Alemanha tenta insuflar vida no projeto europeu estagnado

Marc Bassets
em Berlim

A Alemanha, o país mais populoso da União Européia, o mais rico e o mais central do continente, geográfica e politicamente, quer aproveitar que nos próximos seis meses presidirá o clube dos 27 para ressuscitar o projeto europeu estagnado.

A chanceler Angela Merkel assumiu ontem as rédeas de uma UE ampliada, com dois novos sócios - Romênia e Bulgária -, com um objetivo principal: reavivar o tratado constitucional, em ponto morto desde que na primavera de 2005 os franceses e holandeses o rejeitaram em referendo.

A presidência semestral - somada à presidência em 2007 do G8, fórum que reúne os sete países mais industrializados do mundo mais a Rússia - oferece um pódio privilegiado para a nova Alemanha. Um país mais seguro de si mesmo, emancipado da tutela exercida pelos EUA durante a Guerra Fria e até os anos 90 e menos complexado na hora de reivindicar os interesses nacionais.

Também é a hora da democrata-cristã Angela Merkel. Chanceler há um ano, à frente de uma grande coalizão de democratas-cristãos e social-democratas, Merkel - que ontem participou da comemoração dos 50 anos da incorporação do estado de Sarre à Alemanha - tem uma oportunidade única de se projetar como líder européia.

O fato de que o presidente Jacques Chirac, da França, e o primeiro-ministro Tony Blair, do Reino Unido, deverão se aposentar nos próximos meses poderá entorpecer as decisões na UE. Mas também facilitará a liderança da chanceler alemã.

A última vez que a Alemanha presidiu a UE foi em 1999. O clube tinha 15 membros. O social-democrata Gerhard Schröder acabava de estrear como chanceler. E o 11 de Setembro não havia acontecido. O mundo mudou. A política européia e externa alemã também?

"Há uma nova pessoa. Na minha opinião, a chanceler atuou muito bem em política externa", responde o deputado social-democrata Niels Annen. "Mas a política externa não mudou. Isso é garantido por Frank-Walter Steinmeier [ministro das Relações Exteriores social-democrata e ex-colaborador de Schröder]".

O consenso interno entre social-democratas e democratas-cristãos parece garantido. "Temos uma responsabilidade especial", disse recentemente em um encontro com jornalistas em Berlim o democrata-cristão Ruprecht Polenz, presidente da Comissão de Relações Exteriores no Parlamento. "Afinal ninguém deve poder dizer que atuamos de maneira egoísta, mas sim que fomos os advogados do projeto europeu."

A Alemanha pretende dedicar a presidência a melhorar as relações com a Rússia, maior provedora de energia mas vizinha incômoda para os antigos satélites, especialmente para a Polônia dos irmãos Kaczynski, cética do projeto europeu. Um dos objetivos de Merkel é renegociar o tratado de associação com a Rússia de Vladimir Putin.

O dia principal da presidência alemã será 25 de março, quando os chefes de Estado e de governo se reunirão em Berlim para comemorar o 50º aniversário do Tratado de Roma, que fundou a então Comunidade Econômica Européia. Nesse dia deverá ser assinada a chamada Declaração de Berlim, na qual os 27 se comprometerão com o projeto europeu, justamente num momento de recrudescimento nacionalista.

Somente quando a França tiver decidido se seu próximo presidente será Nicolas Sarkozy ou Ségolène Royal, Merkel poderá desobstruir o tratado constitucional, já ratificado por 18 países, entre eles a Espanha.

A Alemanha quer assentar as bases para que em 2009, coincidindo com as eleições européias, se possa ratificar um novo texto que preserve ao máximo o atual. "O que decidirá realmente o sucesso da presidência será como abordar essa questão", avalia o influente semanário alemão "Der Spiegel". A Alemanha, mais segura de si mesma no mundo, assume a batuta da União Européia no momento do ingresso da Romênia e da Bulgária Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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