Violência no traslado dos restos de Perón atiça a oposição

Alfred Rexach
em Buenos Aires

Nenhuma palavra sobre a violência. Só comentários otimistas sobre como a economia vai bem. O presidente Néstor Kirchner não quer nem ouvir falar dos confrontos entre sindicalistas peronistas que na terça-feira transformaram a cerimônia do enterro solene de Perón em uma batalha campal. Não houve mortos, milagrosamente, mas a imagem internacional da Argentina volta a ser a de um país conturbado, onde a política se decide a tiros e pauladas.

A oposição, por sua vez, não se cala. Ontem atacou com força, denunciando o quase inexistente aparelho de segurança. A tumba faraônica de Perón ficou devastada. As estátuas simbólicas do ex-presidente e de sua mulher, Evita, foram decapitadas, sendo transformadas em pedras para o combate. O Fiat de coleção que o general utilizava acabou com o pára-brisa arrebentado e a carroceria amassada. Os jardins bem-cuidados ficaram destruídos. Perón descansa hoje, se é que descansa, em um cenário devastado. Seus governos também começaram e terminaram assim.

Mauricio Macri, líder da oposição de direita, exigiu ontem que Kirchner pedisse "desculpas pelo espetáculo que presenciamos". Toda a Argentina o assistiu ao vivo pela televisão, assim como o mundo inteiro. Ricardo López Murphy, outro potencial aspirante à presidência, de centro-direita, afirma que o único responsável é o presidente. "Foi ele quem permitiu que as 'patotas', dessem segurança a si mesmas."

Outra vez as "patotas", os grupos descontrolados que semeiam o terror nas concentrações de massas. Muitos certamente também pertencem às ferozes "barras bravas", os brutais torcedores do futebol argentino.
As brigas são espontâneas, mas quase nunca gratuitas, nesta Argentina que continua chorando Juan Domingo Perón como se o general nunca tivesse também espalhado sementes de violência quando governou o país por três vezes. Aqui, quando um político, um dirigente esportivo ou qualquer pessoa com poder tem dificuldades aparecem as patotas.

É costume e talvez também um método, e até uma maneira de viver.
Na terça-feira, diante do caixão insepulto de Perón, os valentões da Confederação Geral do Trabalho (CGT) se enfrentaram selvagemente com os da União Operária da Construção da República Argentina (UOCRA). Hugo Moyano, líder da CGT, a quem Kirchner apela para que os dissídios coletivos não aumentem demais, já se sente vítima de uma armadilha. "Foi tudo organizado", disse ontem diante das câmeras.

Emilio Quiroz, o homem que protagonizou alguns minutos de televisão ao vivo disparando sua pistola 9 mm, acreditando-se impune, é da CGT. "Imbecis", "idiotas úteis", clamava Moyano, compreendendo tarde demais que o confronto por um motivo banal - ocupar um lugar de destaque no enterro de Perón em San Vicente - era uma bomba de efeito retardado, que pode acabar com sua proveitosa carreira de líder sindical.

Moyano e Quiroz (o pistoleiro se entregou ontem à tarde) não se sentem os únicos perdedores de uma batalha selvagem, que revela a dureza da luta entre os "Gordos" (líderes sindicais influentes) pelos favores e subvenções do poder. Kirchner não fala sobre o que aconteceu na terça-feira, um dia peronista (dizem que alegre e ensolarado) que acabou coberto pelas nuvens negras da violência mais estúpida. O governador de Buenos Aires, Felippe Solá, também se cala. Só se procuram responsáveis. Alguém que assuma o papel de bode expiatório dos pecados coletivos. Argentina revive a presença de seus piores fantasmas históricos Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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