O mortífero balanço da Terra

Josep Corbella
em Barcelona

A cada 2,5 milhões de anos começa uma nova partida no grande jogo da vida. Grande parte das espécies é eliminada e entra em cena um novo grupo de participantes que terá sua oportunidade de sobreviver e passar para a próxima rodada.

Essas distinções periódicas desconcertam os paleontólogos há décadas. Agora uma equipe internacional de cientistas que analisou mais de 80 mil fósseis procedentes de três regiões da Espanha encontrou finalmente uma explicação: segundo suas conclusões apresentadas na revista "Nature", os períodos de grandes extinções e surgimento de novas espécies coincidem de maneira precisa com as oscilações da órbita da Terra ao redor do Sol. "A órbita da Terra não é perfeitamente regular", explicou em entrevista por telefone Jan van Dam, paleontólogo da Universidade de Utrecht (Holanda) e primeiro autor da pesquisa.

Assim como um pião, a Terra oscila na medida em que gira, de modo que sua inclinação muda seguindo um ciclo de 41 mil anos, e os pólos se aproximam mais do Sol em certas épocas que em outras. Ao mesmo tempo, a forma da órbita varia seguindo um ciclo de 100 mil anos: em algumas épocas é quase circular - como atualmente -, enquanto em outras descreve uma elipse mais alongada e se afasta mais do Sol durante alguns meses do ano.

"A combinação desses dois ciclos criou um padrão de ciclos mais longos", explicou Van Dam. É uma simples questão matemática: pensem no ciclo dos Jogos Olímpicos - a cada quatro anos - e no ciclo das décadas - a cada dez anos. Agora pensem em que intervalo se realizam os jogos em anos terminados em zero - a cada 20 anos: um ciclo mais longo do que qualquer dos dois anteriores. No caso da Terra, esse padrão de ciclos mais longos cria condições climáticas extremas a cada milhão de anos para a inclinação da órbita e a cada 2,5 milhões de anos para a excentricidade.

Se a órbita é muito elíptica, e o verão no hemisfério norte coincide com a época do ano em que a Terra se afasta mais do Sol, "então o norte do planeta terá verões de pouco calor", indicou Van Dam. Se isso também coincidir com um período de inclinação mínima da Terra, e portanto o pólo receber menos radiação solar no verão, haverá condições para que uma pequena quantidade da neve polar derreta nos meses quentes e se forme uma grande capa de gelo ao redor do pólo norte.

As condições glaciais levarão a "um maior esfriamento e uma maior aridez nos continentes", escrevem os pesquisadores na "Nature" - o que por sua vez limitará o crescimento das espécies vegetais, reduzirá os alimentos disponíveis para os animais, modificará os ecossistemas e causará extinções em cadeia.

Inversamente, nas épocas em que a órbita da Terra é quase circular, os pesquisadores calculam que deve ocorrer uma mudança climática em sentido contrário, com umidade em vez de aridez e proliferação de espécies adaptadas a essas condições úmidas.

O grande mérito da nova pesquisa, da qual participaram cientistas da Universidade Complutense e do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri, é que analisa mais de 80 mil fósseis, abrangendo um período de 22 milhões de anos, para comprovar se essas previsões teóricas estão corretas. Os fósseis procedentes de jazidas de Teruel, de Calatayud e do leste de Madri têm uma antiguidade de 2,5 milhões a 24,5 milhões de anos. As análises se concentraram em dentes de roedores, porque são fósseis que permitem identificar de maneira confiável os animais analisados e determinar o momento do aparecimento e da extinção de cada espécie.

Os resultados mostram uma sincronização precisa entre as épocas de maior extinção e surgimento de novas espécies e o ciclo astronômico de 2,5 milhões de anos relacionado à excentricidade da órbita terrestre. Em menor medida, também se observa uma relação entre algumas extinções e o ciclo de um milhão de anos relacionado à inclinação da Terra. "Nos concentrarmos nos roedores, mas as conclusões podem ser extrapoladas para outras espécies", declarou Van Dam. As oscilações da órbita da Terra provocam "mudanças climáticas que afetam todo o ecossistema, e me surpreenderia se outros animais também não sofressem seus efeitos".

Mas não é possível extrapolar as conclusões para as extinções futuras, adverte o cientista, porque o sistema climático hoje é radicalmente diferente da época que ele investigou e porque entrou em jogo um fator de extinção provavelmente mais poderoso e mais mortífero que as alterações da órbita terrestre: o ser humano. As oscilações da órbita do planeta causam extinções periódicas de espécies Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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