Restos de banquete canibal formam a maior jazida neandertal da Espanha

Josep Corbella
em Barcelona

Há 43 mil anos, quando grande parte da Europa se encontrava abaixo de zero grau durante a última glaciação, um grupo de pelo menos oito homens de neandertal foi devorado por seus congêneres no que hoje é Astúrias, norte da Espanha. Os restos daquele banquete, exumados em 1994 na caverna de Sidrón e apresentados esta semana na revista "Proceedings" da Academia Nacional de Ciências dos EUA, trazem novos dados sobre as duras condições de vida na época dos neandertais.

"Observamos que havia duas idades em que eles tinham crises de crescimento por falta de alimento", explica Antonio Rosas, paleontólogo do Museu Nacional de Ciências Naturais de Madri e diretor da pesquisa. Uma era ao redor dos 4 anos, coincidindo com o fim da lactação; a outra na adolescência, coincidindo com a idade em que aumentam as necessidades nutritivas.

Essas conclusões se depreendem da análise dos dentes recuperados em Sidrón, que apresentam marcas de crescimento semelhantes aos anéis dos troncos das árvores. Com 1.323 restos humanos recuperados desde 1994, a caverna asturiana se transformou na jazida de neandertais mais importante da península Ibérica.

Se todos os espécimes analisados até agora sofreram períodos de desnutrição no final da lactação e na adolescência, isso significa que os homens de neandertal cuidavam de seus filhos pior que os Homo sapiens? "Pode ser que entre os neandertais a lei depois da desmama fosse 'cuide de sua vida'", admite Rosas.

"Mas também pode ser que houvesse escassez de alimentos para todos, crianças e adultos. Ou as duas coisas ao mesmo tempo." Entre os Homo sapiens do Paleolítico, os sinais de desnutrição no final da lactação são ocasionais, enquanto entre os neandertais são comuns.

Com temperaturas médias entre 5 e 8 graus abaixo das atuais e uma vegetação dominada por urzes e bétulas, o norte da península Ibérica não devia ser na época um lugar muito agradável para passar o inverno. Mas Rosas lembra que, apesar dos períodos de falta de alimento, uma porcentagem elevada de neandertais superava as épocas de desnutrição e sobrevivia até chegar à idade adulta.

Outro dado que sugere que o alimento era escasso, pelo menos durante parte do ano, é que os fósseis de Sidrón são restos de um banquete canibal: se alguém pode caçar coelhos, não se arrisca em uma batalha de vida ou morte com uma tribo rival. Mas os fósseis da caverna de Sidrón estão desarticulados como asas de frango, amassados para lhes tirar o tutano - ou o cérebro no caso do crânio - e marcados por colheres de pedra, para retirar a carne. Os paleontólogos identificaram restos de oito indivíduos diferentes - um lactante, uma criança, dois adolescentes e quatro adultos -, mas os fósseis estão tão fragmentados que "poderiam corresponder a mais indivíduos", aponta Rosas.

Como os restos têm uma antigüidade de 43 mil anos e os Homo sapiens só chegaram à Europa 3 mil anos mais tarde, aproximadamente, os autores da chacina só poderiam ser outros neandertais.
O estudo da jazida, que ocupa apenas 6 m2 e na qual dez pesquisadores fazem campanhas de escavação de um mês de duração todo mês de setembro, indica que as vítimas não foram devoradas no interior da caverna. O banquete ocorreu no exterior e os restos caíram em uma cavidade quando houve um desmoronamento em uma galeria subterrânea. "É um fenômeno que não tem nada de excepcional", lembra Rosas. "Pode ocorrer, por exemplo, quando se acumula uma grande quantidade de água de chuva em uma depressão sobre a caverna." Os fósseis de Sidrón indicam que os homens de neandertal sofriam fases de desnutrição no final da lactação e na adolescência Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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