Igreja Católica no século 21: o limbo avança para o fim

Maria-Paz López
em Roma

O destino dos bebês que morrem sem receber o batismo, que até há pouco tempo a doutrina católica situava no limbo - uma espécie de sala de espera sem pena nem glória, até o juízo final -, mudará para melhor se as conclusões da Comissão Teológica Internacional que se reuniu na semana passada no Vaticano por convocação do papa forem publicadas em um documento assinado pelo mesmo.

Trinta teólogos de vários países, entre eles laicos e mulheres, analisaram essa questão, proposta há dois anos por João Paulo II e retomada por Bento 16, e concluíram que a idéia do limbo "não é essencial nem necessária e pode ser abandonada sem problemas de fé".

O documento que deveria fechar as portas desse âmbito ultraterreno é esperado para o fim de 2007, apesar de o limbo nunca ter sido um dogma de fé e de hoje as crianças mortas sem batismo serem confiadas "à misericórdia de Deus", como dizia o catecismo de 1992 publicado por João Paulo II.

O assunto, que poderia ser contemplado como uma tese teológica de aroma medieval, exige uma solução urgente para os católicos, por motivos bem atuais, segundo declarou o arcebispo americano William J. Levada, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, que presidiu os trabalhos da comissão.

"Está aumentando o número de bebês não-batizados nas sociedades ocidentais marcadas pelo relativismo cultural e o pluralismo religioso", alertou Levada. No caso de falecerem, o destino dessas crianças que os pais decidiram não batizar seria ir para o limbo, enquanto não se definir uma doutrina a respeito. Para lá também iriam os bebês mortos no parto ou logo depois de nascer, mas também os fetos abortados voluntária ou espontaneamente, os embriões e os óvulos fecundados, que a Igreja Católica considera seres humanos com alma.

"O limbo nunca foi uma verdade de fé. Eu deixaria cair esse conceito, que sempre foi só uma hipótese teológica", afirmou em 1984 Joseph Ratzinger, então cardeal prefeito da Doutrina da Fé, no livro-entrevista "Informe sobre a Fé", do jornalista italiano Vittorio Messori. A noção de limbo surgiu de um dilema que preocupava a Igreja Católica ao abordar a salvação: o que acontece com as crianças mortas sem batismo, inocentes sem culpas próprias para ser condenadas ao inferno, mas portadoras do pecado original gerado por Adão e Eva - pecado só liquidável com o batismo -, e que portanto não podem ir para o céu?

Falou-se no assunto durante séculos, depois das dúvidas provocadas por Santo Agostinho, mas a teologia só incluiu a palavra "limbo" no século 12, por obra do teólogo Pietro Lombardo. Junto a esse limbo infantil perfilou-se um limbo dos justos, também chamado "dos pais", ou "seio de Abraão", onde foram situados os homens e mulheres justos que viveram e morreram antes de Jesus Cristo e que, por motivos obviamente diferentes dos dos bebês, também não receberam o batismo.

Ali se encontravam os profetas e patriarcas de Israel e até o sábios da Antigüidade grega e latina, pois a imagem agradou muito aos poetas. No século 13, Dante Alighieri situou nesse limbo, onde morava o poeta Virgílio, um dos episódios de sua descida aos infernos na "Divina Comédia": "Senti no coração uma grande pena, pois que gentes de muito valor vi, que no limbo estavam suspensas".

Durante séculos, o temor dos fiéis de que seus filhos mortos durante o parto ou antes de nascer acabassem no limbo provocou batizados às pressas e até cesarianas em mães mortas para batizar o bebê e poupá-lo desse compasso de espera. "Sabemos que durante muitos séculos se pensava que essas crianças fossem para o limbo, onde gozavam de uma felicidade natural, mas não tinham a visão de Deus", explicou para a Rádio Vaticano o jesuíta Luis Ladaria, secretário-geral da Comissão Teológica Internacional. "Por causa dos recentes desenvolvimentos, não só teológicos mas também do magistério, essa crença está em crise hoje."

Em sua época, a "hipótese teológica" de que falava Joseph Ratzinger conseguiu se introduzir na tradição e adquirir tal solidez de predicamento que chegou a figurar no catecismo de Pio 10º, publicado em 1904 e utilizado durante quase todo o século 20: "As crianças mortas sem batismo vão para o limbo, onde não gozam de Deus mas não sofrem, porque tendo o pecado original e só esse não merecem o céu, mas tampouco o inferno ou o purgatório". A Igreja Católica dos tempos modernos lamenta não enviar essas crianças diretamente para o céu, mas o pecado original e o batismo não são assuntos banais para os teólogos.

