Inverno quente: montanhas ficam sem neve na Escócia

Rafael Ramos
em Aviemore, Escócia

Um aumento de meio grau na temperatura média no último quarto de século não parece, no papel, um fenômeno para se pôr as mãos na cabeça. Mas no maciço escocês de Craighorn, que abriga cinco dos picos mais altos do país, o impacto do aquecimento global é alarmante. Espécies de pássaros e plantas autóctones se transferiram para os climas mais frios do norte, a neve é cada vez menos freqüente e as estações de esqui estão em vias de desaparecer.

"Em janeiro os montes de mais de mil metros deveriam estar nevados; não faz muito tempo, permaneciam brancos quase o ano todo e o excepcional era vê-los descobertos", diz Adam Watson, um veterano naturalista de 76 anos que dedicou boa parte de sua vida a estudar a flora e a fauna dessa região. São as Terras Altas da Escócia, ao sul de Inverness e perto do Palácio de Balmoral e das famosas destilarias de uísque de Speyside, tradicional destino de inverno dos britânicos que querem passar um fim de semana esquiando sem necessidade de viajar até os Alpes ou os Pirineus. Esse luxo já é impossível.

No caso do maciço de Craighorn, onde vivem 16 mil pessoas, meio grau significa a diferença entre haver neve ou não; entre as estações de esqui estarem abertas ou fechadas; a indústria do turismo viver ou morrer; a flora ártica da região existir ou desaparecer; que os cervos vermelhos característicos da região sejam obrigados a buscar novos hábitats e aves como a águia, a calandra marinha e o verdelhão das neves - acostumadas a alimentar-se de larvas que ficavam presas na neve e no gelo - migrem para o norte.

O impacto do aquecimento global não é exclusivo da Escócia. Os londrinos estavam habituados a ver o canal que atravessa o norte da cidade e trechos do rio Tâmisa congelados nos invernos mais duros, coisa que não ocorre há uma década. A mudança é palpável no calendário esportivo, já que afeta os outrora freqüentes cancelamentos de partidas de futebol e rúgbi devido ao frio, à neve e à chuva.

O clima da Inglaterra está cada vez mais mediterrâneo, como confirma o fato de que se cultivem vinhas em todo o sul do país, desde Gales até Kent, se comece a produzir azeite de oliva em Devon, se comercialize uma variedade inglesa de trufas negras e haja plantações de chá, abricó, figos e amêndoas, tradicionalmente associadas a solos mais quentes.

O inverno atual foi até agora tão suave que as plantas e os animais estão confusos. Os narcisos começaram a florescer na Cornualha com pelo menos três meses de antecedência e o mesmo ocorre com os carvalhos e os rododendros. Há áreas onde as maçãs permanecem nas árvores em pleno janeiro e escuta-se o zumbido das abelhas em busca de pólen. O instituto meteorológico prevê que 2007 será o ano mais quente da história e baterá os recordes de 1998.

As Terras Altas da Escócia continuam tendo um verde especialmente intenso, e podem registrar chuva pelo menos uma vez por dia ao longo de dois meses ou até mais. Aos olhos de um visitante, poderia parecer que a mudança climática não chegou aqui, mas os nativos comentam que faz menos frio e os padrões dos ventos estão diferentes. "Um terço da neve desapareceu de picos como o imponente Ben Nevis, os Munros e os Corbetts", diz Adam Watson, "e dentro de poucas décadas não restará nada."

O aquecimento global alterou palpavelmente o equilíbrio ecológico do maciço de Craighorn, a meseta mais alta de todo o Reino Unido, uma extensão de tundra com uma ecologia ártica que constitui o hábitat de águias selvagens, galinhas da neve, verdelhões da neve, calandras marinhas e espécies de aves e pássaros que não se vêem no resto do país.

"A maior parte da água chega à região em forma de nuvens baixas e é absorvida pelo musgo", explica René Van der Wal, pesquisador do Centro de Ecologia e Hidrologia de Banchory. "O problema é que atualmente essas nuvens se apresentam com três vezes mais poluição de nitrogênio do que há um quarto de século, devido às emissões poluidoras das fábricas e das granjas."

Plantas que não sobreviveriam no maciço de Craighorn são alimentadas pelo nitrogênio dessa neblina e nuvens baixas, que por sua vez matam os musgos e outras espécies autóctones onde viviam as larvas de insetos necessários para a ecologia ártica da meseta e a alimentação dos pássaros. Em 2005 restavam só 27 machos dos verdelhões das neves, um terço dos que havia no início dos anos 90. O progressivo desaparecimento da neve também tem um impacto considerável sobre a natureza, já que ela atua como uma espécie de manto que permite que o solo permaneça relativamente quente e úmido e o protege dos ventos gelados do norte e das brutais flutuações da temperatura que matam os micróbios.

"A mudança climática é evidente nas montanhas da Escócia", afirma a socióloga Kirsty Blackstock, do Instituto Macaulay, "mas prever suas manifestações é muito difícil e, portanto, também tomar medidas preventivas. O curso dos rios está sendo afetado, com conseqüências potencialmente significativas para o abastecimento de água das residências, o turismo da neve e as destilarias de uísque". A elevação da temperatura no maciço de Craighorn provoca o êxodo de pássaros e a mudança da flora. A alteração climática está prestes a afetar as destilarias de uísque Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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