A reinvenção do Pompidou

Óscar Caballero
em Paris

O segundo maior acervo de arte contemporânea do mundo, 180 milhões de visitantes e a possível criação de três fundações - em Tóquio, Brasil e Xangai - são os números redondos que o Centro Pompidou exibiu nesta quarta-feira (31/1) ao completar 30 anos de vida. Sua estréia, que mudaria o panorama da cultura mundial, aproximando-a do cidadão como nunca antes, será comemorada nos próximos meses com uma macroexposição de 1.300 obras do acervo do museu, com a simbólica mostra "Airs de Paris" [Ares de Paris] e com o IRI, um instituto de criação e inovação digital.

Benoit Tessier/Reuters 
Jacques Chirac observa a maquete do Centro Pompidou durante cerimônia dos 30 anos

Em 31 de janeiro de 1977 os convidados para a inauguração do "ocni" (objeto cultural não-identificado) do visionário Georges Pompidou pensaram que aquilo não estivesse pronto. Outros o chamaram de "refinaria de petróleo". A inteligência parisiense denunciou a "desfiguração da área". Na realidade, o lugar onde se ergueu o centro era um estacionamento cercado por edifícios em ruínas, fachadas escurecidas pelo tempo, prostitutas magras, ratos gordos e bordéis clandestinos.

A comemoração do 30º aniversário tem uma vingança contábil: 180 milhões de visitantes. Mas Bruno Racine, desde 2002 o nono presidente do centro, prefere planejar o Pompidou do século 21. Sabe que os tubos coloridos de Renzo Piano e Richard Rogers mudaram o mundo: hoje, ao ouvir a palavra "cultura", os funcionários públicos puxam a calculadora.

Se a universalidade pedida por Pompidou se moldava, nos anos 80, nos laços culturais com os EUA, tendo no horizonte 2010, e embora tenha despertado a Georges Pompidou Foundation de Los Angeles, criada em 1987 e que perdia o vigor, Racine diz "bric". Como os economistas. "Bric" aqui significa "Brasil, Índia e China". E também Japão. Em 7 de fevereiro, o novo Centro Nacional de Artes de Tóquio será inaugurado com uma exposição enviada do Pompidou. É "o germe de uma fundação equivalente à de Los Angeles". E em março "uma delegação do centro parte para o Brasil para assentar as bases de uma estrutura semelhante".

Racine considera injustas as críticas ao Louvre de Abu Dabi. Mais ainda, associa a ele seu museu de arte moderna: "Empréstimos e, sobretudo, pedagogia. A arte moderna é de difícil acesso. Mas, além disso, nos apaixona colocar esse problema em um contexto tão diferente e tradicionalista". Por outro lado, "a globalização dos museus é inevitável. As exposições só existirão em co-produção. Preparamos Calder com o Whitney Museum, e assim a frágil "Le Petit Cirque" atravessa o Atlântico; Louise Bourgeois, com a Tate; Kandinsky, com o Guggenheim e Munique". E se o Pompidou Metz já tem data marcada, o projeto do século é o Pompidou Xangai: "Nossa análise indica a China como maior terremoto da cartografia da arte mundial".

Toda a arte moderna e Beckett

A partir desta quarta (31) e até a última semana de fevereiro, no exterior do Centro Pompidou será projetado todas as noites o vídeo "À la Belle Étoile", da suíça Pipilotti Rist. Ao mesmo tempo, de 1º de fevereiro a 2 de abril, haverá uma exposição do acervo histórico do museu, de 1906 a 1960: 1.300 obras e 550 revistas. "Um percurso cronológico para ressaltar a criação de artistas da primeira metade do século passado".

E de 25 de abril a 15 de agosto a exposição-acontecimento do ano: "Airs de Paris". Neste caso, a cronologia vai de 1970 até hoje, através da obra de 73 criadores que exploram os temas da cidade e da vida urbana.

Por um lado, artes plásticas (Tatiana Trouvé, Daniel Buren, Nan Goldin...) e por outro paisagem, arquitetura e desenho (projetos inéditos de Zaha Hadid, Jasper Morrison, Roman e Erwan Bourollec).

E ainda mais: o museu projeta uma "travessia pela obra de Samuel Beckett", na linha das exposições Roland Barthes e Jean Cocteau. Será de 14 de março a 25 de junho e contará com documentos excepcionais sobre as diversas facetas do criador. Também fará uma retrospectiva sobre Pierre Klossowski e um panorama da obra de Annette Messager.

E porque o digital nos toca nasce o IRI, um instituto de pesquisa e inovação "para desenvolver utensílios digitais (programas, revistas na rede) a fim de difundir o conhecimento da arte contemporânea e também ampliar a programação artística do centro". E Racine anuncia para junho "um festival de arte contemporânea destinado às crianças". O centro comemora 30 anos com projetos de expansão, do Brasil a Xangai Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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