No caso dos bebês inocentes, afirmou o bispo Bruno Forte, também membro da comissão, "parece que o poder salvador de Cristo deveria prevalecer sobre o poder do pecado".

A geografia do além

João Paulo II desenhou no final de seu pontificado uma "geografia do além" mais de acordo com a linguagem contemporânea, concebendo-a como vários "estados", e não lugares físicos. A divisão desse espaço reservado às almas dos defuntos havia se consolidado em cinco âmbitos a partir de Santo Tomás de Aquino: céu, inferno, purgatório e limbo - este dividido em limbo dos justos e das crianças. O novo catecismo, assinado por Bento 16 em 2005, menciona só os três primeiros âmbitos, e em certo sentido refere-se sem citá-lo ao limbo dos justos. O limbo das crianças já havia desaparecido do catecismo anterior publicado por João Paulo II em 1992.

CÉU - O catecismo define o céu como um "estado de felicidade suprema e definitiva", ao qual acedem aqueles que morrem na graça de Deus e não precisam de purificação suplementar. A arte de todos os tempos o plasmou em forma aérea e azul, entre nuvens e anjos vestidos de branco, ou em forma de paraíso. A Bíblia o localiza no Jardim do Éden, do qual Adão e Eva foram expulsos por infringir a proibição divina de comer o fruto da árvore da ciência do bem e do mal, e assim manchar a humanidade com o pecado original. Segundo a Igreja Católica, esse pecado só é eliminado pelo batismo.

INFERNO - Do latim "infernus" (que está embaixo), o inferno consiste na "condenação eterna daqueles que morrem no pecado mortal por livre escolha", e a pena principal que provoca é "a separação eterna de Deus" (pena de dano), o único modo pelo qual, segundo a doutrina católica, o ser humano alcança a felicidade a que aspira. Nos Evangelhos, Jesus menciona "o fogo eterno" a que serão castigados esses pecadores, e por isso a iconografia sempre viu o inferno como um lugar de suplício em chamas, atiçadas por Satanás e seus sequazes. De fato, além da pena de dano, também está prevista a pena de sentido, quer dizer, sofrimento físico.

PURGATÓRIO - Povoam o purgatório as almas daqueles que morrem "na amizade de Deus" e, "embora seguros de sua salvação eterna", ainda precisam de purificação para poderem entrar no paraíso celeste. O catecismo lembra que ajudá-los está nas mãos dos vivos; os fiéis podem rezar por eles, oferecer missas, esmolas, indulgências e fazer penitência. A Bíblia não cita o purgatório, mas algumas passagens sugerem sua existência. Sua definição provocou um grande debate na Idade Média, e ele foi fixado como tal no Concílio de Florença em 1439.

LIMBO DAS CRIANÇAS - Do latim "limbus" (borda, margem), o limbo foi considerado tradicionalmente uma espécie de ante-sala do julgamento final, sem dor nem prazer, na qual moram as crianças mortas sem ter recebido o batismo, que carecem de culpas mas que carregam o pecado original. A noção do limbo das crianças se desenvolveu a partir do século 12, com tal força que chegou a figurar no catecismo de Pio 10º, publicado em 1904: as crianças estão ali porque, "tendo o pecado original, e somente esse, não merecem o céu, mas tampouco o inferno ou o purgatório".

O LIMBO DOS JUSTOS - O catecismo fala em "infernos" (no plural, não confundir com o inferno), aos quais Jesus desceu depois de sua morte e antes da ressurreição, como o estado em que se encontram todos os que haviam morrido antes de Jesus, tanto justos quanto pecadores. Apesar dessa mistura de bons e maus, consolidou-se a noção de um limbo dos justos, no qual moravam os profetas e patriarcas de Israel e até alguns sábios da Antigüidade. Segundo o Novo Testamento, com a descida de Jesus a esses "infernos" os justos foram libertados, e portanto esse limbo, na lógica pura, está vazio há séculos. Teólogos católicos propõem que o papa atualize a doutrina sobre o destino das crianças mortas sem batismo. João Paulo II confiou os bebês falecidos "à misericórdia de Deus" no catecismo de 1992. Na visão católica, os bebês mortos ao nascer vão para o limbo, mas também os fetos e os embriões Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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