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12/10/2006
As contas do planeta: alerta para o consumo insustentável

Rafael Ramos
em Londres


Os 6 bilhões de habitantes da Terra já esgotaram o capital ecológico a que tinham direito para o ano de 2006, e nos quase três meses que restam de calendário gastarão mais recursos - peixes, florestas, água, colheitas... - do que o planeta é capaz de gerar.

O relatório da New Economics Foundation (NEF) se acrescenta ao sinais cada vez mais alarmantes de uma crise ambiental em grande escala, com necessidade de medidas radicais que os governos não se sentem capazes de impor e os setores industriais mais poluidores resistem a aceitar.

A NEF de Londres, em associação com a organização americana Global Footprint Network, desenvolveu o conceito de dívida ecológica para quantificar o prejuízo que a industrialização maciça está causando à Terra e a rapidez com que estão sendo consumidos os recursos naturais. Se o capital ecológico fosse distribuído em orçamentos anuais, até 1986 a humanidade teria chegado ao fim do ano com o dinheiro que lhe cabia, mas desde então se vê obrigada a gastar parte da poupança antes do Natal.

O mais preocupante no relatório é a rapidez do processo. A primeira dívida ecológica ocorreu em 1987, quando foi necessário recorrer ao capital em 19 de dezembro; em 1995 os fundos se esgotaram em 15 de novembro e a partir desse momento foram consumidos mais alimentos e cortadas mais árvores do orçamento anual; e este ano os números vermelhos saíram no último dia 9 de outubro. Ou, dito de outra maneira, a Terra precisa de 15 meses para regenerar o que gastamos em 12. Nesse ritmo, se a data continuar se antecipando um mês por década, dentro de um século não restarão recursos no planeta.

"O relatório tenta visualizar que vivemos muito acima de nossos meios, tirando do cartão de crédito ecológico cada vez mais cedo. É como o que acontece nas finanças, em breve não se poderá pagar a dívida e a Terra entrará em falência", disse um diretor de políticas da NEF.

O Ministério da Defesa britânico tem planos de contingência para conflitos derivados da "luta pela distribuição de recursos cada vez mais escassos" dentro de 20 anos. "Os cálculos do relatório me parecem bastante corretos", diz o professor Tim Jackson, da Universidade de Surrey.

"O problema é que, assim como ocorre com a economia, a crise pode se precipitar muito mais depressa do que pensamos, e não sabemos quando chegará o momento da quebra ecológica em que as reservas de pescado se esgotem, o desmatamento seja total, não haja mais água para satisfazer nossas necessidades e o aquecimento global provoque catástrofes."

Na Grã-Bretanha começam a fazer parte do debate político os impostos verdes e o aumento da carga fiscal para a aviação comercial e os veículos todo-terreno. Mas os EUA resistem a assinar o Protocolo de Kioto.

Tradução: Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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