"A democracia é boa", declara autoridade chinesa

Rafael Poch
em Pequim

Imitando Guido Benigni e sua "A Vida É Bela", Yu Keping, um jovem e influente assessor do presidente chinês, Hu Jintao, destacou-se esta semana com um rotundo elogio à democracia. Não é um simplismo, mas um catálogo repleto de bom senso. Seu artigo, intitulado "A democracia é boa", foi publicado no semanário de Hong Kong "Yazhou Zhoukan", embora um jornal de Pequim já o tivesse divulgado, provocando grande debate.

Enquanto o presidente Hu mantém uma campanha anticorrupção sem precedentes e um esforço para purificar o Partido Comunista, Yu, diretor do Centro de Inovações da Universidade de Pequim, proclama que a democracia é boa, embora "má" para os funcionários corruptos. Na democracia os poderes desses funcionários seriam fiscalizados e "por isso eles não a apreciam".

A democracia não é perfeita, diz Yu, tem "inconvenientes internos". Por exemplo, pode fazer as pessoas saírem à rua e, em condições não democráticas, pode criar instabilidade política e complicar assuntos muito simples. Os procedimentos e as discussões também podem reduzir a eficácia da administração e dar asas a todo tipo de demagogo, mas mesmo assim, "de todos os sistemas inventados e aplicados à democracia é o que tem menos defeitos, quer dizer, é o melhor sistema político para a humanidade".

"A democracia", ele acrescenta, "não é só um meio para resolver as necessidades materiais, também é uma meta do desenvolvimento humano; mesmo quando dispõe da melhor alimentação e moradia, o caráter humano é incompleto sem direitos democráticos."

O fato de a democracia ser boa não significa que seja uma receita mágica. A democracia pode ter um custo, pode "destruir o sistema legal", "causar desordens", "interromper o desenvolvimento econômico" e "distorcer a paz internacional" ou "promover certos ditadores". "Tudo isso aconteceu e continuará acontecendo", embora não seja um defeito da democracia, mas dos homens encarregados de aplicá-la.

Alguns políticos usam a democracia como ferramenta para chegar ao poder. "Para eles a democracia é o rótulo, mas a ditadura e o poder são a realidade e a substância." A democracia "é uma tendência inelutável de todas as nações", mas os ritmos de sua aplicação e sua forma são optativos. A democracia, explica Yu, deve estar vinculada às tradições, à cultura política e ao nível dos políticos e do povo. Promovê-la sem essas condições pode acarretar conseqüências desastrosas. "É necessária a sabedoria do povo e dos políticos para pagar o menor preço político e social. Nenhuma pessoa ou grupo político pode se apresentar como a encarnação da democracia, forçando as pessoas a fazer isto ou aquilo".

No plano nacional, "se um governo emprega a força para que a população aceite um sistema não escolhido, trata-se de uma autocracia". No internacional, "se um país usa a violência para forçar outros países a aceitar sua suposta democracia, é uma tirania".

O autor explica que a China está construindo uma "forte nação socialista modernizada, de características únicas" e que os pais do socialismo afirmaram que "não há socialismo sem democracia", e Hu Jintao que "não há modernização sem democracia". "Os chineses queremos filtrar os bons resultados da política universal, incluindo os da democracia, mas não importaremos modelos de ultramar. Nossa democracia deve estar integrada à tradição e às condições sociais da China", conclui.

Visões da China

A China é o regime comunista rígido e imobilista que pintam nossos jornalistas? David Gosset, um especialista francês da Universidade Européia de Xangai, aponta o depoimento de seu compatriota, o diplomata Eugène Simon, que depois de dez anos na China escreveu que "muitos europeus crêem que a China é a quintessência do país despótico". "Pode-se esperar", disse Gosset, "que muitos ocidentais continuem se fixando exclusivamente nas diversas imperfeições da sociedade chinesa, recusando-se a reconhecer suas melhoras, o que para eles confirma seus preconceitos e sua própria superioridade."

Provavelmente não há país que tenha mudado mais nos últimos anos e que realize mais reformas que a China. Os programas de seus políticos e de suas instituições mostram um país aberto a mudanças e um sistema que se admite aperfeiçoável e para o qual a evolução é imperativo de modernização. Em um artigo sobre as raízes democráticas da tradição chinesa, Gosset observa que "para a China, a democratização não precisa ser um processo de alienação", já que é compatível com elementos de sua tradição.

"Posto que o recente processo de modernização política não é uma ruptura total com essa tradição, não se deve esperar que a China adote uma democracia do tipo europeu, mas uma com características chinesas. Em outras palavras, a China pode ser moderna e chinesa ao mesmo tempo: em sua qualidade de matriz da civilização, enriquecerá a modernidade e enriquecerá o vocabulário dos politólogos ocidentais", prognostica esse filósofo. Um influente assessor do presidente da China, Hu Jintao, faz significativo elogio ao pluralismo Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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