Governo britânico teme "iraquização" do terrorismo islâmico no país

Rafael Ramos
em Londres

A detenção de nove pessoas em Birmingham sob a Lei Antiterrorista quase não seria notícia, não fosse porque os serviços de inteligência britânicos acreditam que os suspeitos pretendiam seqüestrar e talvez decapitar um membro das forças armadas. Isso representaria uma escalada notável na campanha do fundamentalismo islâmico na Europa.

Assim como em operações anteriores desse tipo - muitas das quais eram alarmes falsos que nem sequer levaram as acusações -, caminhonetes brancas da polícia das Midlands (região central da Inglaterra) efetuaram de madrugada uma batida em bairros muçulmanos, entrando em domicílios particulares, restaurantes e lojas como uma livraria islâmica. Oito pessoas foram detidas e mais tarde nove em uma estrada.

As autoridades trataram oficialmente o episódio com a reserva habitual, mas fontes policiais vazaram para a imprensa - para justificar a atuação - que os suspeitos estavam sob vigilância há vários meses e que o serviço secreto recomendou intervir com urgência, pois havia indícios de que a ação poderia ser efetuada imediatamente. A diretora do MI5, Eliza Manningham Buller, disse que foram abortados pelo menos 30 atentados no Reino Unido desde 7 de julho e que 1.600 terroristas operam no país.

Embora não esteja claro se os detidos são simples amadores, jovens exaltados ou profissionais do terror com ligações no Paquistão, Afeganistão e Arábia Saudita, Londres expressou um alarme lógico diante da possível tentativa de iraquização do radicalismo islâmico, com seqüestros e decapitações como a do britânico Ken Bigley em 2004, atribuída ao ramo iraquiano da Al Qaeda.

A evolução da campanha terrorista para seqüestros de soldados, membros das forças armadas e de companhias de segurança teria um efeito psicológico devastador sobre uma sociedade à beira da fratura, escandalizada pela participação de jovens nascidos e criados na Grã-Bretanha nos atentados ao metrô de Londres.

"Não queremos nem pensar no impacto de um vídeo que mostrasse o assassinato de uma pessoa em território britânico. Seria uma grande vitória para o terror, que é preciso impedir a todo custo", salientou um funcionário do Ministério do Interior.

A batida ocorreu poucos dias antes de uma pesquisa do jornal "Daily Telegraph" confirmar a recente radicalização dos jovens muçulmanos no Reino Unido, com 40% de partidários da aplicação da lei xariá, que segue os ensinamentos do Alcorão e pune as infrações com chicotadas, mutilações e até a pena de morte; 20% simpatizam com os motivos e sentimentos dos terroristas de 7 e 21 de julho, embora 99% digam que os atentados foram "um erro".

O mais interessante na pesquisa são as diferenças entre os muçulmanos britânicos de menos de 24 anos e os maiores de 55, que apesar de não terem nascido no Reino Unido assimilaram mais os costumes e o modo de vida do país: 75% do primeiro grupo são partidários de que as mulheres usem o véu, e somente 25% entre os mais velhos. Em conjunto, 58% da comunidade islâmica estimam que os atuais problemas são "fruto da política externa de Bush e Blair e das políticas arrogantes do Ocidente". Nove são detidos em Birmingham sob suspeita de planejar seqüestro e decapitação de um membro das forças armadas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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