A "vida alegre" dos defensores da família na Itália

María-Paz López
em Roma

A pregação deve ser de palavras e atos, ou basta que seja de palavras? - perguntam-se muitos italianos, perplexos diante da rejeição exagerada da oposição de centro-direita ao projeto de lei dos casais de fato, enquanto seus líderes (os mesmos que se rasgam as togas prevendo grandes males para a família) levam vidas pessoais pouco de acordo com os valores que defendem.

O texto, aprovado na quinta-feira pelo Executivo, concede direitos tanto a heterossexuais quanto a homossexuais; e a centro-direita, que condena as uniões de gays e lésbicas, também se opõe a que os casais de fato de homem e mulher sejam regulamentados. "Organizarei um simpósio para desmascarar todos os demonizadores dessa lei que em sua vida privada vivem como 'DICO' mas não o dizem", afirmou Stefano Pedica, deputado da Itália dos Valores, partido da coalizão governante de centro-esquerda de Romano Prodi. O significado da sigla DICO: "diritti e doveri dei conviventi" (direitos e deveres dos conviventes).

Entre as maiores revoltas está a de Umberto Bossi, líder da direitista Liga do Norte, para quem "elevar os casais de fato a famílias paralelas é um desastre". "Nosso povo só conhece um tipo de família, a do presépio." É pena que sua própria vida não ilustre o modelo citado: casado com Gigliola Guidati, com quem teve um filho, Riccardo, depois de seu divórcio em 1982 viveu dez anos com sua companheira Manuela Marrone. Nesse período tiveram três filhos e se casaram no civil em 1994. Sua biografia no website da Liga do Norte omite esses detalhes, e resume assim sua vida privada: "É casado com Manuela Marrone e pai de quatro filhos", com o que parece que todos são frutos de sua união com Marrone.

Outro insigne paladino da família tradicional que atacou o projeto de lei é o ex-primeiro-ministro de centro-direita Silvio Berlusconi, em cuja trajetória também há uma etapa de convivente. Casado em primeiras núpcias com Carla Dall'Oglio, com quem teve dois filhos, Marina e Piersilvio, divorciaram-se em 1985, mas ele já mantinha uma relação extraconjugal com sua atual esposa, Veronica Lario, que deu à luz em segredo em Genebra à primeira filha dos dois, Barbara.

Quando se casaram civilmente em 1990, já haviam nascido outros dois filhos, Eleonora e Luigi. A biografia oficial publicada no site da Forza Italia, o partido de Berlusconi, evita detalhes temporais sobre a passagem de um casamento para outro. Berlusconi acusou os DICO de ser "uma espécie de casamento de segunda divisão, que desvaloriza o significado da família, seu valor social e civil, e um presságio para a concessão da adoção de filhos inclusive para casais do mesmo sexo".

Ironias da sorte, os homens da esquerda, defensores da lei de casais de fato, ostentam vidas matrimoniais longas e exemplares, começando pelo católico primeiro-ministro, Romano Prodi, felizmente casado desde 1969 com Flavia Franzoni. Foram casados pelo cardeal Camillo Ruini, presidente da Conferência Episcopal Italiana, destinado a ser adversário de "Il Professore" depois de anunciar que os bispos darão "indicações sobre os DICO que serão obrigatórias para todos os católicos".

Outros líderes de centro-esquerda e esquerda podem exibir um casamento impecável, como Fausto Bertinotti (Refundação Comunista), Massimo D'Alema e Piero Fassino (Democratas de Esquerda), Francesco Rutelli (La Margarita) e Oliviero Diliberto (Comunistas Italianos). Na centro-direita, por sua vez, reina a debacle.

Outro acirrado defensor da família, o católico Pier Ferdinando Casini, líder da UDC (democratas-cristãos), tem duas filhas de seu casamento canônico com Roberta Lubich, da qual se separou. Hoje vive com Azzurra Caltagirone e têm uma filha, Caterina. Casini quer anular o casamento para casar-se com Azzurra, mas há outro problema: Roberta se casou com ele depois de conseguir a anulação de um casamento anterior, e é muito pedir que o tribunal da Rota anule dois casamentos da mesma pessoa.

Mais casos: o ex-ministro Roberto Calderoli (Liga do Norte) casou-se em 1998 com Sabina Negri pelo rito céltico diante de um druida, e depois se casaram no civil para dar a validade ao enlace; agora estão separados. Seu companheiro de partido e também ex-ministro, o divorciado Roberto Castelli, também se casou no rito céltico em 2005 com Sara Fumagalli, com quem vivia desde 1997. Os blogs fervem ultimamente com comentários sarcásticos sobre essas vidas alegres que os internautas consideram tão edificantes. Os líderes da direita italiana, contrários à lei dos casais de fato, acumulam divórcios e convivências. Ironias da sorte: homens de esquerda como Prodi, D'Alema ou Bertinotti têm casamentos exemplares Luiz Roberto Mendes Gonçalves

UOL Cursos Online

Todos os cursos