A última profanação de Ramsés 2º

Lluís Uría
em Paris

"Vendo mecha de cabelos pertencente a Ramsés 2º." Dessa forma, como se se tratasse de uma bicicleta de segunda-mão, era anunciado ainda ontem à tarde no site de anúncios gratuitos Vivastreet a venda de diversas amostras da múmia do último grande faraó do Egito, que reinou entre 1290 e 1224 a.C..

Reuters 
Jean-Michel Diebolt, um carteiro de 50 anos, anunciou na internet as "relíquias"

Exposta no Museu do Cairo, a múmia de Ramsés 2º foi submetida a diversos exames na França entre 1976 e 1977, quando supostamente teriam sido extraídas as amostras anunciadas na Internet.

O vendedor das relíquias é Jean-Michel Diebolt, um carteiro de 50 anos residente em Saint-Egrève, perto de Grenoble, filho de um dos pesquisadores que participaram das análises. Detido anteontem à noite pela polícia francesa, foi posto em liberdade ontem sem acusação, porque o delito - caso se comprove - foi cometido por seu pai, morto em 2001, e prescreveu.

O assunto provocou um autêntico escândalo e ameaça envenenar as relações entre França e Egito, onde a múmia de Ramsés 2º é considerada um monumento nacional. O secretário-geral do Conselho Supremo de Antigüidades do Egito, Zahi Hawas, um renomado egiptólogo, exigiu ontem uma explicação e advertiu que se a autenticidade das amostras for confirmada será "escandaloso" e poderá "prejudicar as relações entre o Egito e a França".

A diretora que coordenou os trabalhos na França, Catherine Desroches-Noblecourt, expressou surpresa e disse que se as amostras forem autênticas será "uma vergonha e um sacrilégio". Diversos arqueólogos e egiptólogos franceses manifestaram indignação semelhante.

O Ministério das Relações Exteriores tentou minimizar o assunto, que pode empanar a visita que fará à França na próxima semana o presidente egípcio, Hosni Mubarak, que - ironia da vida - vai inaugurar junto com o presidente Jacques Chirac a exposição "Tesouros Ocultos do Egito" no Grand Palais. Um porta-voz manifestou a solidariedade da França com as autoridades egípcias e afirmou que a verdade virá à luz. O Museu de História Natural apresentou denúncia e o órgão central de combate ao tráfico de bens culturais abriu uma investigação.

Diebolt afirma que herdou de seu pai as amostras da múmia - compostas por mechas de cabelo, fragmentos do sudário e restos da resina utilizada no embalsamamento do cadáver - procedentes das análises a que foram submetidas no centro da Comissão de Energia Atômica (CEA) em Grenoble.

Tratada na França de um problema de fungos, a múmia esteve todo o tempo sob a custódia do Museu do Homem de Paris, mas algumas amostras foram levadas a laboratórios para efetuar diversas análises. A CEA admitiu ontem que estudou algumas amostras em Grenoble, o que confirmaria a veracidade da história de Diebolt.

O carteiro havia dividido as amostras em pequenos sacos - a polícia apreendeu uma dezena em sua casa - e pedia por cada uma de 2 mil a 2,5 mil euros, mas mostrava-se disposto a negociar a venda do lote completo. "Sou o único que tem essas amostras, e como nunca mais haverá qualquer extração da múmia, que está no Cairo, a soma para adquiri-las é proporcional à raridade do objeto", argumentou. Uma mercadoria única. Triste destino para restos que há 30 anos foram recebidos na França com honras de chefe de Estado. Um francês foi detido depois de tentar vender pela Internet amostras de cabelo da múmia do faraó. As autoridades egípcias falam em escândalo e exigem uma explicação de Paris Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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