Expulsar o sexismo da linguagem obrigará a incluir mais termos mistos

Maricel Chavarría
em Barcelona

Os/as companheiros e companheiras que aqui estão reunidos e reunidas. Em campanha eleitoral proliferam os discursos cheios de duplas formas para pedir o voto de umas e outros. O que confirma certa torpeza nessa vontade incipiente de corrigir o sexismo em uma língua que historicamente exclui a mulher.

O meio educacional foi dos primeiros que quiseram evidenciar a presença das mulheres e das meninas: a associação de pais passou a ser associação de mães e pais, sem que ninguém reclamasse. No administrativo, o tripartite rebatizou os corpos de funcionários ou inspetores como funcionalismo e inspeção. A questão é: que futuro espera a fórmula homem/mulher? E a possibilidade de utilizar termos genéricos?

"La Vanguardia" colheu opiniões nos âmbitos da lingüística, filosofia e literatura. Alguns não vêem inconveniente em continuar usando o genérico masculino; outras consideram a mudança lingüística inevitável.
"Há algum tempo nos parecia incrível dizer funcionalismo ou professorado, e agora não mais. A mudança lingüística é um processo em marcha", afirma a lingüista Eulália Lledó.

"O lema deste ano do Observatório da Infância é 'Posar-se a la pell d'altri' [Colocar-se na pele de outros], algo que há três anos não teria acontecido: teriam dito 'de l'altre' [do outro], sem contemplar essa forma genuína catalã", explica a encarregada de revisar o relatório "Marcar a Diferença", no qual a Secretaria de Política Lingüística expõe critérios para que os dois sexos sejam representados na língua. "É claro que é preciso buscar as fórmulas mistas necessárias, mas é absurdo negar-se o procedimento de dizer homens e mulheres em vez de pessoas. Não é horroroso dizer 'nois' [meninos] e 'noies', e é cada vez mais habitual falar de 'nens' [bebês] e 'nenes'."

Quanto ao uso abusivo das duplas formas nos discursos políticos, Lledó afirma que é na época eleitoral que se lembram mais de utilizá-las. "Mas o fazem por motivos diferentes dos meus: apelam ao seu eleitorado, e de um modo tão torpe que a gente não se sente atraída, pelo contrário. Há inclusive os que pedem seu voto fazendo a barba."
"'Humano como você', dizem. Humano como você é um homem barbeando-se?", pergunta-se Lledó, referindo-se à campanha da ERC em que o candidato Josep Lluís Carod-Rovira aparece diante do espelho realizando seu asseio matutino.

"Eu sou humana como ele e não me barbeio. Quer representar um ato como um fato universal e faz algo que demonstra sua virilidade", argüi Lledó. "Bem, elas se depilam", alegou ontem Carod-Rovira a este jornal, preocupado que se pudesse fazer uma leitura sexista do anúncio.
Joan Abril, planejador de lingüística do Instituto de Estatísticas da Catalunha, acredita que usar a forma dupla é uma moda politicamente correta.

"Fica-se na superfície, pois no grosso do discurso se utiliza o genérico masculino." O discurso político, o sindical ou o do professorado vão na via de aparentar, argumenta Abril. "Mas as pessoas, por senso comum, continuarão usando o masculino genérico. Pensar que falar de professores é uma forma de discriminar as professoras desenfoca o conceito da economia de linguagem."

Abril declara-se feminista, mas não acredita que se deva comungar sempre com os critérios de uso não-sexista da língua. O masculino tem para ele um valor totalmente genérico: não discrimina nem entorpece a comunicação.

"Defender a economia da linguagem às custas das mulheres é algo que só os homens podem fazer. Ou uma mulher que não perceba que o masculino plural não é inócuo, que acaba negando as mulheres", destaca a escritora feminista Gemma Lienas. "No final do século 20, alguns historiadores explicaram que na Grécia antiga não votavam nem escravos nem estrangeiros, mas se esqueceram de dizer que as mulheres também não. Não podemos ter certeza de quando o masculino é usado como genérico e quando não. Se não nos tornarmos visíveis, será difícil uma igualdade real." Lienas acredita que a questão é educar-se.

E procurar fórmulas: não entende que não se diga cidadania em vez de cidadãos e cidadãs. "Não estamos diante de um problema da língua e não é verdade que o masculino inclua o feminino: é uma convenção na qual somos treinados", escreve Lledó em "De llengua, diferència i context".

"Quem defende economizar a todo custo poderia argüir que como o castelhano é compreendido por todos não há necessidade de versões em catalão (...) Uma coisa é economizar e outra menosprezar um coletivo majoritário." Para Lledó, trata-se de uma questão ideológica: "A língua não é sexista nem racista, mas uma radiografia do que se pensa".

Nas românicas, as formas masculinas e femininas são formadas acrescentando-se um morfema à raiz. Algo que não acontece em inglês, por exemplo, que nem por isso se salva de sexismos: é lógico referir-se a uma mulher escritora (woman writer), mas não a um homem escritor. Eles são a norma; elas, o excêntrico. "Creio que esta é uma sociedade que procura incorporar tudo", aponta o filósofo Joan-Carles Mèlich. "Podemos falar delas e deles e continuar sendo machistas: se por trás da estética não houver uma ética, uma vontade política, moral e jurídica de igualdade, não avançamos nada." Mèlich opta em seus textos por referir-se ao ser humano e não ao homem, "mas a linguagem tem alguns limites", acrescenta. Uma solução, na opinião dele, é anunciar a vontade de não discriminar ao usar o masculino genérico.

A língua não é imutável, insiste Lledó: se alguém não usa outras formas não é porque esta não o permita, mas porque a pessoa assim prefere. Impõe-se finalmente a idéia de que a linguagem deve evitar fórmulas sexistas. A solução seria sempre duplicar o gênero quando um orador dá boas-vindas a todos e todas ou se dirige a senhores e senhoras? Quatro especialistas dão sua opinião Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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