Obrigados a votar, brasileiros vivem com sarcasmo a jornada eleitoral

Bernardo Gutiérrez
no Rio de Janeiro

"Eu quero roubar como os políticos. Vou me candidatar a prefeito em minha cidade e depois roubar tudo o que puder. Um dia serei presidente." Natal da Silva - nordestino, 35 anos, taxista zomba dos políticos. "Estou cansado. Vou votar em Lula porque os outros são piores", afirma enquanto dirige pelas ruas desertas do Rio de Janeiro. O dia de eleições começa sonolento.

Colégios eleitorais vazios, gente fazendo caminhada, idosos passeando cachorros. E um sentimento generalizado de desmotivação: 125.913.479 brasileiros eram obrigados a votar ontem em 380.945 infalíveis urnas eletrônicas. Uma única tecla para o voto em branco. E uma multa (um valor simbólico e penalidades administrativas) para quem se abstivesse.

Bairro de Copacabana, 10 da manhã, Colégio Sagrado Coração de Maria. Várias pessoas distribuem ilegalmente "santinhos". Victor Hugo (nome fictício), 25 anos, agente de turismo, distribui imagens do candidato centrista Geraldo Alckmin. Recebe R$ 50 por dia. Seus gritos parecem espontâneos: "Quem votar em Lula ficará paralítico!" Na verdade, Victor Hugo admite que não votará em Alckmin: "Voto nulo. São todos uns sem-vergonhas".

No interior do colégio, Maria Raimunda - negra, dona-de-casa, protestante - afirma que vai votar "em qualquer um menos em Lula, que já roubou tudo". E antes da gargalhada final Maria Raimunda pronuncia uma palavra: "cuecão".

Refere-se ao caso do deputado José Nobre Guimarães, do Partido dos Trabalhadores (PT), detido em 2005 tentando fugir do país com as cuecas cheias de dólares de procedência duvidosa. O governo Lula foi envolvido numa corrupção superlativa: escândalos como o "cuecão" e o "mensalão" (a mensalidade que o PT pagava aos deputados aliados para garantir apoios).

A corrupção custou ao Brasil 3,94 bilhões de euros nos últimos quatro anos, segundo um estudo do jornal "O Globo". E inevitavelmente os brasileiros acreditam cada dia menos em seus políticos. Não é por acaso que a capa de "O Globo" no domingo trouxe um título contundente para a reportagem central: "Por que votar? Votar ou não votar, that's the question". "Os números de Lula são bons. Mas votarei contra para castigá-lo", afirma Marília (nome fictício), uma mulher de classe média de Copacabana.

As nuvens não espantam os freqüentadores da praia. Os não-votantes. Os eleitores não convencidos. "Primeiro jogo vôlei, depois voto. Contra Lula, é claro", afirma Aluísio Gomez, um aposentado de 70 anos. A alguns metros, um jovem morador de uma favela da periferia diz orgulhosamente que se chama Negão: "Não voto; para quê? Prefiro pagar a multa de R$ 4".

A dois quarteirões da praia, em um bar abarrotado na Rua Barata Ribeiro, a conversa gira em torno das eleições. Orlando Amaral, um analista de sistemas de 39 anos que se declara apolítico, conta uma piada: "Quando Deus estava terminando o mundo, seu ajudante lhe pergunta: Por que não colocou no Brasil nem terremotos nem furacões nem catástrofes naturais? Deus responde: Meu filho, espere para ver que tipo de político vou pôr nesse país". Risos de todos.

Orlando ri a gargalhadas com um grupo de amigos. Difama os políticos e lembra casos de compra de votos. O de um deputado que conseguiu votos em troca de Viagra (José de Moraes de Souza, candidato no Estado do Piauí). Ou o de políticos que conseguem votos oferecendo dentaduras, remédios ou latas de gasolina. Ou o do próprio Anthony Garotinho, chefe na sombra do estado do Rio, o guru do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB, de direita), surpreendido em 2004 comprando votos na cidade de Campos. "Está livre. Absolvido", afirma Orlando.

Votar ou não votar, essa é a questão que muitos brasileiros enfrentaram ontem. Lula ou Alckmin? Em um país onde um macaco do zoológico do Rio de Janeiro (Macaco Tião) conseguiu mais de 400 mil votos nas eleições municipais, a resposta não é fácil. Orlando Amaral pensa. Enche seu copo de cerveja e grita para que o bar inteiro ouça: "Eu vou votar em Bin Laden, que rouba melhor que ninguém. Uma rodada para todos, amigos, o Bin Laden paga, o Bin Laden paga!" "Bebida para todos, o Bin Laden paga!" Corrupção custou ao Brasil 3,94 bilhões de euros nos últimos quatro anos, segundo "O Globo" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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