Manoel de Oliveira, cineasta português: "Sou o estudante de cinema mais velho do mundo"

Begoña Piña
em Madri

Patriarca do cinema mundial, o português Manoel de Oliveira vive em constante movimento, "para ver e fazer cinema", e o tempo que lhe sobra "é para minha família". "Sou doente por cinema. Minha mulher diz que quando não faço cinema fico insuportável, e assim estamos há 66 anos."

Em 11 de dezembro ele completará 98 anos, e então terá terminado seu quarto filme deste ano, "Um Encontro Único", uma peça de três minutos na qual embarcará depois de uma viagem, esta semana, à República Checa, onde nem sequer sabe o que vai fazer. "Me convidaram e eu vou, não sei muito bem para quê, mas há coisas lá que me interessam muito."

Incansável, ignorante do desânimo, Oliveira oferece uma conversa que lembra uma conferência. Uma palavra basta para que se desate uma torrente de idéias e raciocínios absolutamente coerentes e cheios de sabedoria. O mestre português, que esteve na semana passada na Espanha apadrinhando a 4ª Mostra Portuguesa, admite que "agora começo a aprender algo de cinema.".

La Vanguardia - O senhor, como Woody Allen, faz um filme por ano.
Manoel de Oliveira -
Não. Já fiz três este ano e dentro de duas semanas vou a Paris filmar.

LV - O mundo inteiro vive espantado com o senhor. Não se espanta a si mesmo?
Oliveira -
O meu caso é insignificante no mundo. O que sei é que estou espantado com o mundo de hoje, um verdadeiro desastre. O mundo vai mal. O Ocidente se baseou no conhecimento e o Oriente na sabedoria, que são duas coisas diferentes... Os cientistas foram descobrindo as leis da natureza e as aplicaram à técnica, e é isso que dá o desenvolvimento e o progresso. Mas o progresso nos dá conforto e nada mais. O lado bom é o avanço da medicina, que nos dá maior longevidade.

A ciência, por meio de Einstein, descobriu a desintegração do átomo. E da ciência pura resultou a ciência prática e a bomba atômica. Passaram mais de 60 anos desde Hiroshima e não há cientistas capazes de acabar com as conseqüências da bomba, porque não são criadores, são pobres criaturas. E eu me pergunto: por que o Ocidente não aproveitou a sabedoria do Oriente para corrigir seus males? Ao contrário, o que aconteceu é que o Oriente vem buscar o conhecimento do Ocidente, embora estejam comprovados seus males. Einstein disse que era mais fácil desintegrar um átomo do que mudar uma mentalidade.

LV - O senhor tentou mudar alguma mentalidade com o cinema?
Oliveira -
O cinema não tem uma finalidade prática, não governa o mundo.
O mundo é governado pelos políticos. A arte se limita a mostrar as conseqüências dos atos destes e a retratar a condição humana. O cinema e as artes são um espelho da vida. O cinema tem uma finalidade, mas não é uma finalidade prática.

LV - Parece que houve mal-entendidos com seu filme mais recente, "Belle Toujours".
Oliveira -
Sim, eu não quis fazer uma segunda parte de "Belle de Jour", quis prestar uma homenagem a Buñuel. Aqui gostam muito de mim e quero desfazer essa confusão.

LV - O senhor conheceu Buñuel?
Oliveira -
Não. Um amigo ia encontrá-la um dia e perguntei se podia acompanhá-lo. Ele me disse: "Ele está surdo e você não fala castelhano". Não o conheci. Buñuel era um homem que conhecia muito bem a natureza humana e teve a pior impressão dela. Ele deixou a ética e a moral de lado e explorou os instintos e o interior, e assim descobriu o surrealismo. O que me atrai muito nele é que era um homem manipulado por seus próprios instintos.

LV - O senhor rodou seu primeiro documentário em 1930...
Oliveira -
Sou o estudante de cinema mais antigo do mundo, e agora estou começando a aprender algo sobre cinema. Agora sei que é mais difícil quando o filme se apresenta de uma forma clara e simples, mas é que todas as idéias profundas precisam de clareza. Senão, se perdem. Apesar de ter mudado muito, ontem e hoje o cinema é expressão, e não técnica. A televisão é outra coisa.

LV - A que se refere?
Oliveira -
Os gregos faziam arte para educar, hoje a televisão mostra coisas banais, sem ética nem moral. Educa um público que depois vai votar. Como vamos construir uma democracia assim?

LV - O senhor vai muito ao cinema?
Oliveira -
Menos que antes, porque tenho menos tempo. Tenho duas dificuldades na vida: em minha casa falta espaço e em minha vida falta tempo. E não há remédio para nenhuma das duas. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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