Teerã acelera seu projeto nuclear

Tomás Alcoverro
em Beirute

Um novo grande conflito acaba de se impor no turbulento e destroçado Oriente Médio, com conseqüências imprevisíveis para os países da região, como o frágil Líbano. O chefe das negociações nucleares iranianas, Ali Larijani, afirmou que "a resposta imediata à resolução do Conselho de Segurança é que a partir de ontem empreendemos, sem perda de tempo, a instalação de outras 3 mil centrífugas a fim de enriquecer urânio na central de Natanz". "Acuso os governos ocidentais de utilizar o Conselho de Segurança como instrumento de suas políticas e denuncio esse alto organismo da ONU por seu silêncio depois da declaração do primeiro-ministro israelense de que o Estado judeu possui armas nucleares", prosseguiu Larijani.

O presidente da República Islâmica do Irã, Mahmud Ahmadinejad, declarou por sua vez em Teerã que "quer o Ocidente queira, quer não, o Irã é um país nuclear, e seu interesse consiste em conviver com ele. A vontade do Ocidente é fomentar a ação de certos grupos no interior de nossa nação, agitando um pedaço de papel roto para dividir nosso povo. Mas essas sanções não afetarão os iranianos, e os signatários da resolução vão lamentar muito em breve sua iniciativa trivial e superficial. Ponham fim a esse jogo de marionetes: de um lado nos enviam mensagens de amizade e por outro nos mostram os dentes. É uma pena que os ocidentais tenham perdido a oportunidade de se transformar em amigos do povo iraniano."

Como se esperava, portanto, o Irã não somente rejeita as sanções aprovadas pelo Conselho de Segurança como decidiu acelerar seu programa nuclear, confrontando o mundo. O Majles, Parlamento iraniano, iniciou um procedimento de urgência para votar uma lei estipulando que o governo deve revisar sua cooperação com a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), com sede em Viena. Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores comentou que é lógico que seu governo "não mantenha o mesmo nível de cooperação" com esse organismo, uma vez estabelecidas as sanções contra o Irã.

Vários deputados expressaram o desejo de que o Irã abandone o Tratado de Não-Proliferação Nuclear e expulse os inspetores da AIEA, encarregada do controle. Um parlamentar pediu que seja fechada a embaixada britânica e expulsos os embaixadores inglês, francês, alemão e russo. Teerã diz que a adoção de sanções é ilegal, contrária à Carta da ONU e reforçará a vontade do povo iraniano de manter "a independência e a soberania nacionais".

Na prática, desde fevereiro o Irã já havia limitado as visitas dos inspetores da AIEA, apesar de ter permitido a verificação de algumas usinas de atividades nucleares. Nas últimas semanas diminuíram as inspeções na usina de enriquecimento de urânio de Natanz, mas os iranianos permitiram que fosse visitada em duas ocasiões e que se instalassem câmeras de televisão que continuam funcionando, para vigiar suas atividades. Em novembro foi autorizada a inspeção de um laboratório em Teerã para extrair amostras a fim de examinar se contêm urânio. Isto é, apesar de todos os confrontos as relações entre o Irã e a AIEA não estão rompidas.

A revolução islâmica de Teerã foi, sobretudo, uma afirmação nacionalista depois das ingerências estrangeiras - como da CIA americana, que derrubou o primeiro-ministro do xá, Musadeq, que deu a ordem de nacionalizar a Iranian Petroleum Company. Foi de fato o xá quem começou esse programa de desenvolvimento de energia atômica, que voltou a ser acionado durante o regime de Khomeini, depois de vários anos de suspensão.

Antes das sanções comerciais e econômicas aprovadas sábado, no âmbito do enriquecimento de urânio, dos projetos vinculados aos reatores de água pesada e do desenvolvimento de foguetes balísticos, o Irã já havia sofrido outras medidas de retorsão por parte dos EUA e de governos europeus. O governo Bush acredita que o Irã tentará veicular seu dinheiro através de certas instituições financeiras para armar e financiar o Hizbollah, o Hamas e outras organizações árabes. Esse grave confronto entre o Irã e o Ocidente, que suspeita que sob a cobertura nuclear civil o governo iraniano quer obter uma arma atômica, poderá repercutir na situação do Líbano, da Palestina e do Iraque.

Exatamente sobre esse perigo alertou o sul-coreano Ban Ki Mun, que a partir de 1º de janeiro sucederá Kofi Annan como secretário-geral da ONU, que apelou ao Irã para que retome as negociações sobre seu programa nuclear com a "tróica" européia (França, Alemanha e Reino Unido). "A questão nuclear iraniana tem grandes implicações em nível regional e mundial", salientou.

Por sua parte, o ministro das Relações Exteriores francês, Philippe Douste-Blazy, advertiu Teerã que sofrerá um "isolamento total" se fechar as portas à negociação, enquanto lembrou que pela primeira vez as sanções foram aprovadas pelo Conselho de Segurança de forma unânime, com os votos da Rússia e da China. Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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