Robert Waterson, geneticista que seqüenciou o genoma dos chimpanzés: "Você é irmão do chimpanzé"

Víctor M. Amela

Tenho 63 anos, nasci em Detroit e vivo em Seattle. Dirijo o departamento de ciências da Universidade de Washington. Dirigi o Centro de Seqüenciamento do Genoma, onde seqüenciamos o genoma do chimpanzé. Sou casado e tenho três filhas. Sou democrata. Deus? Sou um humanista científico. O chimpanzé tem autoconsciência.

A entrevista:

La Vanguardia - Sou irmão ou primo do chimpanzé?
Robert Waterson -
Irmão. Os chimpanzés são nossa espécie irmã.

LV - Como o senhor sabe?
Waterson -
Comparei o genoma do chimpanzé com o genoma humano.

LV - E o que revela essa comparação?
Waterson -
Que há uma diferença de apenas 4% entre os dois.

LV - E com os bonobos [espécie de primata]?
Waterson -
Por que pergunta?

LV - Eles copulam de frente, como os humanos...
Waterson -
São nossos primos: os bonobos e os chimpanzés se separaram há 2 milhões de anos.

LV - E quando isso aconteceu entre humanos e chimpanzés?
Waterson -
Tiveram um ancestral comum há cerca de 6 milhões de anos.

LV - Depois do chimpanzé, qual é o genoma mais parecido com o nosso?
Waterson -
O do gorila.

LV - E depois?
Waterson -
O do orangotango.

LV - E depois?
Waterson -
O do macaco.

LV - E...?
Waterson -
Seqüenciamos o genoma do rato, espécie que surgiu há 75 milhões de anos. E o da galinha, há 200 milhões de anos. E o da minhoca, de quase 600 milhões...

LV - Que deve ser muito diferente do nosso, é claro.
Waterson -
Bem, o homem e a minhoca compartilham 50% do genoma.

LV - Mesmo? Isso não é humilhante?
Waterson -
Não. Há um bilhão de anos houve um bolor que foi o antepassado de todos os seres que citei, incluindo você e eu.

LV - Esses 50% que tenho em comum com a minhoca, que funções regem em meu organismo?
Waterson -
As funções vitais mais elementares, relativas ao sangue, à respiração...

LV - E esses 4% de diferença genética com o chimpanzé, se expressam em nosso cérebro?
Waterson -
A metade de nosso genoma está envolvida no cérebro. Assim como o genoma do chimpanzé. Mas... quais genes? E com que funções específicas? Genes iguais desempenham funções diferentes em cada espécie?

LV - O que é que nos torna humanos?
Waterson -
Uma soma de detalhes: caminhar eretos, não ter pêlos, a linguagem... Um exemplo: compartilhamos com o chimpanzé um gene que é o que gera certa proteína que desenvolve o músculo da mandíbula. Mas, por uma mutação, esse gene nos humanos ficou inativo há 3 milhões de anos.

LV - Ou seja: o chimpanzé morde mais forte.
Waterson -
Ao desenvolver menos esses músculos, eles não chegam até o alto do nosso crânio, mas nos chimpanzés sim, o que comprime seu crânio.

LV - O senhor sugere que graças a essa mutação genética nosso crânio pôde continuar crescendo?
Waterson -
Sim, e assim pôde abrigar um cérebro maior. E talvez isso tenha possibilitado a linguagem! É claro que houve outras causas, claro...

LV - Será que não existe uma linguagem chimpanzé?
Waterson -
Existe, mas é muito limitada. Nossa habilidade comunicativa é tamanha que acaba por nos levar à sociedade. E à conservação do conhecimento: isso é a cultura.

LV - Então não há cultura chimpanzé?
Waterson -
Um grupo de chimpanzés aprendeu a descascar nozes usando duas pedras. Mas os adultos não ensinam isso a suas crias. Por isso aquele novo conhecimento voltou a se perder facilmente...

LV - Nossa espécie, por outro lado, em algum momento deu um salto da biologia para a cultura...
Waterson -
Nossa espécie, o Homo sapiens, aparece somente há 150 mil anos. Ou seja, estamos aqui há cerca de... 10 mil gerações.

LV - E quando se pode dizer que surgiu uma espécie nova?
Waterson -
Quando acontece que seus membros só podem gerar crias férteis entre si.

LV - Nós e os neandertais não pudemos nos cruzar e gerar uma cria fértil?
Waterson -
Parece que não... pelo menos por enquanto não encontramos rastros em nosso genoma do que foi o genoma do neandertal.

LV - O senhor conhece bem o genoma do neandertal?
Waterson -
Com novos restos fósseis recém-surgidos poderemos estudá-lo ainda mais a fundo.

LV - O senhor poderia extrair o DNA desses fósseis e clonar um homem de neandertal?
Waterson -
Isso não é possível hoje. O que não significa que não possa dentro de um século.

LV - Como é que em 150 mil anos nos desdobramos em uma variedade étnica tão colorida?
Waterson -
Porque em cada mutação se verificam cerca de cem mutações genéticas novas, e cada meio vai selecionando umas e não outras. Mas fizeram-se poucos estudos até hoje sobre as chaves genéticas de cada etnia.

LV - Vejo que não sabemos muito sobre nós...
Waterson -
Há tanto a investigar nos genes...!

LV - Conseguiremos um dia decifrar tudo sobre nossos genes?
Waterson -
Tudo? Hmm... Em todo caso, é um trabalho para os próximos cem anos. Em nosso genoma há cerca de 22 mil genes... agora é preciso entender como cada um deles se combina com todos os demais, e são mais combinações do que os átomos existentes no universo!

LV - Afinal, de que serve aos humanos conhecer o genoma do chimpanzé?
Waterson -
Um exemplo: os chimpanzés se infectam com o vírus HIV, mas não desenvolvem Aids! Por quê? Talvez seu genoma revele alguma chave útil para nós. Além disso, são menos sensíveis à malária do que nós.

LV - Dado esse parentesco, deveríamos estender os direitos humanos aos chimpanzés?
Waterson -
Eles também têm autoconsciência, por isso deveríamos tratá-los com todo o respeito.

LV - Por enquanto continuamos a manipulá-los em circos, zoológicos e experiências científicas.
Waterson -
É aceitável se o fizermos sem infligir práticas abusivas: deveríamos estudá-los mais, lhes agradecer o muito que nos ensinam sobre nós... e cuidar muito melhor deles.

Livro aberto

A equipe liderada por Robert Waterson publicou há um ano o seqüenciamento do genoma dos chimpanzés, que se mostrou quase idêntico ao nosso. Waterson e seus colegas também seqüenciaram os genomas de outras criaturas: isso é como abrir um livro de instruções de cada uma dessas espécies. Agora nos cabe aprender a ler todas as suas páginas, entender o que diz cada linha, detalhar sua ortografia: resta muita diversão pela frente.

E Waterson está encantado com isso. Pergunto-lhe do que se sente mais orgulhoso e ele me diz que "primeiro, de ter descoberto como seqüenciar grandes quantidades de DNA, e depois de ter conseguido controlar toda essa informação e, sobretudo, de tê-la colocado à livre e gratuita disposição de todos os cientistas do mundo". Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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