Hamas completa um ano no governo palestino

Henrique Cymerman
em Jerusalém

"Vai de mal a pior", dizem alguns em Gaza, resumindo um ano de governo islâmico do Hamas. "É a idade de ouro de nossa história, só comparável com Al Andaluz", opinam outros.

Para entender a revolução ocorrida em Gaza e na Cisjordânia com a dramática vitória eleitoral do principal movimento islâmico palestino, fundado em 1987, basta cruzar a fronteira de Erez, entre Israel e Gaza, e dirigir-se às praias paradisíacas e virgens do norte de Gaza. Aqui há um antigo balneário chamado Al Waha (o oásis) que pertence a um dos homens-fortes do grupo nacionalista Al Fatah, Muhamad Dahlan, freqüentemente acusado de corrupção e ameaçado pelos fundamentalistas.

Nos anos 90 este era um dos poucos lugares de encontro de turistas israelenses e palestinos. Na última semana, dezenas de mascarados com faixas verdes na testa com os dizeres "Alá é grande" chegaram ao complexo e dinamitaram os edifícios. Depois de se apresentar como membros de um comando da Al Qaeda palestina, abandonaram o lugar. Eram membros do braço armado do Hamas, que assim tenta vingar-se de Dahlan, um de seus principais rivais na guerra fratricida vivida nas últimas semanas.

Quase ao mesmo tempo, no centro de Gaza, em uma manifestação organizada com centenas de crianças, estas gritaram os nomes do primeiro-ministro e do responsável pelas Relações Exteriores do Hamas: "Haniye e Zahar, vocês trouxeram o caos e são assassinos de crianças". Pouco depois gritaram em árabe: "Shia, shia, shia!", assim acusando o Hamas de ter-se entregado aos xiitas do Irã e do Hizbollah. O pai de uma das crianças explica: "Nós, sunitas, quando damos a mão a um xiita, devemos lavá-la imediatamente".

Sufian Abu Zaide, dirigente da Al Fatah, fez mediações no ano passado para conseguir a libertação de diversos palestinos seqüestrados mutuamente pelos dois movimentos rivais. O próprio Abu Zaide foi seqüestrado durante algumas horas pelo Hamas. Agora em seu escritório, diz a "La Vanguardia" que o grande problema é que o Hamas foi eleito de forma democrática, mas não está comprometido com nenhum dos valores democráticos. "Nosso grande erro foi não ter desarmado a população: não existe democracia quando cada cidadão tem uma arma. O Hamas fracassou em quase tudo, não trouxe segurança. É a primeira vez em nossa história que centenas de palestinos morrem nas mãos de seus irmãos. Não resolveu o problema econômico nem conseguiu derrubar o boicote internacional", diz. E acrescenta, utilizando a terminologia palestina que normalmente se refere à chamada "tragédia de 48" (a criação de Israel): "O Hamas provocou uma 'Nakba'. Não podemos garantir que nossos filhos vão à escola e voltem sãos e salvos. Não temos comida nem segurança, nem trabalho nem futuro".

Mas a maioria da população de Gaza, ao contrário da Cisjordânia, continua apoiando o Hamas, segundo todas as pesquisas. As bandeiras verdes do islã dominam as ruas. A sensação de anarquia também. O ativista do Hamas Ahmed Kalif salienta que nem tudo é sombrio: "Pela primeira vez a administração palestina não é corrupta, como na época da Al Fatah, e levou o povo pelo caminho da retidão e do bem".

O jovem Ali Al Hurbuti, por sua vez, comenta: "O mais urgente é conseguir a união de nosso povo para enfrentarmos juntos todos os problemas. Somos irmãos e temos de nos entender".

Nos últimos dias os 7 mil mascarados da chamada Força Auxiliar do Hamas, protagonistas de diversos choques com os milicianos da Al Fatah, praticamente desapareceram das ruas a pedido do presidente Mahmud Abas, que declarou ilegal essa força criada pelo Ministério do Interior do Hamas.

Nesta terça-feira (30), supostos membros das Brigadas dos Mártires de Al Aqsa (da Fatah) mataram em Jan Yunes um dos integrantes da milícia integralista irregular. Mesmo assim, e depois dos constantes apelos à calma dos líderes palestinos (Haniye pediu que as facções usem "a razão e o diálogo para preservar a união"), a violência tende a diminuir, mas os choques persistem.

Ontem os dois partidos deram as boas vindas a duas novas iniciativas de negociação. O rei Abdulah da Arábia Saudita propôs uma reunião do Hamas com a Al Fatah em Meca para que resolvam suas diferenças "sem nenhuma ingerência externa". De Damasco, o líder máximo do Hamas, Jaled Mishal, deu sua aprovação ao encontro enquanto o próprio Abas se mostrou disposto à reunião por parte da Al Fatah. Os dois grupos também vêem com bons olhos uma iniciativa formulada pela delegação de segurança egípcia que se encontra em Gaza.

Analistas palestinos como Zakaria Talmen lembram que algo acontece nas relações entre Israel e o Hamas. De um lado, Mishal afirmou pela primeira vez que a existência de Israel é "um fato consumado", o que alguns interpretam como um reconhecimento da legitimidade de Israel. O ministro da Defesa, Amir Peretz, e o ex-chefe do Mosad Efraim Halevy apoiaram a negociação com o Hamas se os islâmicos aceitarem os acordos feitos no passado pela OLP e abandonarem a violência.

Um ano depois de sua vitória histórica, o Hamas oscila entre a linha da jihad (guerra santa) e o pragmatismo necessário para governar. A Fatah, por sua vez, ainda não superou o trauma de sua derrota inédita e em vez de fazer autocrítica limita-se a acusar os fundamentalistas de progredir passo a passo na direção equivocada. Os dois principais partidos da Palestina estão mais opostos que nunca, com constantes ataques entre seus braços armados e um número de vítimas que supera os 60 mortos desde que Mahmud Abas anunciou eleições antecipadas, em dezembro
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