meus anos jovens aceitei, depois da guerra quis calar devido a uma vergonha surgida posteriormente".

PESO PARA TODA A VIDA: "Embora eu não tenha tido uma culpa ativa, ficou um resto não exposto até hoje, que com freqüência se chamou de co-responsabilidade. É claro que será preciso viver com isso durante os anos que restam". "Calei-me por vergonha", confessou o escritor alemão Günter Grass. A editora do prêmio Nobel nega que sua confissão tenha a ver com a promoção do novo livro de memórias Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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