A guerra ressuscitada

Plácid García-Planas

As guerras mortas ressuscitam. É estranho, mas é verdade: é estranho comprar com meses de antecedência uma passagem para aterrissar em Beirute em 13 de julho - vôo 822 da Alitalia - e que nesse dia, nessa exata manhã, os israelenses bombardeiem o aeroporto e continuem bombardeando o resto do Líbano.

É estranho buscar a memória de sete guerras mortas por três continentes e, ao chegar à última, que seja a mesma guerra que lhe abre a porta: talvez seja sua maneira de dizer a um repórter que a memória não existe, que só ela existe.

As guerras mortas ressuscitam, e toda guerra viva, como uma boa noite de "after", tem seus diferentes pontos de elevação. A altura do conflito, a distância vertical entre o disparo e o impacto, tem sua importância: define como se pode continuar vivendo ou como se pode acabar morrendo, e determina se é preciso sofrer um medo em silêncio ou se pode agüentar escutando Georges Moustaki com o volume alto.

Tomás Alcoverro, por exemplo, descobriu o medo numa noite de 1976 no mais absoluto silêncio: a vertigem, nesse caso, era marcada pela altura de um elevador. "Nunca até essa noite tinha sabido de verdade", escreveu nosso correspondente com uma tensão narrativa digna de Alfred Hitchcock. "Dormia profundamente quando duas tremendas explosões me fizeram saltar da cama e, engatinhando pelo chão, fui me esconder no vestíbulo do andar, longe das sacadas. O estrondo foi tão forte que eu estava convencido de que a dinamite tinha explodido no andar térreo ou nos primeiros pisos de meu prédio."

"Ao ruído estremecedor, mas breve das explosões", relatou Alcoverro, "seguiu-se um breve silêncio, subitamente rompido pelos estalidos da fuzilaria, intensos e prolongados. Ouviam-se os disparos tão perto que não era difícil imaginar que os homens estavam lutando no portal do prédio, que como todas as casas de Beirute não tem número, mas sim um nome."

"Os disparos da noite, em meio a um silêncio impressionante, provocavam mais disparos que surgiam de todos os rincões da vizinhança. Disparavam das casas, das esquinas sujas e desertas das ruas, do morro onde antes pastavam rebanhos de vacas, roído agora pelas fundações dos novos edifícios em construção?", perguntou-se Tomás Alcoverro nesse julho de 1976..."

Trinta anos depois, reclinado em uma poltrona no apartamento de nosso correspondente em Beirute, lendo essa silenciosa crônica escrita na escuridão de outro mês de julho, este correspondente de guerras ressuscitadas não precisa se arrastar pelo chão. É inútil se perguntar de onde vêm os disparos: esta é uma guerra de elevação máxima. Os projéteis vêm sempre do céu, e posso tocar "Le Métèque" bem alto porque os pilotos israelenses não vão perceber que aqui embaixo há alguém...

"Avec ma gueule de mètéque..." bum!
"De juif errant de pâtre Grec..." bum!
"Et mes cheveux aux quatre vents..." bum!

Mas voltemos à Beirute de 1976, atiremos-nos como Tomás Alcoverro ao chão do apartamento assediado por terra...

"Caído no tapete do vestíbulo, esperava ver a qualquer momento, através da porta envidraçada do salão, os fogos vivos das armas. Como o ruído ia envolvendo cada vez mais o edifício, não soube o que fazer. Voltei ao quarto; encolhi-me embaixo da cama, arrastando lençóis e travesseiro, com o propósito de passar assim a noite; depois pensei que era melhor descansar sobre o colchão e que dava na mesma estar em cima ou embaixo; mas como o tiroteio se fez mais intenso na parte traseira de minha casa, onde fica meu quarto, temi que a qualquer momento os projéteis entrassem pela sacada e voltei a me arrastar até o vestíbulo. "

"Ali me sentia mais protegido", continua relatando o correspondente de "La Vanguardia". "De repente, o silêncio causado pelo medo, guardado pelas respirações contidas dos moradores, foi rasgado com fúria. Vozes, um grito do porteiro, o ruído da porta do elevador, o ruído inconfundível, familiar como todos os pequenos ruídos da vida de nossos lares, o elevador subindo, subindo... Mas, seria possível? Iam bater na minha porta? Aqueles desconhecidos parariam no meu andar? Ansioso, acompanhava o ruído do ascensor que não parava, que continuava piso após piso. Ele parou no sótão. "

"Ouvi passos precipitados, vozes prementes. Poucos segundos depois, sobre o meu quarto, no terraço superior do sótão, percebi, cheio de pavor, que armavam umas máquinas que sem dúvida não podiam ser outra coisa senão metralhadoras; como iam e vinham de um lugar para outro. Até que o matraquear horrível começou a soar sobre minha cabeça. Meu Deus, os franco-atiradores tinham ocupado o terraço em cima da minha casa!..."

Hoje é 27 de julho de 2006, e continuo derrubado na poltrona do apartamento, continuo lendo as velhas crônicas de Tomás Alcoverro e as canções de Georges Moustaki continuam impenetráveis ao estrondo dos projéteis israelenses...

"Et nous ferons de chaque jour..." bum!
"Toute une éternité d'amour..." bum!
"Que nous vivrons à en mourir..." bum!

Cai a tarde, e nosso correspondente chega exausto de Nabatieh, a cidade xiita do sul do Líbano, duramente bombardeada pela aviação israelense.
- Como está Nabatieh? -- pergunto.
- Estou impressionado, impressionado... - responde. - Espere...
Lembro de uma crônica que fiz há anos, também de Nabatieh.
Localiza em seu arquivo a velha crônica, entrega-a a mim, começo a lê-la e não posso acreditar...

"Volto impressionado de Nabatieh", escreveu Tomás Alcoverro em 18 de maio de 1974, depois de contemplar a mesma cidade bombardeada. "Em um ônibus derrengado, um grupo de jornalistas. Fizemos uma viagem difícil de esquecer..."

Saio para o balcão, releio a fotocópia dessa "La Vanguardia" de 1974 - "Informação do estrangeiro. Beirute: A represália israelense no Líbano foi brutal. Crônica de nosso correspondente...", e olho para o céu, continuo escutando "Le Métèque", um avião israelense rompe a barreira do som e penso que o "La Vanguardia" é de poucos dias atrás.

Debaixo do balcão, o cruzamento de Commodore com Jean d'Arc, o bairro de Hamra, Beirute... Há cidades que têm nome de puta exótica: foi o que escreveu o diplomata espanhol Federico Palomera em um poema pensado aqui.

Tudo começa com essa palavra de origem incerta: Ras Beirut, Cabo Beirut. E por que Beirute, Tomás? "Beirute, porque explode no ar como um castelo de fogos de artifício e fica agarrada firme à beira do mar, porque é a fronteira entre todos os sentimentos e essa coisa tão superficial que são as idéias, porque é o inferno, a imaginação, a ternura e a esperança. Beirute, porque cada dia parece morrer irremissivelmente e surge depois em outra aurora vermelha, porque todos a abandonam e ninguém a arranca de seu coração. Beirute é, e não a escolhi, minha cidade."

Efetivamente: tudo começa no coração, e uma palavra incerta, com todos os abandonos e auroras do mundo encontrando-se mais uma vez na esquina de Jean d'Arc. Tudo começa, e nunca acaba, com Nabila - de profissão camareira -, maquiando-se como se Hamra fosse Paris, e com Ali - de profissão modelo - acariciando-se o peito com o revólver de seu irmão mais velho. "Beirute, porque explode no ar como um castelo de fogos de artifício..." Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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