A revolução do comércio varejista na Índia

Anto Joseph
em Bombaim

Em Thane, agradável bairro da periferia de Bombaim, milhares de consumidores aproveitam o dia no Grande Bazar. As reformas realizadas nessa nova grande superfície de comércio varejista - que recebe o visitante com a oferta "Leve um brinde em cada compra" - transformaram a jornada em um pequeno caos: trata-se de uma galeria comercial de grandes lojas, cheia de áreas de lazer e entretenimento, restaurantes e estacionamento que enfrentou grandes problemas para atender à demanda.

Cenas como esta são freqüentes nas centenas de novos shoppings que proliferam até o último rincão das pequenas e grandes regiões metropolitanas da Índia, enquanto a pequenas lojas enfrentam a dura perspectiva de fechar.

O Grande Bazar, propriedade da Pantaloon Retail (Futures Group), vive uma fase de ágil expansão. Seu proprietário, Kishore Biyani, protótipo de comerciante varejista indiano, projeta investimento ]são de 40 bilhões de rupias (685 milhões de euros) para aumentar sua área comercial para 2,7 milhões de m2 até o final de 2010, partindo do 370 mil m2 atuais. Biyani vai adiante de seus concorrentes, mas grandes empresas locais como Ambanis, Tatas, Mittals, Wadias, Rahejas e Piramals já prepararam planos de envergadura para entrar no varejo.

Alguns começaram a surgir com centros menores, enquanto gigantes internacionais como Wal-Mart, Tesco e Carrefour aguardam que o governo abra o setor, até agora vedado à participação de grupos estrangeiros.

Tudo isso é só a ponta do iceberg da enorme operação de investimento prestes a explodir. Segundo Arvid Singhal, presidente da consultoria Technopak, o setor varejista pode alcançar em 2011 vendas no valor de 47,3 a 59 bilhões de euros, em comparação com os 6,3 milhões atuais. Ele calcula que as vendas no varejo em conjunto subirão a 339 bilhões (236 bilhões hoje). Singhal afirma também que o setor de comércio regularizado pode atingir em 2011 de 12% a 17% do bolo total. Hoje é de apenas 3%.

Dois estudos recentes independentes feitos pela McKinsey e Fitch afirmam que o setor crescerá de forma exponencial nos próximos anos. Fatores como a liberalização do mercado, uma classe média ascendente e um consumo mais firme constituem o terreno de uma transformação próxima que atrairá diversos empresários indianos e estrangeiros. Os analistas traçam um cenário caracterizado pela presença de cerca de 40 grandes firmas comerciais, das quais as seis ou sete primeiras representariam um volume de investimento de até 11 bilhões de euros, dois terços do investimento total do setor.

O maior investidor indiano, Mukesh Ambani, da Reliance Industries Ltd (RIL), tem planos ambiciosos para entrar no setor do comércio varejista. Por enquanto ele selecionou 18 cidades para se instalar, com um investimento de 300 a 500 milhões de rupias (5,5 a 8,6 milhões de euros) em cada uma das grandes superfícies, inspiradas no estilo das áreas comerciais do Oriente Médio. Fontes do grupo afirmam que provavelmente chegará a acordos com a empresa Wal-Mart, o colosso americano da grande distribuição.

A Wal-Mart já anunciou a intenção de penetrar no mercado indiano em grande estilo. Atualmente só está presente em Bangalore, através de uma filial que operou como ligação até o ano passado, abastecendo-o de mercadorias indianas no valor de 787 milhões de euros. Esse gigante projeta abrir escritórios em Bombaim e Nova Déli. A britânica Tesco, por sua vez, avalia a possibilidade de também penetrar nesse mercado gigantesco.

Enquanto as grandes multinacionais do varejo aguardam impacientes a luz verde do governo indiano, diversas marcas inauguraram ou se preparam para abrir seus próprios estabelecimentos, como é o caso notadamente de McDonald, Pizza Hut, Dominos, Levis, Lee, Nike, Adidas, Benetton, Swarovski e Sony. A maioria entrou no mercado de maneira indireta, através de licenças e franquias. O governo autorizou recentemente um investimento direto estrangeiro (IDE) de até 51% para os estabelecimentos de marca única. Em outras palavras, enquanto a Nike, Nokia ou Levis já podem abrir suas lojas, empresas multimarca como Wal-Mart ou Tesco ainda não podem fazê-lo.

A decisão amplamente esperada de abrir o setor varejista ao IDE continua em debate, enquanto se discute se deve ser permitido na faixa de 26% ou 49%.

Segundo um alto funcionário do governo, "inicialmente a idéia foi começar com 26% para ir abrindo gradualmente o setor, mas como a China passou de 49% para 100% em 2005, o Ministério do Comércio e o próprio primeiro-ministro indiano parecem se inclinar para 49% de entrada, apesar da oposição demonstrada pelos partidos de esquerda que apóiam o governo no Congresso". A própria fonte expressa, porém, seu temor de que o investimento direto estrangeiro prejudique o comércio indiano em sua fisionomia atual, com o fechamento de estabelecimentos, o desaparecimento de postos de trabalho e um grave problema social. Colossos mundiais como Wal-Mart, Tesco e Carrefour esperam a abertura do setor. Uma vasta classe média ascendente e um consumo maior aguardam a grande transformação Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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