Mohamed 6º diz que plano de autonomia do Saara progride

Carla Fibla
em Rabat

Sem surpresas, mas com um discurso carregado da palavra "democracia", o rei do Marrocos Mohamed 6º defendeu a necessidade de criar um "Estado saariano", sem que, ao referir-se a essa entidade, a chamasse de "fictícia", como era habitual.

Em reconhecimento ao trabalho dos partidos políticos marroquinos e do Conselho Real para Assuntos do Saara (Corcas), o rei afirmou que o plano de autonomia para o território está em "estado avançado".
Preocupado com o tráfico ilegal de pessoas que saem das costas saarianas para as ilhas Canárias, Mohamed 6º advertiu sobre a instabilidade da região e o perigo de uma futura "balcanização".

Por outro lado, a análise política dos últimos dias apontou a incapacidade diplomática marroquina para melhorar a imagem do país magrebino nos fóruns internacionais na discussão de possíveis alternativas. A missão da ONU para a realização do referendo no Saara Ocidental (Minurso), que aterrissou em El Alaiun há mais de 15 anos, não só está confinada às entediantes e sucessivas prorrogações de seis meses com as quais colabora para a perpetuação da disputa, como agora sua sede está rodeada de bandeiras marroquinas, depois da ofensa que a instituição internacional fez há alguns meses ao retirar a bandeira do país que administra o território.

A principal desilusão, manifestada na imprensa independente marroquina ou através de intelectuais e das raras vozes discordantes do país, se concentra no plano de autonomia para o Saara Ocidental.

Há um ano, sentado em uma cadeira semelhante diante de uma mesa de características iguais e ladeado à direita por seu irmão Mulay Rachid, o rei Mohamed pediu aos partidos políticos uma reflexão construtiva e propostas para elaborar um plano de autonomia. Doze meses depois, só o Partido Justiça e Desenvolvimento organizou um encontro sobre experiências autonômicas em outros países.

E os conselheiros do rei Mohamed 6º encarregados do caso do Saara também não parecem ter satisfeito as expectativas do monarca, que não foi capaz de divulgar no Conselho de Segurança da ONU ou diante de aliados seguros como a França e outros cada dia mais próximos, como a Espanha, uma proposta construtiva que possa ser aprovada pelas partes.

Inclusive no seio do flamejante Corcas, o presidente da comissão de Direitos Humanos, Husein Baida, denunciou na semana passada "graves violações dos direitos humanos cometidas pelas autoridades marroquinas" na antiga colônia espanhola. Algo que é confirmado pelos depoimentos de cidadãos saarianos que desaparecem durante dias depois de se manifestar a favor da independência do território. O rei do Marrocos adverte para o risco de "balcanização" da região Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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