Partidários de Morales derrotados criam "governos revolucionários" na Bolívia

Joaquim Ibarz
Na Cidade do México

A Bolívia está perdendo a marcha acelerada da institucionalidade com mobilizações promovidas pelo governo de Evo Morales contra autoridades regionais eleitas democraticamente. Uma assembléia popular de grupos sociais de Cochabamba, província situada no coração da Bolívia e conhecida como o celeiro do país por sua vasta produção agrícola, constituiu um "governo revolucionário", ignorando o mandato do governador Manfred Reyes Villa, de oposição.

Em La Paz, outros grupos ligados ao governo se mobilizaram para pedir a demissão do governador José Paredes, ameaçando aplicar "medidas radicais de pressão".

Os protestos contra Reyes Villa e Paredes começaram porque os dois governadores pediram autonomia para suas províncias e apoiaram os grupos autonomistas dos departamentos do leste da Bolívia, que se opõem a Evo Morales.

A assembléia popular de Cochabamba, essencialmente camponesa, determinou, a pedido de um senador do partido Movimento Ao Socialismo (de Morales), a destituição do governador, sua submissão a um julgamento de responsabilidade e a designação de um substituto. Com essa iniciativa, agrava-se uma crise que já deixou dois mortos e mais de 200 feridos em confrontos entre setores adversários.

A medida adotada não tem apoio legal e poderia gerar ações destinadas a seu conhecimento pelas instâncias jurídicas, o que reavivaria o conflito, cujo fundo político, marcado pelo próprio governo Morales, é evidente.

Os cidadãos sentem temor e incerteza e praticamente não saem de casa. Diante do crescente caos e anarquia, as pessoas não sabem a que autoridade devem obedecer. O governador Reyes Villa, que se exilou na cidade oriental de Santa Cruz de la Sierra, afirma que "há perigo de guerra civil na Bolívia".

Líderes dos agricultores, muitos deles plantadores de coca, ocuparam a sede da prefeitura regional. Um governo revolucionário integrado por 18 membros de organizações ligadas a Evo Morales pretende atuar como "prefeitura popular". A ala mais radical designou um subgovernador, o que fez alguns setores sociais aprovarem a medida.

Apesar de o governo ter condenado a destituição do governador, a oposição denuncia que Evo Morales mantém um duplo discurso oficial. Por um lado pede respeito à institucionalidade democrática, enquanto por outro promove e financia protestos contra os governadores e inclusive organizou a transferência de cocaleiros de Chapare e agricultores para Cochabamba para derrubar Reyes Villa. Os manifestantes receberam e recebem comida e ajuda do fundo oficial para vítimas de catástrofes. Diante dos dois mortos já registrados em Cochabamba, partidários do governador afirmam que é sarcástico que se promova o Nobel da Paz para Evo Morales.

A radicalização da mobilização popular ocorreu horas depois que a oposição decidiu apoiar uma lei proposta pelo presidente Morales para permitir, através de referendo, a revogação do mandato de governantes eleitos pelo voto popular. O prefeito de Cochabamba adverte sobre o "perigo de guerra civil" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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