Libaneses pró e anti-sírios realizam manifestações maciças

Tomás Alcoverro
em Beirute

Ontem foi um dia de vastas manifestações no Líbano. Centenas de milhares de pessoas protestaram em Beirute atendendo às convocações da oposição contra o governo de Fuad Siniora nas praças de Riad el Solh e dos Mártires. Em Trípoli, segunda cidade da República, dezenas de milhares de seguidores do grupo político A Corrente do Futuro, de Saad Hariri, organizaram uma contramanifestação de apoio ao governo na enorme praça a Feira. Nas regiões de Trípoli e de Akkar vivem mais da metade dos 1,2 milhão de muçulmanos sunitas do Líbano e os partidários de Fuad Siniora e de Saad Hariri têm 28 assentos no Parlamento.

O constante jogo de forças entre o governo e a oposição radicalizou as relações entre sunitas e xiitas, como se revelou na praça de Trípoli e no centro de Beirute, mas os cristãos do general Michel Aoun também voltaram a se manifestar na capital junto com os seguidores do Hizbollah e de Amal.

A gritaria, os discursos, hinos e canções patrióticas eram ouvidos no Serralho, ou sede do governo, onde residem Siniora e vários de seus ministros. Foi reforçada a guarda do antigo edifício otomano, diante de cuja fachada, a poucos metros, ocorrem essas manifestações que pretendem conseguir sua renúncia. Alguns cartazes dizem "A mudança está chegando".

Foram instaladas novas tendas de campanha onde os manifestantes podem pernoitar. O general Michel Aoun, com uma camiseta e um gorro cor de laranja, afirmou que essas praças não bastariam para conter os participantes das novas concentrações populares. O general também ameaçou diretamente formar um governo alternativo: "Esperaremos alguns dias antes de formar um governo de transição no qual [os grupos da maioria parlamentar] terão um terço", disse.

Na sede do governo, Siniora declarou: "Nosso regime político e democrático enfrenta um desafio e é capaz de superá-lo sem cair novamente sob a tutela estrangeira". No fundo desse conflito, no qual latejam todos os complexos fatores internacionais, está a posição política do Hizbollah: o "Partido de Deus" nunca aceitou os acordos de Taef, graças aos quais terminou a guerra civil de 1975-1990, porque não concorda com o regime confessional e quer estabelecer outro sistema que não seja baseado na divisão de poder segundo critérios comunitários, pois considera que não o favorece.

Em seus primeiros programas divulgados em 1985, estabelecia que a libertação dos territórios ocupados por Israel e a instauração de uma república islâmica no Líbano eram seus objetivos prioritários. Mas o Hizbollah, liderado por Sayed Hassan, teve de adaptar suas pretensões nessa sociedade multiconfessional. As outras comunidades não podem esquecer que a única organização miliciana armada do Líbano se transformou de fato em um Estado dentro do Estado. O Hizbollah tem um indiscutível poder de mobilização popular.

No entanto, ontem o sudanês Mustafa Ismail, enviado especial da Liga Árabe ao Líbano, afirmou que obteve um princípio de acordo de Nasrala para resolver a crise, uma proposta da organização pan-árabe. A Liga Árabe afirma que conseguiu um princípio de acordo para resolver a crise Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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