Uma superpílula contra infartos

Josep Corbella
em Barcelona

É um problema com que se deparam milhões de pessoas que superaram um
infarto: devem tomar todos os dias sua dose de aspirina, um medicamento contra o colesterol, outro contra hipertensão, às vezes algum para controlar a coagulação. No final do dia, não é raro que sejam quatro ou cinco pílulas, algumas antes de comer, outras depois, outras à noite... enfim, uma confusão. Resultado: se nos primeiros dias após o infarto todos os pacientes cumprem o tratamento como se deve, depois de seis meses só a metade o segue.

Além disso, a maioria desses medicamentos é cara demais para os pacientes dos países pobres, que é onde as doenças cardiovasculares estão aumentando mais atualmente. E em países mais abastados como a Espanha, onde os pacientes têm acesso aos tratamentos, seu custo elevado hipoteca os orçamentos da saúde pública.

Para resolver esses dois problemas, a falta de seguimento dos tratamentos e seu custo elevado, o Centro Nacional de Pesquisas Cardiovasculares (CNIC) de Madri promove o desenvolvimento de uma pílula com três remédios para a prevenção cardiovascular que será tomada uma vez só por dia.

"A polipílula conterá aspirina, uma estatina e um inibidor da ECA (Enzima Conversora da Angiotensina), que são três medicamentos adequados para a grande maioria dos pacientes com antecedentes de doença cardiovascular", informa Valentí Fuster, principal pesquisador do projeto e presidente do comitê científico assessor do CNIC. "Pensamos que, para abordar um problema complexo como a prevenção depois de um infarto, devemos propor uma solução simples. A experiência demonstra que para muitos pacientes as soluções complicadas não funcionam."

Em princípio o produto será receitado para as pessoas que tenham sofrido um infarto ou tenham angina de peito. A maioria desses pacientes já toma atualmente os três remédios da polipílula em separado, e além disso um betabloqueador para controlar a pressão arterial. Como a dose adequada do betabloqueador varia conforme a pessoa, "acreditamos que é melhor tomar a polipílula e o betabloqueador separadamente", informa Ginés Sanz, chefe do departamento de pesquisa translacional do CNIC.

Em longo prazo, o CNIC prevê analisar se a polipílula é adequada também para pessoas que não tenham sofrido angina de peito nem infarto, mas que têm fatores de risco de sofrer uma doença coronariana. Nesse sentido, um estudo da Universidade de Londres estimou em 2003 que se todas as pessoas com mais de 55 anos tomassem a polipílula a mortalidade cardiovascular seria reduzida em mais de 80%.

Também se prevê avaliar em uma reunião de especialistas que o CNIC convocou para Madri em 12 de setembro se a polipílula pode ser útil para evitar acidentes vasculares cerebrais como embolias e derrames, além das doenças coronarianas. "Certamente seria necessário uma polipílula um pouco diferente, que incluísse um diurético contra a hipertensão", adianta Sanz.

A idéia de criar uma polipílula para prevenir doenças cardiovasculares foi lançada em 2003 por Nicholas Wald e Malcolm Law, da Universidade de Londres.

No ano seguinte, a Organização Mundial da Saúde (OMS) elaborou um documento intitulado "Medicinas prioritárias para a Europa e para o mundo", no qual defendia a necessidade de desenvolver esse medicamento.

Mas a polipílula não foi desenvolvida. As multinacionais farmacêuticas, que haviam criado as estatinas contra o excesso de colesterol e os inibidores de ECA contra a hipertensão, não demonstraram interesse em desenvolver um produto que pudesse prejudicar seu próprio mercado.

Diante do desinteresse das multinacionais, o CNIC iniciou conversações com companhias farmacêuticas menores que desejem desenvolver a polipílula a partir de genéricos - isto é, medicamentos cuja patente tenha expirado.

Embora as negociações não estejam encerradas, Fuster adiantou que "será muito provavelmente uma companhia espanhola".

O projeto tem o apoio da Federação Mundial do Coração - que reúne 186 sociedades de cardiologia de mais de cem países -, assim como a Fundação Rockefeller e a Iniciativa Global Clinton. Na Espanha, a ministra da Saúde, Elena Salgado, "mostrou-se favorável ao projeto porque pode ter um impacto positivo na saúde dos cidadãos", explica Fuster.

Segundo o calendário de trabalho atual, nos próximos meses o CNIC assinará um convênio com uma companhia farmacêutica para desenvolver a polipílula. Em 2007 serão feitos estudos clínicos para unir os três medicamentos num mesmo comprimido. Em 2008 serão feitas as pesquisas para comprovar que a eficácia dos três produtos juntos não é menor que separadamente, e que os efeitos secundários não são maiores. E se tudo sair como previsto a Agência Européia do Medicamento poderia aprovar a polipílula em 2009.

Apesar de o CNIC estar sediado em Madri, parte do projeto será desenvolvida no hospital Clínic de Barcelona, onde terá sede o departamento de pesquisa translacional do CNIC, dirigido por Ginés Sanz.

O preço final da polipílula, segundo as previsões do CNIC, poderá ficar abaixo de 1 euro por dia na Europa. Essa cifra representaria a divisão aproximadamente por quatro do custo do tratamento com os medicamentos incluídos na polipílula. Os pesquisadores esperam que o preço na Ásia possa se situar em 12 euros por mês - a metade da Europa - e na África em 6 euros por mês.

"Não vai ser fácil", adverte Fuster. "Mas creio que o projeto irá em frente porque oferece uma solução simples para um problema que não só afeta a saúde mas tem um grande impacto econômico", salienta.

Contudo, o pesquisador adverte que "a polipílula não será uma solução definitiva contra as doenças cardiovasculares. Será um passo adiante, mas uma pílula não faz que os cidadãos cuidem mais de sua saúde. E uma prevenção eficaz em longo prazo só pode se basear em evitar os fatores de risco do infarto, seguir uma dieta adequada, praticar atividade física e não fumar". Combinar três medicamentos em um comprimido simplifica e barateia o tratamento. Espanha promove desenvolvimento de produto que OMS vê como prioritário para reduzir risco cardiovascular. Apesar do desinteresse dos grandes laboratórios, poderá estar no mercado em 2009 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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