O "professor", o presidente e o milionário

Rafael Ramos
em Londres

Na hora de destrinchar o emaranhado do aparente assassinato do ex-membro dos serviços secretos russos Alexander Litvinenko, os investigadores da Scotland Yard encontram três nós, nos quais reside boa parte do mistério. O primeiro se chama Mario Scaramella, um professor napolitano especialista tanto em KGB quanto em resíduos nucleares, com um currículo tão sofisticado quanto difícil de comprovar. O segundo é o oligarca Boris Berezovsky, padrinho dos exilados russos em Londres e inimigo público número 1 de Vladimir Putin, o presidente russo. E o terceiro é o próprio Putin.

Scaramella, que compartilhou com o espião morto um prato de sushi no dia em que ele adoeceu, voltou a Londres para se submeter voluntariamente a exames médicos (como outras 1.100 pessoas, oito das quais estão internadas), temendo ter radiatividade no corpo, e de passagem para ser interrogado pela polícia sobre sua relação com Litvinenko, seu encontro em 1º de novembro e os passos que deram juntos naquele dia fatídico. O restaurante Itsu em Piccadilly, em frente à Royal Academy, é um dos sete endereços da capital inglesa onde se encontraram restos de polônio 210.

O professor é um personagem fantasioso, obscuro e complexo, que na semana passada concordou em ser entrevistado pelo jornal "The Mail on Sunday" em sua casa em Nápoles, e sobre o qual circulam diversos blogs na Internet alegando que se trata de um agente triplo ou quádruplo que colaborou com diversos serviços secretos. Ele teria alertado as autoridades sobre um complô para introduzir na Itália 10 quilos de urânio enriquecido em um carro, através da fronteira com San Marino. Um ano antes, o próprio Scaramella denunciou a presença de dez ogivas nucleares em um submarino russo ancorado na baía de Nápoles.

O acadêmico italiano - para chamá-lo de alguma maneira - depôs na comissão Mitrokhin sobre o papel da KGB na Itália, embora nunca tenha explicado de onde procede seu conhecimento dos meandros da espionagem russa (a explicação oficial é que foi chamado para falar sobre a eliminação de resíduos radioativos, uma de suas supostas especialidades).

Sua carreira começou como advogado em meados dos anos 90 em Nápoles, onde fundou uma empresa especializada em direito ambiental. Seu trabalho conhecido seguinte é como professor na Universidade de Bogotá e diretor de uma escola de segurança nacional para treinar as polícias locais, embora o "The Mail on Sunday" não tenha conseguido comprovar sua presença na capital colombiana, nem um estágio de quatro meses em Greenwich e tampouco seu atual cargo de secretário-geral da Organização para Prevenção de Crimes Ecológicos, com escritório no Centro Espacial Fucino da Itália. Nenhum dos telefones nem os sites da web citados por Scaramella na entrevista funcionam, segundo os repórteres da publicação.

A justificativa de Scaramella para seu encontro em Londres com Litvinenko é que ficaram amigos desde que o espião morto o advertiu sobre uma tentativa de assassinato contra Paolo Guzzanti, senador do Forza Italia que dirigiu a comissão Mitrokhin, o que levou à detenção de seis ucranianos acusados de tentar introduzir na Itália granadas ocultas em edições ocas da Bíblia. Segundo o professor, no almoço entregou a Litvinenko uma lista negra do FSB (órgão sucessor da KGB) em que figuravam os nomes de ambos para serem eliminados.

O outro nó que pode ajudar a deslindar a confusão chama-se Boris Berezovsky, em cujos escritórios de Mayfair foram encontrados resíduos de polônio 210 (o veneno radioativo que matou o espião), assim como na vizinha sede de uma empresa de segurança privada chamada Erinys, ligada ao oligarca russo e que emprega 16 mil pessoas em todo o mundo em trabalhos como vigiar as instalações de petróleo no Iraque. Um de seus responsáveis é um ex-tenente-general das SAS britânicas chamado John Holmes. A possível explicação é que Litvinenko - protegido do milionário em Londres - teria visitado os dois endereços no dia de seu envenenamento, talvez para tirar fotocópias da lista negra que Scaramella lhe entregou.

Semanas antes de sua morte, Litvinenko viajou para Israel para se encontrar com Leonid Nevzlin, ex-presidente do conselho administrativo da gigante petroleira decaída Yukos e sócio de Mikhail Jodorovsky, que cumpre pena em Moscou depois de perder o duelo pelo poder e o dinheiro na Rússia.

Acredita-se que o espião morto na quinta-feira esteve em Tel Aviv - onde Nevzlin é diretor do Museu da Diáspora - para lhe advertir que sua vida corria perigo e lhe entregar documentos comprometedores para o governo de Moscou. É uma trama de "thriller" na qual todos os caminhos passam por Putin e os oligarcas russos no exílio, e todos os protagonistas são maus. Só falta saber quem é o assassino...

Moscou nega que veneno fosse russo

O diretor da agência atômica russa Rosatom, Serguei Kirienko, afirmou ontem que é quase impossível determinar a procedência do isótopo radiativo polônio 210, a substância tóxica que causou a morte de Alexander Litvinenko.

Kirienko salientou ainda que "as alegações de que o polônio foi roubado de nossa usina de produção são absolutamente infundadas", já que "os controles são muito estritos".

A Rússia, explicou o diretor da Rosatom, exporta mensalmente 8 gramas de polônio 210 e unicamente para os EUA. A Grã-Bretanha não é abastecida desde 2001. Segundo o funcionário russo, enquanto a exportação é submetida a acordos internacionais e com certificados, o produto final em que o isótopo é utilizado - como o equipamento industrial usado na produção de tintas e impressões - fica à margem de controles oficiais. O processo de produção do polônio é simples, disse Kirienko. É obtido através do bombardeio com nêutrons de uma placa de bismuto. "Isso quer dizer que, tendo uma placa de bismuto, pode-se produzir polônio em qualquer reator. Tanto no reator russo RMMK como no canadense Candu e em reatores britânicos", ele explicou. Como num filme de suspense, todas as pistas do caso Litvinenko passam por Putin e os oligarcas russos no exílio. O "especialista" italiano que passou o último dia com o falecido espião é um personagem obscuro e complexo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos