Salvador Dalí fala de novo

Litzer Moix

"Acordo às 9, trabalho na cama até as 11. Como. Vou tomar um banho de mar. Depois de uma sesta de 15 minutos, começo a trabalhar. Logo chegam as modelos que posam nuas para mim. Não toco, só olho e depois desenho um pouco. Às 6 faço um pipi e às 8 chegam meus pederastas, porque Dalí gosta dos andróginos. Não gosta do sexo, um homem, uma mulher; gosta de confusão."

São palavras do divino Salvador Dalí - de quem mais? -, contidas em uma das muitas entrevistas que deu durante sua vida. Foram centenas ou mesmo milhares as conversas do pintor com a imprensa escrita, rádios e televisões.

Em todas ele esbanjou engenhosidade surrealista. E nas que concedeu à mídia audiovisual enfeitou suas teses com um vestuário excêntrico, com uma dicção distorcida muito peculiar e uma encenação da qual costumavam participar senhoritas elegantes, hippies andrajosos, parasitas variados e felinos de companhia. Não é de estranhar que essas performances, e especialmente os discursos do artista, criassem certo vício entre cidadãos de sensibilidade particular; nem que estes experimentassem, depois da morte do pintor em 1989, um sentimento de perda: com ele desaparecia a possibilidade de novos transbordamentos do verbo daliniano diante de microfones e câmeras.

Pois agora os amantes do Dalí entrevistado ficarão felizes. Em novembro será publicado o sétimo volume das "Obras Completas" do criador espanhol, exatamente o dedicado a suas entrevistas: cerca de 1.500 páginas, com 150 conversas selecionadas dentre as 400 conservadas no Centre d'Estudis Dalinians em Figueres, leste da Espanha.

Com este volume quase se conclui a publicação das "Obras Completas"
empreendida pela editora Destino em 2004, coincidindo com o centenário do pintor. Ficará pendente apenas - talvez por muito tempo - o trabalhoso volume dedicado à correspondência daliniana.

"Dalí muitas vezes concebia as entrevistas", afirma Francisco Calvo Serraller, que redigiu o extenso prólogo deste volume, "como uma expressão do gênero autobiográfico. A lenda afirma que o pintor era um personagem caprichoso, cambiante, incoerente. Mas, e isso se depreende desta revisão de suas entrevistas, era exatamente o contrário. Desde que começou a concedê-las, na segunda metade dos anos 20 do século passado, até seus últimos dias, nos anos 80, manteve sempre sua rebeldia e sua loucura surrealista, assim como opiniões semelhantes sobre arte, dinheiro, ciência, sexo ou publicidade."

Rebeldia - Comecemos pela rebeldia. São conhecidas as declarações pró-soviéticas do Dalí adolescente. E suas escandalosas idéias franquistas da maturidade. "Quando as pessoas têm liberdade, tudo vai mal. Só funciona a inqui-si-ção", afirmou Dalí a B. Lynn Barber em uma entrevista em 1969. É difícil imaginar uma formulação mais retrógrada. Mas, no entender de Calvo Serraller, esta e outras diatribes dalinianas refletem apenas sua propensão a "entrar sempre em colisão com os valores estabelecidos, sejam tradicionais ou progressistas. Seu pai era um livre pensador, de modo que ele se transformou em fanático do bolchevismo. Mais tarde a intelectualidade era de esquerda e ele sintonizou com causas conservadoras. Mas seu conceito da vida e da moral não iam por aí".

Loucura - "O que parece loucura em Dalí", acrescenta Calvo Serraller, "não é senão um comportamento surrealista, que tende a minar o conceito de razão instrumental tão caro à cultura ocidental. Mas Dalí não estava louco. Ele se cansou de repetir: 'A única diferença entre mim e um louco é que eu não estou louco'."

Arte - "Minha obra, minha arte, minha pintura, é um desastre completo junto à de Praxíteles, o grande mestre da arte grega, e a dos outros mestres do Renascimento como Velázquez, Rafael, Vermeer. Mas, em comparação com a terrível decadência que a arte atravessa hoje em dia, sou o único gênio vivo", afirmou Dalí a seu entrevistador Selden Rodman em 1959.

Dinheiro - "Para mim não há nada mais espiritual que o dinheiro. E a única maneira de espiritualizar coisas materiais é tirando-lhes o brilho (...) Os alquimistas transformavam os materiais mais feios em ouro e pedras preciosas, quer dizer, em valores espirituais (...) Sou terrivelmente avarento. Quanto mais dinheiro tiver, melhor me sinto." (De uma entrevista a Melina Mercouri, em 1965.

Ciência - "Não sei de física nuclear nem de biologia, não tenho mais que algumas ligeiríssimas noções, por isso posso me permitir simplificações e intuições das quais um especialista diria: é uma completa loucura. Posso realizar sínteses delirantes que às vezes não funcionam, mas que são sempre um jogo para mim. Os cientistas, por outro lado, são pessoas sérias, e as pessoas sérias muitas vezes são uns asnos." (De uma entrevista a Jean-François Fogel e Jean-Louis Hue, em 1976.)

Sexo - "Agora a monarquia chegará à Espanha e não haverá mais sexo nem filmes, só ficará a religião. As pessoas já não estão interessadas no LSD nem na maconha, e agora todos pensam em Deus, não no velho com barba, vestido de branco, mas em uma nova união entre ciência e religião. É o que acontecerá, e no ano que vem todo mundo será homossexual." (Entrevista a B.Lynn Barber, 1969.)

Publicidade - "Me encanta a publicidade em todas as suas formas. Sou um exibicionista. Gosto que todos falem de Dalí, mesmo que seja favoravelmente (...) Gosto quando todo mundo está ocupado com Dalí. Por exemplo, outro dia (...) peguei um táxi e... foto! Me servi de um pedaço de camembert, outra foto! Fotos! Fotos! Fotos! E na manhã seguinte, quando me trouxeram os contatos junto com o café, voltei a desfrutar daqueles momentos inesquecíveis, com mais precisão do que Proust quando escrevia suas memórias..." (A Melina Mercouri, em 1965.)

"Me espanta", acrescenta Calvo Serraller, "não ter-me aborrecido nem por um momento enquanto lia essa extensa seleção de entrevistas. Dalí nunca engana." Talvez porque, como ele mesmo admitiu, "me divirto sem parar, sempre tenho medo de morrer de excesso de satisfação".
"Como os surrealistas", explica Calvo Serraller, "Dalí queria destruir a arte tradicional. Queria fazer de sua vida uma obra de arte. É isso que atestam estas entrevistas."

Ou seja, uma boa notícia para os amantes das entrevistas dalinianas. "Os catalães têm nomes estranhos, mas como o deste jornalista nunca vi..." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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