A era das orquestras renasce no Rio

Bernardo Gutiérrez
no Rio de janeiro

E os últimos serão os primeiros. E o futuro voltará ao passado com inércia/eco de bumerangue. E os netos de Carmen Miranda dançarão desenfreadamente a trilha sonora com que seus avós namoravam. Em um país onde há anos a música de raiz enfrenta com insolência a vanguarda, o rock ou a eletrônica, agora a moda é o retrô. O passado, os velhos boleros, samba à moda antiga, sal?es de baile de ar antiquado. O passado, o "déjà vu".

Orquestras, passem e vejam, muitas orquestras, em plural e plurais, com fundo de sopros (sax, trompetes, trombones), de cordas (violões, violinos), de acordeão, de percussão, de maracas. Orquestras como a Imperial, a Republicana ou a Tabajara, que sacodem com seu velho estilo as madrugadas pecadoras do Rio de Janeiro e do resto do Brasil. E bandas com repertório de orquestra, como a Anjos da Lua, o Sexteto de Santa ou Garrafieira, que superam em popularidade os roqueiros ou os "indies". Passem e vejam, com vocês o som de orquestra e a dança de casais, na idade do pop.

Começou como brincadeira

A era das orquestras começou há cerca de três anos como brincadeira. Um produtor de música independente (Kassin) funda um novo grupo musical junto com um baterista experimental (Domenico), algum cantor pop/rock (Rodrigo Amarante, Moreno Veloso) e uma verdadeira equipe de luxo do cenário underground carioca. Como se chama a banda? Orquestra Imperial.

E qual é seu som? Nada a ver com eletrônica, rock ou sons do momento.
Soa a samba, a boleros, a twist, a sucessos "dance" dos anos 70, às orquestras de gafieira que percorriam as cidades do Brasil nos anos 50.

Sim, a Orquestra Imperial tem a irreverência do rock. Ninguém toca com partituras. Som informal em grau superlativo. E divers?o como máxima suprema. Por isso, em seus shows ecléticos tanto tocam um samba tradicional quanto a cubaníssima "Quizás, Quizás, Quizás" ou um "Come as You Are" (Nirvana) tropicalizado. A idéia é o formato, o som coral, o espírito de orquestra.

A Imperial

Um conglomerado de 25 artistas começou a tocar em pequenas salas do Rio de Janeiro como o Ballroom ou o Teatro Rival. Rapidamente ganhou um lugar e nome em espaços maiores como o Canecão. E já levou seu atrevimento retro-futurista para encontros sonoros como o festival Tropicália de Londres, o festival Sudoeste de Portugal ou o World Music Festival de Chicago. Durante todas as terças-feiras do mês de janeiro, a Orquestra Imperial lotou o Circo Voador do Rio com sua proposta de gafieira "rebirth".

E com todos os seus membros fantasiados.

E como inércia, reação ou sátira, não demorou para nascer na Cidade Maravilhosa a Orquestra Republicana. É que o êxito da Imperial conseguiu principalmente consolidar um formato. Assim como a Imperial, a Republicana é formada por um "dream team" de músicos. João Hermeto (bateria) toca ao lado de Elza Soares. Marcelo Bernardes (sax) escolta o grande Chico Buarque. Mas isso é o de menos: os 12 integrantes da orquestra, renomados e virtuosos, tocam todos os sábados no Club dos Democráticos, em pleno bairro boêmio da Lapa, como se fosse para os amigos.

Com espontaneidade, descontraídos, brilhantes, íntimos. Som com aroma antigo, com suingue fermentado, com uma segurança cozida ao longo de gerações sonoras. O repertório, clássico, sucessos sem data de vencimento: Pixinguinha, Jacob do Bandolim, Chico Buarque, Noel Rosa, Cartola, Dorival Caymmi, Paulinho da Viola, Adoniran Barbosa. E o público, um agitadíssimo furacão de adolescentes e universitários fomentando o formato de dança de casais.

O Club dos Democráticos

Um local abandonado que dormia há anos na letargia da decadência renasceu graças, entre outras coisas, à festa Republicana de cada sábado.

Transformou-se num verdadeiro templo da era das orquestras. E não é por acaso o concubinato democrático-republicano. No Club dos Democráticos, fundado em 1877, reuniam-se no século 19 os inimigos do imperador dom Pedro 2º. Em seu interior travaram-se até campanhas a favor da abolição da escravidão. E talvez por isso, por esse aroma de glamour histórico, o samba e o chorinho - antigos, atemporais - soam com redobrada vitalidade pré-púbere.

O Club dos Democráticos é um laboratório sonoro-dançante. E é a sede indiscutível de outras novíssimas orquestras como o Sexteto de Santa ou a Anjos da Lua. E por isso não há nada mais chique, mais charmoso (como se diz no Brasil por influência francesa) que entrar nos Democráticos numa quarta-feira perto de meia-noite. Nada como se deixar levar pelo balanço do Sexteto de Santa, por seu suingue tórrido, contagioso, por seu forró tradicional do nordeste, pelo violino mágico de Nicolás Krassik, pela voz atmosférica de Edu Kriguier, pelas pernas que se entrecruzam com sensualidade no solo, pelas sombras que bebem caipirinhas na pista de dança.

E nada como se deixar levar numa sexta-feira pela Lapa, deixar-se seduzir pela orquestra Anjos da Lua, por seu samba com sabor e corpo, pelos grupos de jovens que abarrotam o recinto, multidão ávida e romântica de sons ancestrais.

Orquestra funk

Na Lapa, epicentro notívago do Rio de Janeiro, o passado/orquestra se consolida. Orquestras tradicionais como a Tabajara (com 63 anos de
existência) lotam lugares emblemáticos como a Estudantina. A banda Garrafieira seduz habitualmente o público do requintado Rio Scenarium.

E bandas novas e novíssimas como a Casuarina (da qual participa o filho do roqueiro Lenine) apostam nas raízes, no que foi, no som de orquestra, no que continuará sendo. A Orquestra Céu na Terra, que nasceu do bloco carnavalesco homônimo, revive com sucesso as marchinhas típicas dos anos 40. Salvando os estilos e as distâncias, o grupo paulista Funk Como Le Gusta poderia ser um ponto final (ou contraponto) para qualquer dissertação, cabala ou reportagem de título "A era das orquestras".

Com seu soul e funk de corte claramente anos 70, prestigiosa e muito popular em São Paulo, a Funk Como Le Gusta deu um espetáculo há algumas semanas em um lotadíssimo Estrela da Lapa, outro epicentro do novo som do Rio. E confirmou, sim, que o passado está ativo, que se conjuga no plural (uma dúzia de componentes), que o passado/presente se dança, que soa novo, doce, deliciosamente futurável. E que está aqui para ficar. Luzes, câmeras... orquestra! O passado volta rejuvenescido. O formato musical que reinou no Brasil antes da bossa nova conquista a cena carioca. Em um país de sons vanguardistas, voltam os velhos boleros e sambas nos salões de baile. As novas orquestras tocam com a irreverência do rock, sem partituras, e buscam a diversão Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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