O enigma "Duce"

María-Paz López
em Roma

Um neto de Benito Mussolini, o ditador fascista que conduziu os destinos da Itália até levá-la à Segunda Guerra Mundial, causou polêmica entre a família e historiadores ao pedir a exumação do cadáver de seu avô, para verificar, mais de 60 anos depois, quem o matou.

Guido Mussolini, 69 anos, filho de Vittorio Mussolini - um dos cinco filhos que o "Duce" teve com sua mulher, Rachele -, apresentou uma denúncia ao tribunal de Como, no norte da Itália, para que se investigue as circunstâncias do fuzilamento de Benito Mussolini por membros da resistência em 28 de abril de 1945 nessa região. Com ele foi fuzilada sua amante, Claretta Petacci, que se negou a abandoná-lo, e pouco depois seus cadáveres foram expostos ao escárnio público na praça de Loreto em Milão.

Seu neto Guido apresentou o pedido em Como porque o fuzilamento ocorreu nessa província, mas também pensa em recorrer aos tribunais de Roma e Milão.

"Não quero nada, nem vingança nem dinheiro", declarou na segunda-feira Guido Mussolini, casado e pai de quatro filhos, funcionário de uma fábrica de queijos perto de Roma. "Só quero que alguém me diga o nome e o sobrenome de quem o matou de modo tão ignóbil, quando deveria tê-lo entregado aos americanos."

A eurodeputada Alessandra Mussolini, também neta do Duce, mostrou-se indignada com seu primo e se opôs à exumação. Argumenta que se deve investigar através de documentos - cita os arquivos secretos do Vaticano - e de testemunhas, talvez ignoradas há 61 anos, mas "não sobre um corpo que já foi tão martirizado e que foi entregue a minha avó Rachele, os míseros despojos que restaram, em uma pequena caixa de madeira", afirma a neta do ditador.

Na verdade existem várias versões sobre a execução de Mussolini, que teria sido preso por membros da 52ª Brigada Garibaldi em 26 de abril de 1945 quando fugia, vestido com uniforme alemão, depois de ter sido o rosto da República de Salò, regime fantoche organizado pelos nazistas no norte da Itália após a queda do regime fascista e do armistício de 1943. Os advogados de Guido Mussolini, Luciano Randazzo e Carlo Morganti, consideram falso que a condenação à morte de Mussolini tenha partido do Comitê de Libertação Nacional, formado depois do armistício, porque "os membros da resistência não tinham mandato institucional para emitir semelhante veredicto".

Pouco depois do fuzilamento, um resistente chamado Walter Audisio reivindicou a autoria das mortes, mas essa versão não é considerada definitiva. Vários historiadores citados pelos jornais "La Repubblica" e "Corriere della Sera" admitem que falta elucidar se houve envolvimento dos serviços secretos britânicos na morte do Duce, que poderiam temer que transcendesse uma suposta correspondência comprometedora entre Mussolini e Winston Churchill, hipótese formulada pelo renomado historiador Renzo De Felice.

Contudo, os especialistas não vêem utilidade em exumar o cadáver: "No máximo saberíamos algo sobre o número de projéteis", afirma Giovanni Sabbatucci, da Universidade de Roma-La Sapienza. Por enquanto, Mussolini continua repousando no cemitério de Predappio, sua cidade natal, onde foi enterrado em 1957. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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