Emigração mexicana muda de natureza

Joaquim Ibarz
Na Cidade do México

No coração da zona industrial de Las Armas, na região metropolitana da Cidade do México, cerca de 30 trabalhadores descansam diante de uma empacotadora de alimentos. Eles se queixam de que apesar de o emprego ser fixo o salário é irrisório. Todos os dias falam em emigrar para os EUA como "sem-papéis", porque "o salário não é suficiente". "Ganhamos dois salários mínimos por dia, mais ou menos 95 pesos [7 euros]. O que se pode comprar com isso? Um quilo de carne, ovos ou um sabão em um santo dia de trabalho", queixou-se Ramón Ochoa, um dos trabalhadores desiludidos.

O baixo salário faz muitos mexicanos pensarem em atravessar a fronteira. O velho mito de que a maioria dos mexicanos que emigram para o país vizinho provém de zonas rurais é coisa do passado. Mais de 55% dos migrantes para os EUA são de áreas urbanas. Se até a década de 1970 os que atravessavam a fronteira eram agricultores de aldeias e fazendas, hoje a maioria procede de cidades, com um grau de escolaridade cada vez mais elevado.

Todo ano, no mínimo 400 mil mexicanos entram ilegalmente nos EUA em busca de trabalho. Já são mais de 16 milhões do outro lado da fronteira, além de outros 12 milhões que nasceram em território americano. Os US$ 21 bilhões anuais que os emigrantes enviam para suas famílias já são a principal fonte de renda do México, mais ainda que o petróleo a US$ 60 o barril. "Por que ficar aqui, se no México pagam tão mal? Em todas as empresas acontece a mesma coisa: você ganha de dois a três salários mínimos, não mais", diz Olga Vega, que lamenta que o salário mal dá para alimentar seus três filhos. O salário mínimo no México é de 48 pesos por dia, ou 3,50 euros.

Julio Ulloa, por sua vez, está esperando que sua mulher dê à luz "e em seguida parto para San Francisco, onde está meu irmão", acrescenta. Nenhum desses 30 trabalhadores cruzou a fronteira, mas muitos dizem ter um parente ou amigo nos EUA disposto a pagar a "passagem do coiote" (traficante de pessoas sem documentos) e dar alojamento até que consigam um emprego.

É cada vez mais notório que a emigração para os EUA se origina em centros urbanos como a Cidade do México e sua região metropolitana, Guadalajara, Monterrey, Morelia, Oaxaca ou León. Além de absorver os que chegam das zonas rurais, as cidades servem de trânsito e plataforma para seguir ao norte.

O Conselho Nacional da População (Conapo) confirma que a emigração para os EUA deixou de ser majoritariamente rural para se transformar paulatinamente em urbana, em boa parte procedente de zonas industrializadas. Um novo tipo de emigrante mexicano busca trabalhos melhor remunerados nos EUA: pessoas com estudos, originárias de uma classe média urbana relativamente acomodada, que contrasta com o estereótipo do agricultor pobre.

Muitos sem-papéis não são agricultores nem operários, mas profissionais com diploma universitário sem trabalho em seu país. Calcula-se que cerca de 700 mil mexicanos estabelecidos nos EUA passaram pela universidade. "Antes só havia gente pobre e agricultores sem estudo", afirma Efraín Jiménez, assessor de imigrantes em Los Angeles. "Agora vemos jovens profissionais e os que depois de anos de trabalho não conseguiram reunir muito capital e buscam outras opções."

Difundiu-se a idéia de que se houvesse postos de trabalho no México se deteria a emigração para os EUA. Falso. O economista Enrique Quintana indica que não é simplesmente a falta de emprego que motiva a migração.

Duas razões adicionais são chaves: as diferenças salariais e os fatores familiares. Nos últimos 12 meses foram criados no México 720 mil postos de trabalho formais e 580 mil informais. No total são 1,3 milhão de pessoas a mais que têm emprego. A população em idade e disposição de trabalhar cresceu em quase 1,2 milhão. Mas não há indícios de que no último ano a saída de trabalhadores para os EUA tenha parado.

Vejamos as diferenças salariais. Segundo dados do Pew Hispanic Center, o salário semanal médio do emigrante hispânico é de US$ 375, o que representa US$ 1.607 por mês. Traduzido na moeda nacional, são 17.677 pesos. No México a renda média no setor formal é de 200 pesos diários ou 6 mil mensais. A diferença salarial é notória. Por isso muitos pensam que vale a pena o perigo e o esforço de sair do país.

Outro mito é que o mexicano se torna mais produtivo ao cruzar a fronteira, o que permite ganhar mais. Na realidade, ele se insere em um sistema econômico mais eficiente devido aos investimentos em tecnologia, infra-estruturas, capital humano, o que gera maior valor que no México.

Hoje, além dos fatores econômicos, muitos se sentem tentados a mudar-se para os EUA para se reunir a amigos e parentes. A formação de redes familiares e sociais funciona como um poderoso ímã. É difícil encontrar uma família mexicana, rica ou pobre, que não tenha parentes ou amigos vivendo nos EUA. Até o presidente eleito, Felipe Calderón, comentou que tem um primo e um cunhado no grande vizinho do norte.

Fermín Carreño, diretor da faculdade de planejamento urbano e rural da Universidade Autônoma do México, salienta que a emigração urbana aumenta devido à redução de oportunidades de trabalho. "O salário é tão baixo que muitos trabalhadores são empurrados para fora. A alta industrialização contrasta com a escassa renda dos trabalhadores, o que leva ao desespero; eles decidem partir ao saber que lá [nos EUA] ganharão muito mais", diz o catedrático. Novos expatriados vêm de zonas urbanas, têm informação e buscam melhores salários Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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